Artigo
por Cibele Gentil
Publicado em 12/02/2026, às 07h00
“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. O ditado popular, que por décadas selou o destino de milhares de mulheres brasileiras, está sendo enterrado pela urgência de uma nova postura social: a corresponsabilidade. O combate à violência contra a mulher precisa ser uma "rede bem costurada". Diante de estatísticas que ainda assustam, o foco das autoridades e de projetos como o "Luto por Elas", do Ministério Público da Bahia (MP-BA), amplia o foco além da vítima para o seu entorno. A rede de apoio, composta por amigos, familiares e até vizinhos, é o pimeiro filtro contra o feminicídio. Se a sociedade — o vizinho que ouve o grito, o amigo que nota o isolamento — atuar em conjunto, menos buracos existirão para que a vida dessas mulheres escape.
O "Violentômetro" e os sinais invisíveis
A violência raramente começa com uma agressão física. Ela escala. O processo muitas vezes inicia com condutas que nem sequer são tipificadas como crimes, mas são sinais claros de alerta. Criado em 2020, o Formulário Nacional de Avaliação de Risco (FONAR) é um questionário que ajuda a identificar fatores de risco para a mulher vir a sofrer qualquer forma de violência nas relações domésticas e familiares.
Segundo a Promotora de Justiça Sara Gama, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nevid/MP-BA), o primeiro passo no enfrentamento à violência contra a mulher é fazer com que ela perceba que ela pode estar vivendo nessa dinâmica. “A mulher às vezes não se dá conta ou não acredita que a situação pode chegar ao extremo. Uma acolhida, por exemplo, foi ameaçada com uma faca de mesa pelo companheiro, mas como o objeto não era pondiagudo, era arredondado, ela achou que aquilo não era uma ameaça de verdade”, exemplificou a promotora.
Identificar o sinais de alerta é um passo fundamental para conter a violência e evitar que se chegue a um ponto crítico.“O 'violentômetro' vai de piadas ofensivas até o ato de matar. Também existem condutas que não são tipificadas como crime, mas que são moralmente questionáveis, como o 'gelo' ou o 'ghosting' (ignorar propositalmente), que já demonstram um desequilíbrio de poder numa relação”, explica Roana Dantas, assessora jurídica do Nevid/MP-BA e da 1ª Promotoria de Direitos Humanos. Identificar esses padrões ajuda a evitar que aconteça uma violência moral, patrimonial, sexual, psicológica ou física, ou chegar no feminicídio propriamente.
Não julgue, não critique, não brigue, não aponte
As mulheres vítimas de violência não têm um perfil específico. São de diferentes profissões, cor de pele, classe social, religiões e escolaridade. A principal característica comum entre elas é ter algum tipo de vínculo com o agressor e o fato de serem mullheres. “Na maioria dos casos, o agressor faz parte do ciclo de afeto da vítima. É um companheiro, um ex-companheiro, um filho, e ela não quer nem mesmo que a punição aconteça”, explica a promotora Sara Gama.
Para quem está ao redor, nem sempre é fácil perceber o que está acontecendo. “Quando acontece a agressão fisica, as outras pessoas veem os machucados. Mas quando não é algo evidente, é mais difícil de detectar”, fala a promotora de Justiça. Para a rede de apoio, o primeiro sinal visível é o isolamento. O agressor tende a afastar a mulher de seus círculos sociais e minar sua autonomia financeira para torná-la dependente. O comportamento da mulher às vezes também sofre alterações: ela tende a ficar mais dispersa e tenta se esconder para chorar em locais como o banheiro do trabalho, por exemplo.
Intervir em um relacionamento abusivo exige sensibilidade. A orientação do Nevid é que amigos e familiares mantenham a proximidade sem julgamentos. “Não aponte ou critique. Essa mulher certamente tem vergonha de dizer que convive com aquela pessoa”, avisa Sara Gama, orientando que a melhor conduta é se aproximar e ficar disponível. “Quando a pessoa resolver se abrir, esteja lá para ouví-la e tenha muita empatia”, diz. Rohana Dantas também tem a mesma opinião: “O melhor é ficar por perto, observar e oferecer uma escuta ativa. Se você critica a mulher por não terminar, acaba causando o que o agressor quer: o afastamento", alerta.
Dando apoio de forma prática
A rede de apoio pode ajudar a vítima a se proteger e evitar que a agressão culmine no feminicídio com algumas atitudes:
A Casa da Mulher Brasileira
Quando a violência se concretiza, a estrutura pública precisa ser acionada. Na Casa da Mulher Brasileira, em Salvador, a mulher pode dispor de atendimento integral e multidisciplinar. A mulher que chega "com a roupa do corpo" encontra Delegacia, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, atendimento psicológico e abrigamento. O atendimento funciona 24 horas.
Casos emblemáticos reforçam a importância desse acolhimento. Rohana Dantas recorda o caso de uma assistida que sobreviveu a 17 facadas. Após passar pelo ciclo de proteção, ela retornou para visitar a casa meses depois, recuperada e qualificada profissionalmente por cursos especiais para mulheres em situação vulnerável. "As cicatrizes físicas ficaram, mas o que gravou no coração dela foi o amor e o acolhimento", relata.
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