Artigo
Jorge Amado nunca morreu de fato. Desde 6 de agosto de 2001, quando partiu aos 88 anos, o escritor baiano passou a habitar outro plano, não o espiritual, mas o das eternidades culturais. Seu corpo descansa, é verdade. Mas suas palavras seguem em movimento: desfilam em tramas novelescas e continuam moldando o imaginário popular da Bahia.
É impossível andar pelas ladeiras do Pelourinho, pelas barracas de acarajé de Itapuã ou pelos becos de Ilhéus sem cruzar com algum personagem que poderia ter saído de um dos seus romances. Gabriela, Dona Flor, Tieta, Quincas Berro D’Água e tantos outros ganharam o mundo, mas nunca deixaram o chão baiano.
Nascido em Itabuna e criado em Ilhéus, Jorge era muito mais que um autor premiado. Era um cronista da Bahia profunda, da Bahia sensual, da Bahia política. Era também uma espécie de tradutor entre a cultura popular e a erudição literária, tarefa que poucos realizaram com tanto carinho e maestria.
Seu olhar nunca foi de fora para dentro. Era de dentro para o mundo. Sabia descrever o cheiro do dendê com a mesma precisão com que narrava os conflitos sociais e as dores dos trabalhadores do cacau. E por isso mesmo, suas obras transcenderam o papel: foram adaptadas para cinema, para teatro, para a televisão e ganharam status de patrimônio afetivo nacional.
Jorge foi também um dos nomes mais traduzidos da literatura brasileira, sem nunca deixar de ser visceralmente baiano. E mesmo nas provas de português, quando candidatos se deparam com um excerto seu, o texto parece mais uma conversa com o leitor do que um teste de interpretação.
Hoje, ao relembrar os 24 anos sem ele, não cabe lamento. Jorge Amado já havia descoberto, e nos ensinado, que certas ausências são, na verdade, uma forma de presença permanente. Ele está nas bibliotecas, nas feiras literárias, nos livros didáticos e, principalmente, no jeito de ser de um povo que ele tanto amou. Ele está no Rio Vermelho ao lado de Zélia e Fadul.
A morte levou o homem, mas não levou a Bahia que ele escreveu. E enquanto houver quem leia Jorge Amado, a Bahia continuará sendo lida pelo mundo.
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