Artigo
Publicado em 27/04/2025, às 18h01 Marcelo Cerqueira
A Semana Santa é um tempo de recolhimento e reverência para o povo católico, mas, para mim, menino criado no Saco do Capim, em Irará, ela sempre trouxe lembranças que misturam fé, dor e festa. Bem antes do Domingo de Ramos, a casa era tomada pelas rezas e seguia a paixão. Lembro das mulheres cantando em coro, até que, na estrofe Senhor Deus "Casa que tem homem, mulher não tira Senhor Deus", elas silenciavam, e as vozes masculinas ecoavam sozinhas. Era um silêncio sepulcral que antecipava a reza drama. Jesus, já sabedor da morte, entrou triunfal em Jegue em Jerusalém, hoje capital de Israel que também é reivindicada pela Palestina. De quarta-feira para quinta Jesus vive sua agonia, surta “Pai, afasta de mim esse cálice”.
Na Sexta-Feira Santa, Cristo é exposto ao sofrimento máximo. Nu, ensanguentado, humilhado publicamente. Esse ritual de dor e sangue ecoa profundamente na cultura popular da Bahia, onde a comida ritual das religiões de matriz africana mistura-se à tradição cristã. Mas, além da mesa farta, existe outra tradição: o Baba do Vinho ou Baba de Saia.
Homens, movidos por inquietação e necessidade de expressão, transformaram a abstinência do tradicional "baba" (partida de futebol) em algo simbólico. Vestem-se de mulheres e jogam bola em saias e vestidos. Em bairros como Pernambués, onde vive minha amiga Léo Kret do Brasil Souza, centenas de homens atravessam, ainda que brevemente, o rígido limite da masculinidade tradicional vestidos de damas de copa, traje composto de saiote e blusa, tiara com a carta da cabeça. Em um gesto de brincadeira e transgressão, fazem uma travessia ritualística simbólica.
A simbologia nos trajes, adereços e maquiagem é profunda. Assim como Cristo, que se expôs publicamente na dor, os homens, vestidos de forma "imprópria" para seu gênero socialmente esperado, expõem-se ao olhar do outro. Vivem, por instantes, a experiência do julgamento e da inversão. E não raro, essa “travessia” é romantizada como uma "brincadeira", mas é, na prática, um rito popular de exposição e inversão simbólica, transmitida de pai para filho, ritual semelhante a desfilar de Muquiranas no Carnaval.
A embriaguez do vinho, que na liturgia cristã representa o sangue de Cristo, também tem aqui seu papel. Simboliza a comunhão entre aqueles que caem, que erram, que ressurgem no dia seguinte. É uma suspensão breve da rigidez do gênero, da seriedade social, e uma entrada em outro universo policromático muito cheiroso, onde o riso, o escárnio e a transformação são permitidos. Além de tudo isso, tem o fato de que eles, quase sempre, não são culpados.
O filósofo Schopenhauer dizia que as mulheres eram mais acusadas de perjúrio do que os homens, refletindo uma cultura que historicamente projetou nos corpos femininos a culpa e a desconfiança. No Baba do Vinho, a culpa do “desvio” é também projetada simbolicamente nas roupas femininas. Seria possível eles se permitirem transgredir porque podem depois "culpar" a fantasia, o momento, o feminino?
Quando um amigo celebrou a primeira participação do filho de 12 anos nesse ritual, ficou claro que o Baba do Vinho não é só festa boba. É iniciação. É um modo popular de ritualizar a “crise” e a travessia da masculinidade através do sangue e dor da Sexta-Feira Santa.
Em Salvador, o Baba do Vinho já é um patrimônio imaterial exclusivo da cidade. É um momento em que, ao redor do sangue, do cheiro doce do vinho e da travessia, homens se permitem, ainda que por algumas horas, serem outros — e, talvez, serem mais livres. “Amiga! Levanta a saia e faz o gol”, gosto dessas masculinidades não tóxicas.
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