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Eleições 2022- Mais pimenta, por favor!

Imagem Eleições 2022- Mais pimenta, por favor!

A analogia mais adequada seria com o tabuleiro de uma baiana, repleto de iguarias

Publicado em 24/03/2022, às 12h02        Robson Wagner*

Quando se trata de política, é comum uma analogia com um tabuleiro de xadrez, no qual todo e qualquer movimento de peça gera uma imbricada relação (e reação) do oponente.

Mas, cá na Bahia, onde em tempos de Metaverso, temos a nossa própria realidade política, única e pitoresca, a analogia mais adequada seria com o tabuleiro de uma baiana, repleto de iguarias. Mas também cheio de dendê e com muita pimenta.

Inicialmente, tínhamos um quadro aparentemente resolvido com relação às chapas majoritárias antagônicas na história política recente do nosso estado. De um lado, o senador Jaques Wagner, com sua reconhecida habilidade política, lutava para manter seu grupo unido e competitivo, com o objetivo de defender o legado de 16 anos do PT à frente do Governo do Estado.

No lado oposto ACM Neto, cheio de energia e vontade de subir o próximo degrau da vida pública e replicar sua experiência de gestão bem avaliada na capital da Bahia em todo o estado. 

E neste bojo as candidaturas coadjuvantes de sempre. O único fato novo no quadro anterior era o aparecimento de João  Roma, atual ministro da Cidadania e ex-aliado de Neto, buscando ser a versão local da terceira via, e dando palanque ao presidente Bolsonaro aqui na Bahia.

A coisa parecia de tal forma já assentada que a única dúvida pairava em torno do reflexo e alcance que a disputa nacional teria aqui. Porém, “em um segundo tudo pode mudar”, conforme o jargão de uma conhecida emissora de rádio. E eis que de repente, não mais que de repente, um tsunâmi se abate sobre os então plácidos mares navegados pelo grupo político que está há 16 anos no comando político do estado da Bahia.

E o primeiro capítulo desta instigante “novela” é o anúncio pelo governador Rui Costa de que entraria na chapa para disputar a vaga ao Senado, sendo ele favoritíssimo nas pesquisas.  Nessa condição, restaria ao senador Otto Alencar assumir a cabeça de chapa nas eleições majoritárias. 

E o PP de João Leão indicaria o candidato a vice. Sendo que João Leão saciaria o desejo de ser governador com um mandato-tampão de nove meses, uma vez que Rui precisaria renunciar para concorrer ao Senado.  

Aparentemente estariam todos contemplados. O verdadeiro abará quentinho, caprichado no camarão.

Contudo, Otto, apesar de mostrar resignação inicialmente, acabou declinando da oferta, tanto mais por pressão da Executiva Nacional do seu PSD. Pois a legenda, além de tantas outras razões, não viu com bons olhos a perda de uma pré-candidatura cuja vitória seria a aposta de qualquer cidadão que entende razoavelmente de política.

Rui deu um passo atrás, desistiu da pré-candidatura e decidiu permanecer no governo até o final do mandato. Otto, por sua vez, também fica onde deseja, na disputa ao Senado. E Wagner, após anunciar pela imprensa a desistência em favor de uma dedicação à campanha de Lula, confirma que seu substituto na disputa será outro nome do PT. No caso, o secretário estadual da Educação, Jerônimo Rodrigues, que é muito próximo de Rui Costa. 

O problema é que só faltou combinar com Leão, que se viu frito em azeite quente, tal qual nossos tradicionais acarajés, quando em uma só jogada perdeu a Governadoria, ficou de fora da chapa e sequer participou dos diálogos. Ou seja, serviram o vatapá e para ele não deixaram nem uma colherzinha. 

Como seria de se esperar, João Leão acusou o golpe. E ingressou rapidamente no grupo de Neto, onde já anunciou com toda a pompa que é pré-candidato ao Senado. Então, onde tínhamos um quadro tranquilo com a pré-candidatura de Otto Alencar, agora há uma acirrada disputa Otto versus João Leão para o Senado Federal.

Neto, que por sua vez já liderava as pesquisas, agora, sem fazer muito esforço, tem de volta ao ninho carlista (agora neo-carlista) um grupo que representa uma das maiores forças políticas do estado. 

Lembrando que antes a chapa de Neto viria com o Republicanos no Senado (até como forma de neutralizar a candidatura de Roma) e deixaria a vaga a vice como carta na manga. Mas, como dito antes, “em um segundo tudo pode mudar”. Resta ao Republicanos, dado ao seu tamanho, representatividade e histórico junto ao grupo de Neto, talvez indicar o nome à vice. Analisando as possibilidades de indicação do Republicanos, o nome de maior envergadura é o de Márcio Marinho, cacique do partido no estado e vice presidente nacional. 

Assim, a equação fica muito mais tranquila para Neto, que ganha um enorme reforço. Leão tem muita experiência de pleito e enorme força nos municípios, enquanto Marinho alcança um público mais conservador, ligado a um segmento religioso forte. Márcio Marinho também tem sua imagem bastante divulgada por ser apresentador de um programa em tv aberta.  

O cenário, que estava nebuloso pela fumaça do dendê, aparentemente se delineou com maior clareza, favorecendo ACM Neto, que aumenta seus números nas pesquisas. E estão evidentes as dificuldades do grupo Wagner/Rui.

Até outubro, contudo, não vai faltar pimenta nessa disputa que apenas se inicia. Aguardemos os próximos capítulos.

*Robson Wagner
CEO da W4 Comunicação

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