Artigo

O Brasil no jogo da responsabilidade das apostas

Divulgação
Desde a regulamentação sancionada pela Lei 14.790/2023, o Brasil passou a permitir oficialmente apostas de quota fixa  |   Bnews - Divulgação Divulgação

Publicado em 23/07/2025, às 13h34   Redação



Nos últimos anos, um movimento significativo marcou o cenário brasileiro: o crescimento acelerado do mercado de apostas online. Entre palpites esportivos, slots piscantes e promessas de riqueza a um clique de distância, o país viu nascer uma indústria bilionária – agora regulamentada e em fase de consolidação. Mas esse novo panorama também traz alguns questionamentos: como garantir que o desenvolvimento do setor ocorra de forma segura e equilibrada?

A resposta não é simples, e muito menos única. Operadores, governo e apostadores compartilham o mesmo palco, onde é fundamental que as regras sejam claras, o ambiente seja íntegro e a educação – especialmente a financeira – esteja presente. Com essas bases, a atividade pode se manter dentro da proposta de entretenimento, sem se tornar um fator de vulnerabilidade social.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews


Um novo capítulo para o setor


Desde a regulamentação sancionada pela Lei 14.790/2023, o Brasil passou a permitir oficialmente apostas de quota fixa – aquelas em que o jogador sabe exatamente quanto pode ganhar (ou perder). A criação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) trouxe consigo um marco regulatório que tem como foco a segurança jurídica, o controle e a responsabilidade.

Na prática, o setor ainda está em processo de adaptação. Normas publicitárias passaram por revisões. As alíquotas, inicialmente de 12%, foram ajustadas para 18%. Empresas licenciadas seguem diretrizes específicas, enquanto ainda há operadores não regulamentados atuando no mercado. Isso evidencia a importância de avançar na harmonização entre concorrência leal e fiscalização efetiva.


A educação como aliada do jogo consciente

Um dos principais desafios observados diz respeito ao nível de educação financeira da população. Trata-se de uma lacuna histórica que impacta diretamente a forma como os brasileiros lidam com risco, orçamento pessoal e tomada de decisão. A distinção entre investimento e aposta, por exemplo, nem sempre é clara para muitos.

Segundo reportagem do El País, cerca de 20% da massa salarial brasileira tem sido direcionada a plataformas de apostas – incluindo parte vinda de programas sociais como o Bolsa Família. Esse dado chama a atenção para a importância de ampliar o acesso à informação, criar filtros e promover uma cultura de escolha consciente.


Responsabilidades compartilhadas

Operadores do setor têm um papel central na oferta de mecanismos de proteção ao jogador, como autoexclusão, limites de tempo, alerta de risco e a contratação de embaixadores e influenciadores da área da saúde, como a psicologia. Muitos já adotam essas práticas, que podem ser ainda mais eficazes quando acompanhadas de ações de orientação e conscientização do público.

Por parte do cliente, o autocontrole é essencial. Independentemente do perfil, seja assíduo ou casual, reconhecer os próprios limites é importante para entender a natureza lúdica da atividade e pode ser decisivo para manter o equilíbrio financeiro e emocional.

Ao governo, cabe a coordenação dos esforços de regulamentação e fiscalização. Isso inclui a repressão a operadores não licenciados, o monitoramento da publicidade e, sobretudo, a promoção de campanhas educativas acessíveis e integradas às políticas públicas de saúde e educação.


Casos recentes e aprendizados

Alguns episódios recentes contribuíram para o debate sobre a importância de uma abordagem responsável. O chamado “Jogo do Tigrinho”, por exemplo, popularizado nas redes sociais, despertou atenção por seu potencial de engajamento e os relatos de impactos financeiros negativos. Enquanto isso, a Operação Integration revelou possíveis conexões entre apostas e atividades financeiras irregulares, reforçando a necessidade de um ambiente mais controlado e transparente.

A CPI das Bets, ainda que tenha gerado discussões relevantes, encerrou-se sem recomendações práticas aprovadas. Em paralelo, entidades como o Procon-SP têm atuado na orientação de consumidores, mostrando que há espaço para atuação local e institucional, ainda que os desafios sejam amplos.


O caminho à frente

O mercado brasileiro de apostas segue em expansão, com potencial para se consolidar como um segmento robusto de entretenimento. Nesse contexto, o Jogo Responsável vai além das exigências regulatórias, pois representa uma construção cultural. Para que isso aconteça, é fundamental a atuação baseada em três pilares:

-uma regulação firme e equilibrada,
-plataformas éticas e transparentes e,
-sobretudo, uma população informada e capacitada para fazer escolhas conscientes.

Não se trata de delegar a responsabilidade a um único agente. O futuro do setor depende da ação coordenada entre empresas, Estado e sociedade civil. O jogo é legal – e, com a base certa, pode ser também seguro, divertido e sustentável.


Andreia Oliveira, COO da Betsul

*Este conteúdo não reflete a opinião do site BNews e é de inteira responsabilidade do autor

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp

Tags artigo

Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)