Artigo
por Cibele Gentil
Publicado em 08/03/2026, às 06h00
No calendário, o 8 de março marca a celebração das conquistas históricas das mulheres. Na prática do mercado de trabalho em 2026, a data encontra um cenário de contrastes profundos. Se por um lado a ocupação feminina atingiu recordes históricos, por outro, as barreiras invisíveis do chamado 'teto de vidro' e da persistente desigualdade salarial mostram que a distância para a equidade real ainda é uma meta distante.
A fotografia atual do Brasil revela um avanço numérico inegável, com a participação das mulheres na força de trabalho atingindo, segundo informações do Ministério do Trabalho e Emprego, o patamar de 48,1% nacionalmente. Na Bahia, o vigor feminino é ainda mais latente, com uma taxa de participação que chegou a 50% em 2026, conforme dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).
No entanto, o volume de ocupação não se traduz, necessariamente, em valorização financeira equivalente. O relatório mais recente de Transparência Salarial aponta que, no setor privado brasileiro, as mulheres ainda recebem 21,2% menos do que os homens. No recorte estadual, a Bahia apresenta uma defasagem ligeiramente menor, de 18,5%. Contudo, o otimismo esbarra na hierarquia corporativa. Quando o foco sobe para cargos de direção e gerência em solo baiano, a diferença salarial salta para 23,9%, evidenciando que quanto mais alto o cargo, maior é a disparidade.
O paradoxo da qualificação e o 'teto de vidro'
Um dos pontos mais críticos é o paradoxo da qualificação. As mulheres são a maioria absoluta nas universidades brasileiras, de acordo com o Ministério da Educação (MEC) , representando 59,1% das matrículas. Na Bahia, dados da SEI apontam que as trabalhadoras possuem, em média, 12,3 anos de estudo, superando os 11,2 anos registrados entre os homens.
Apesar de estarem mais preparadas, o acesso ao emprego é mais restrito, com uma taxa de desocupação feminina no estado de 10,8%, quase o dobro da masculina. Esse cenário empurra muitas para o empreendedorismo por necessidade. Atualmente, a Bahia contabiliza 625 mil mulheres à frente de seus próprios negócios, sendo 70% delas mulheres negras.
Essa dificuldade de ascensão é explicada pelo conceito de teto de vidro. Trata-se de uma barreira invisível e resistente que impede mulheres de alcançarem o topo da pirâmide, como cargos de CEO ou diretoria.
Não há leis que proíbam essa subida, mas preconceitos inconscientes e culturas institucionais pautadas no machismo criam obstáculos transparentes. Fatores como capacitismo e a presunção de que a maternidade reduz a produtividade funcionam como travas estruturais que interrompem o crescimento profissional feminino.
Os desafios reais e a cultura corporativa
Para entender como esses números se aplicam ao cotidiano, a contadora e empresária Maisa Grassi Mota, de 45 anos, compartilha sua experiência à frente de uma consultoria de gestão financeira e recursos humanos. Com uma empresa que tem quase todo o quadro de colaboradores composto por mulheres, Maisa reflete que, embora a cultura corporativa tenha melhorado nos últimos anos, a mudança estrutural ainda é uma necessidade.
“Os salários desiguais desanimam o esforço dobrado que as mulheres precisam enfrentar para estar nos mesmos cargos”, desabafou. Para a empresária, a desigualdade salarial é um problema cultural que dificilmente será resolvido de imediato, projetando essa conquista apenas para as próximas gerações.
A trajetória de Maisa ilustra a resistência necessária para liderar em setores tradicionais. Tendo herdado uma empresa familiar, ela relata que precisou se impor diariamente para conseguir ganhar espaço, dentro e fora da empresa.
Dupla jornada e os desafios regionais
A sobrecarga da rotina doméstica também aparece como um gargalo invisível. Maisa afirma que não existe uma preocupação real das empresas com a jornada dupla, que trate a questão com profundidade.
Em sua visão, as mulheres são muito mais cobradas quando tentam ter alto desempenho na carreira e cuidar da vida familiar. Segundo ela, “as que insistem em conciliar são condenadas a todo tipo de julgamento e esgotamento de saúde”.
Ao analisar o contexto baiano, a empresária aponta o machismo e outros preconceitos como grandes definidores dos problemas locais. Apesar das barreiras, persistência no estudo acadêmico, qualificação profissional e a dedicação diária ao trabalho são a melhor receita para o sucesso. Para Maisa, o esforço vale a pena para a mulher destacar sua competência em um mercado que ainda resiste à igualdade plena.
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