Artigo
Que todos nós sabemos e concordamos que o transporte público de Salvador é precário e que o sistema de ônibus é deficitário, falido, ruim, de baixa qualidade, vergonhoso e mais uma série de adjetivos negativos, não há dúvidas. Inclusive o atual prefeito, que assumiu publicamente a situação recentemente, também sabe. Mas, e a Salvador além do transporte público e dos ônibus?
Sei e sabemos que o período ainda é de pré-campanha e que os pré-candidatos ao executivo soteropolitano ainda estão construindo seus planos de governo. Aliás, eles têm repetido isso frequentemente. Entretanto, é impossível não se assustar quando, de todas ou quase todas as entrevistas destes políticos que tentam chegar ou se manter no Palácio Tomé de Souza, parece se entender ou depreender que o único problema de Salvador ou o maior de todos é o transporte público.
Óbvio que o transporte público da capital baiana, sobretudo o sistema de ônibus urbanos, precisa de uma solução urgente e melhorias e readequações consideráveis para ontem.
Mas…E a Salvador da desigualdade social? E a Salvador das inúmeras famílias morando em áreas de risco? E a Salvador da desnutrição infantil? E a Salvador do desemprego? E a Salvador que está abaixo da linha da pobreza?
Um estudo divulgado pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em março deste ano, mostrou que Salvador, entre 26 capitais do país, é a cidade com os piores índices de pobreza, desnutrição e desemprego do Brasil.
Vejamos em números:
Linha da pobreza
Salvador possui 11% da população abaixo da linha da pobreza (10 vezes mais que Florianópolis que é a capital que possui menos habitantes abaixo dessa triste e vergonhosa linha em todo o país).
Desnutrição infantil
Ainda, a capital baiana é a pior no índice de desnutrição infantil, com 4% de crianças menores de 5 anos em situação de desnutrição. 4% parece pouco? Talvez até pareça. Mas estou falando de CRIANÇAS desnutridas, com FOME. Você comeu hoje, né? Pois é! É disso que estou falando. Da falta dessa comida a ponto de desnutrir.
Teresina (PI) é a capital que lidera o indicador de forma positiva, com apenas 0,44% de crianças com menos de 5 anos desnutridas.
Desemprego
Em relação à taxa de desocupação, 16,7% da população está desempregada e sem renda.
Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, tem a melhor taxa no mesmo indicador, com 3,4% da população sem emprego.
Bom, e não estou falando de uma cidade pobre economicamente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados de 2023, a capital baiana chegou a R$ 11 bi em receitas realizadas e possui PIB per capita de R$ 21.706,06. Aliás, PIB per capita representa o que cada pessoa do local analisado TERIA do total de riquezas que são produzidas. Reflitemos!
Infelizmente, nesta mesma cidade, o salário médio mensal dos trabalhadores formais é de R$ 3,1 mil e as taxas apresentadas pelo ICS são assustadoras, preocupantes e precisam de ATENÇÃO!
Então, pré-candidatos, esse texto não é pra apontar se a gestão está indo bem ou mal, mas sim pra dizer que o buraco é muito mais embaixo. Salvador precisa sim de correções urgentes no sistema de ônibus urbanos e no transporte público como um todo, mas necessita, acima de tudo, de medidas concretas para combater e reduzir a desiguladade social, para proporcionar moradia digna, comida no prato, crianças alimentadas, infraestrutura, empregos formais e tantos outros pontos de atenção.
Algum desses tópicos foram até citados por um ou dois pré-candidatos. Mas, apenas CITADOS, sem uma proposta de resolução concreta. Apenas mais do mesmo.
Já que os planos de governo estão sendo construídos, lembrem deles! Lembrem de Salvador! De TODA Salvador!
Até porque, já que a sanha ou a tara está enorme pelo transporte público (e com todos os motivos e razões), é bom lembrar que é preciso ter um emprego pra pagar a tarifa e é preciso estar fora da linha da pobreza e devidamente alimentado para se ter forças e um pouco de dignidade para enfrentar a dureza do transporte lotado e precário.
Como diz um trecho da música ‘Me leva pra casa’, de autoria de Alvaro Socci e Claudio Matta, e interpretado pela banda católica ‘Cantores de Deus’:
“Se a gente pede comida pra alguém
Não é só pra comer não
A gente pede também
Pra ter um pouco de atenção
Se tudo isso é culpa de alguém
Pois que nos dêem mais que água e pão
E não apenas respostas
Ninguém come explicação”
ATENÇÃO, pré-candidatos! ATENÇÃO!
*As opiniões do repórter não refletem necessariamente a opinião do veículo.
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