Artigo
Publicado em 16/10/2026, às 11h54 Marcelo Cerqueira
Ontem, 15 de outubro, Dia dos Professores, recebi em minha caixa de e-mail o que seria uma simples atualização do Google: uma mensagem informando que, a partir de 5 de novembro de 2026, vai acontecer uma mudança nos Termos de Serviço. Por ser um comunicado do oráculo, não passa despercebido, mas ninguém dedica um tempo para ler e entender a gravidade. Os termos do novo contrato trazem o aperfeiçoamento total das práticas de vigilância extrema sob o pretexto de "privacidade". No comunicado: "Ao aceitar esses termos, você aceita atualizações automaticamente"- ou seja, você não tem opção. O aviso é claro ao informar que as atualizações "abrangem serviços do sistema, incluindo, mas não se limitando a, aqueles fornecidos pelo Google Play Services"- e todos os aplicativos: WhatsApp, mensagens de texto, áudio, entra em tudo. O curioso é que as mensagens são criptografadas. Caro leitor do Bnews, as nossas vidas estão arquivadas, e isso não é promessa: é real, já começou e alimentamos todos os dias.
Escrever sobre vigilância sem recorrer a Michel Foucault (1975) não vale. Ele escreveu em "Vigiar e Punir" a arquitetura perfeita do que seria o poder: uma torre no centro de uma prisão circular, onde um policial, que podia ou não estar nela, vigia tudo sem ser visto. Os detentos nunca tinham certeza se havia ou não alguém olhando. A dúvida era suficiente para eles se vigiarem. Após cinquenta anos, a torre saiu do centro da prisão para os bolsos e as bolsas. Inclusive, alguns pagam e ganham para serem vistos; outros se expõem por vingança o que acaba registrado no seu currículo Lattes na plataforma.
Alguns profetas falaram que, até 2030, a humanidade estaria toda "chimpada", isto é, usando chip no corpo evento que a Suécia já realizou. Acredito que, necessariamente, não seria um chip implantado, mas o chip do celular. No Brasil, 167,5 milhões de pessoas a partir de 10 anos têm celular, o que representa 90% da população-dados do IBGE (2025). Esses dados são café requentado para o oráculo, que construiu, no silêncio, um gigantesco arquivo de dados humanos da história da humanidade.
Ledo engano acreditar que esses dados são só e-mails e senhas. É uma fotografia viva de comportamento: o que você busca, o site que acessou (não adianta usar o modo anônimo), onde você esteve, o que falou, o que sente, sua cor, sua orientação sexual, seu calor, sua temperatura, segredos secretos, vícios, manias, suas predileções, seu time. O oráculo sabe do seu diagnóstico bem antes do seu médico; o Lens faz isso apenas com um toque na tela Touch Screen. Na consulta, você diz que fez a pesquisa só para humilhar o médico: "Já sei o diagnóstico, quero confirmar!"
Para você ter ideia da gravidade, como Jack, o Estripador, vamos por partes. A Política de Privacidade do oráculo admite coletar dados: termos de pesquisa, histórico de navegação sincronizado com a conta, interações com anúncios a fim de aprimorar os serviços. As atividades em sites e apps de terceiros que usam seus serviços também são coletadas: você sai do oráculo. Se você acessou o portal Bnews no modo anônimo, saiu do alcance das pessoas, mas não do oráculo.
A sua localização é outro ponto importante. GPS, endereço IP, sensores do aparelho-dependendo das configurações, coletam-se dados de local exato. Isso inclui áreas percorridas, endereços completos, o que você viu, com quem conversou. A sua cidade tem um mapa traçado por você.
A fala e o corpo constituem-se como postos importantes na complexidade do ecossistema. O Fitbit, o Google Fit e o Pixel Watch são apps de saúde que, juntos, registram sono, frequência cardíaca, temperatura da pele, calorias e passos. Já o microfone e os assistentes transformam o que você fala em texto para pesquisa. O próprio Google define como "informações pessoais confidenciais" dados médicos, origens raciais ou étnicas, crenças políticas, religião, sexualidade, estado civil e idade-categorias que o ecossistema pode identificar e associar.
O texto de e-mails, documentos, mensagens em serviços integrados e buscas digitadas às 3h da manhã também vira dado. O que você escreve se transforma em dados, e tudo passa a ser considerado perfil, passando a ser previsão do que você vai comprar, adoecer, amar e votar. Você já reparou que, quando acessa um site, aparece no meio da notícia uma propaganda de algo que você desejou recentemente? Você deleta o arquivo; entretanto, os dados já foram coletados automaticamente.
Estamos falando de dados da humanidade e de um banco de memória de décadas-um acervo precioso, único, que Estado algum jamais conseguiu reunir sobre seus cidadãos. O assustador em tudo isso é que uma corporação o mantém, impunemente, por interesse lucrativo. Talvez seja o preço do e-mail gratuito.
A defesa: "Os dados nos permitem projetar serviços de melhor qualidade". Sim, é verdade isso inclui verificação de segurança em duas etapas, entre outros recursos. Esse mesmo dado tem duas funções: segurança e personalização de anúncios; alimenta tendências e prevê comportamentos. Especialistas em tecnologia apontam que vender pacotes de dados brutos não seria, em tese, um agravante; o grave constitui-se na venda de usuários segmentados. Jair Bolsonaro (PSL) foi apagado do sistema de disparo de conteúdos pelo WhatsApp (UOL, 29/10/2018). Esse é o problema da segmentação.
Para as populações socialmente vulneráveis-pessoas LGBTQIAPN+, negras, periféricas, com deficiência, idosas -, o risco é real e se multiplica ao máximo. Por exemplo: um histórico de buscas sobre sexualidade, um trajeto até uma ONG, um app de saúde ou de namoro, um site segmentado revela uma condição. Cada dado sensível, vazado ou requisitado judicialmente, pode custar emprego, família, liberdade e até mesmo a vida. O dano para o trabalhador: a triagem automática de currículos que elimina nomes, orientação, cor, bairros e idades antes de qualquer análise humana.
Querido leitor, o banco de dados já é um fato irrevogável. Você não vai desligar o mundo, mas vai governá-lo. Vamos juntos! Comece revisando e desativando Minha Atividade; quando fizer, vai aparecer um aviso de chantagem envolvendo terceiros pode tacar o dedo. Desative os anúncios personalizados, revise as permissões de terceiros e desligue a localização quando desnecessária. Agora, é importante exigir regulação à altura do poder de quem arquiva a humanidade inteira. O Decreto 12.975/2026 ampliou os poderes da ANPD; o STF ampliou a responsabilidade das plataformas; o governo enviou ao Congresso o projeto de regulação econômica das big techs. Agora temos que fazer a pressão política, fui membro do Comitê Gestor da Internet do Brasil, dei minha contribuição para a LEI Nº 12.965, de 23 de abril 2014 que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Ah! Mais uma dica, em casa fique distante do aparelho, quando for dormir não dura com o inimigo.
Classificação Indicativa: Livre
Notebook Poderoso
cinema em casa
Super descontos
Qualidade AIWA
Smartwatch top