Artigo

Polícia do pensamento

Arquivo pessoal

Publicado em 18/07/2022, às 10h33    Arquivo pessoal    José Medrado

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, publicado como 1984, é um romance distópico (lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão), que foi publicado em 1949, isto mesmo, não errei a digitação, não. De autoria do escritor britânico George Orwell, trata-se de um romance que relata um mundo em guerra permanente, cuja vigilância governamental onipresente do superestado, dominado por uma elite privilegiada, persegue o individualismo e a liberdade de expressão como crime de pensamento, que é investigado por uma polícia específica. Nessa sociedade havia o crime de ideia, crimideia, punido com a eliminação do indivíduo. Os tal reality Big Brother nasceu da inspiração desse romance, uma vez que a população era vigiada o tempo todo.  Semelhanças proféticas vamos encontrar nessas páginas para o mundo atual. Ninguém efetivamente vai discordar que para o bem ou para o mal estamos nesta época do big brother ao vivo e permanente, não o da tv, mas o da vida real. Falo para o bem ou para o mal, porque hoje em dia nada escapa de uma fotografia, de um vídeo feito por um celular registrando invasivamente vidas alheias, mas também desvendando crimes de toda natureza.

Podemos guardar a certeza de que tudo está, será filmado. É assim que estamos presenciando registros de abuso de autoridade policial; agressões por sexíssimo e intolerância de gênero, política, religiosa, racial...ou seja sempre há uma câmera que espreita, denuncia e se torna “testemunha” irrefutável das infrações e crimes. No entanto, ao lado de tudo isso, vemos crescer com indiferença doentia uma espécie de “não estou nem aí” se estão gravando. Haja vista a morte em câmara de gás pelos rodoviários federais a um homem que não reagiu, mas apenas se debateu por conta de seus distúrbios psiquiátricos. As câmeras mostram, mas os “ajeitadores” do que aconteceu vêm com as suas narrativas que beiram o surrealismo, pois o que importa é lançar mão da dúvida e, claro, sempre acobertar por algum interesse não confessável, ou mesmo para bajular a quem se encontra em posição de dar algum privilégio à desfaçatez.

Essa Polícia do Pensamento a que se referiu o romancista Orwel está aí, não como instituição policial, mas através de grupos de redes sociais escalados, acredito até com voluntários, para atacar os que pensam diferentemente deles. Policiam, atacam...na velha concepção de que a melhor defesa é o ataque. As imagens, porém, ficam e com elas a transparência, a verdade. Alguém no exercício do poder, seja em que posição for, que cometa crimes de qualquer natureza, pode ter a certeza a batata está assando, e um dia – na linguagem policial – a casa cai, haja vista o tal anestesista estuprador. Sigamos.    

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