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Do "Francês Gostoso" ao "Lindo" Presidente: A Antropofagia Cultural de Macron em Salvador

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Publicado em 10/11/2025, às 08h33   Marcelo Cerqueira



Salvador, a Bahia de história e paixão, ofereceu ao presidente francês, Emmanuel Macron, uma recepção ímpar. Sua passagem pela cidade, durante a COP-30, transformou a diplomacia em espetáculo de calor humano, um roteiro que transcendeu protocolos e reafirmou a peculiar relação histórica entre Brasil e França.

Impossível não fazer assimilação cultural e invocar aqui o clássico do Cinema Novo, "Como era gostoso o meu francês". O filme de 1971, ao satirizar o colonialismo com um aventureiro francês capturado pelos Tupinambás (destinado à antropofagia ritualística), ilustra a "antropofagia cultural" brasileira, nossa capacidade inata de absorver e transformar influências estrangeiras em algo intrinsecamente nosso.

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Macron, felizmente, não foi "gostoso" no sentido literal do filme. Mas o abraço baiano, com sua força assimiladora, certamente o convidou a uma outra forma de digestão cultural. Abraçado, elogiado e apelidado de "lindo" por sua nova legião de fãs, o presidente francês foi momentaneamente convertido em um "francês baiano".
Na sexta-feira de sua visita, o momento do abraço nas popular as ruas do Pelourinho fervilharam. O presidente, conhecido por sua postura geralmente austera, foi "tietado", "agarrado por mulheres" e "beijado" com aquela espontaneidade e calor que só Salvador possui. Com um bebê nos braços, gesto humanizador que derreteu corações e agraciado por um show especial das divas Daniela Mercury e Margareth Menezes, ao lado de autoridades locais como o prefeito Bruno Reis e o governador Jerônimo, Macron parecia genuinamente descontraído. Este "festival Nosso Futuro Brasil-França" informal deixou claro: o líder francês, mesmo casado com Brigitte, a Primeira-Dama da França, provou um calor humano que dificilmente experimentou na fria Paris. A Bahia, com sua energia contagiante, tem o dom de "abrasileirar" qualquer estrangeiro, com um toque de afeto e muita festa.

Essa relação entre Brasil e França, via Bahia, é um romance antigo e intelectualmente profundo no pensamento baiano. A influência direta que o Código Napoleônico teve na formação do Direito Civil brasileiro, com seus pilares de liberdade e propriedade, igualdade perante a lei, é apenas um dos muitos fios que tecem essa conexão. Nossos grandes intelectuais, de renome como Milton Santos (que se exilou e estudou na França, moldando grande parte de sua obra), a figuras como Afrânio Peixoto, Ernesto Carneiro Ribeiro e Anísio Teixeira, foram frequentemente atraídos pela Universidade de Sorbonne, aprimorando seus saberes em medicina forense, geografia, filosofia e antropologia. Sociólogos franceses, como Roger Bastide, por sua vez, mergulharam na cultura baiana, estudando as religiões afro-brasileiras. A própria Conjuração Baiana de 1798 inspirou-se nas "infames ideias francesas" de liberdade e igualdade.

Mais recentemente, acadêmicos como Luiz Mott (doutor em antropologia pela Sorbonne) e Katia Matoso (professora em Toulouse e titular da Sorbonne) mantêm essa ponte. Há uma carinhosa brincadeira na faculdade que resume essa ligação: "basta cair uma chuvinha em Paris que os intelectuais da Bahia ficam resfriados". Nossas bibliografias, repletas de pensadores franceses como Jack Legof, Chatelet, Descartes, estruturalistas como Lévi-Strauss e Sartre, atestam essa herança, a gente aprendeu a gostar dos franceses, lendo ou herdando memórias.

A visita de Macron a Salvador foi, portanto, muito mais que um protocolo diplomático. Foi um espetáculo de costumes, onde a formalidade política se dissolveu no abraço caloroso de um povo que celebra a vida e a diversidade. Uma reencenação moderna do "francês" em terras baianas, agora destinado não a rituais ancestrais, mas a uma assimilação cultural alegre e respeitosa. Entre a razão cartesiana e a paixão baiana, há um fértil terreno de intercâmbio, onde o "gostoso" adquire um sabor genuinamente brasileiro, deixando um rastro de sorrisos e quem sabe, algumas saudades de Salvador.

Classificação Indicativa: Livre

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