Artigo
O que aconteceu no Farol da Barra no dia 1º de janeiro de 2026 não foi apenas um show. Foi uma resposta. Política, cultural e simbólica. Daniela Mercury, a indiscutível Rainha do Axé, transformou o Pôr do Som em um dos maiores acontecimentos musicais do verão baiano e, de quebra, expôs uma ferida mal cicatrizada na relação com a Prefeitura de Salvador.
Com mais de 100 mil pessoas reunidas, Daniela mostrou que não precisa dividir palco e espaço com ninguém, nem depender da estrutura do Festival Virada Salvador, para mobilizar multidões. Bastou um nome principal, o dela mesmo, para atrair um público semelhante, ou até superior, ao de uma noite inteira do festival oficial do réveillon da cidade. Convidados como Ivete Sangalo e Geraldo Azevedo, entre outros, foram apenas a cereja do bolo delicioso que a Rainha Má deu para todos os seus fãs saborearem e se lambuzarem.
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O sucesso do Pôr do Som não surge do acaso. Ele carrega contexto, história e, principalmente, uma disputa política mal disfarçada. Desde que o prefeito Bruno Reis decidiu retirar o dia 1º de janeiro da programação do Festival Virada Salvador, excluindo o projeto idealizado por Daniela, a cantora passou a realizar o evento com apoio do Governo do Estado, representado na figura de Jerônimo Rodrigues, adversário político direto do prefeito.
Em 2025, o gesto já havia causado incômodo. Em 2026, virou recado. Repetido, amplificado e aplaudido por uma multidão.
Enquanto a Prefeitura mantém o Festival da Virada concentrado na Arena O Canto da Cidade, ironicamente um espaço que já levou o nome de Daniela Mercury, o Pôr do Som ressignificou o Farol da Barra, devolvendo à cidade um espetáculo gratuito, mais democrático e carregado de identidade cultural. Um evento que conversa diretamente com a história de Salvador e com o próprio axé, gênero que Daniela ajudou a construir e internacionalizar.
Há algo de simbólico, e até um tanto constrangedor, no fato de que uma atração única, fora da estrutura oficial do réveillon, consiga disputar público com um festival milionário, patrocinado, inflado e institucionalizado. Isso diz menos sobre Daniela, cujo prestígio é incontestável, e mais sobre as escolhas políticas da gestão municipal, que além de “chutar” Daniela da sua programação festiva, ainda escancarou sua aversão ao buscar substituir o projeto histórico da Rainha do Axé por um mega culto a céu aberto do bispo Bruno Leonardo, o que, até agora, não deu certo.
Ao retirar o Pôr do Som do calendário oficial, a Prefeitura não silenciou Daniela. Pelo contrário: fortaleceu sua narrativa. A cantora transformou o que parecia exclusão em protagonismo, algo que sempre a acompanhou em toda sua brilhante carreira mundialmente reconhecida. E o público respondeu, em massa.
No fim das contas, o que se viu no Farol da Barra foi mais do que música. Foi uma “tapa de coroa”, não de soberba, mas de legitimidade, assim como uma rainha sabe fazer. Daniela não precisou de “palco oficial”, nem de chancela municipal, para reafirmar seu lugar. Quem tem história, tem público. E quem tem Pôr do Som, definitivamente, não precisa de Festival da Virada para brilhar.
*Este artigo reflete exclusivamente a opinião do autor e não representa, necessariamente, a posição editorial deste portal.
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