Artigo
Publicado em 03/10/2025, às 11h22 Por Marcelo Cerqueira
O pagodeiro Zé Paredão, cantor baiano popular, tem o hábito de usar a palavra “viado” de forma descontraída durante suas apresentações. Ele frequentemente refere-se ao termo para se dirigir a amigos da banda ou alguém na plateia, provocando risos e gerando interação com o público. Esse uso descontraído da palavra não é exclusivo dele; outros artistas do gênero também o fazem, algo típico do pagode baiano. Este fenômeno reflete um processo linguístico polêmico, chamado de ressignificação ou reapropriação de termos originalmente pejorativos.
Entretanto, antes de compreender essa transformação, é importante reconhecer que a palavra “viado” tem uma origem ofensiva. No português coloquial, surgiu como uma gíria com pesado contexto homofóbico, utilizada para humilhar homens gays, frequentemente acompanhada de intenções desumanizadoras e marginalizadoras. Desde o princípio, foi usada para diminuir, ofender e estigmatizar. Assim, este histórico de violência linguística ainda é latente, principalmente fora de contextos controlados.
No entanto, em apresentações como a de Zé Paredão, ou mesmo em grupos de amigos íntimos, a palavra “viado” passa por um processo de ressignificação. Essa transformação ocorre em contextos de intimidade, quando as pessoas envolvidas compartilham proximidade e confiança mútua. Neste cenário, o peso ofensivo da palavra é ignorado, e ela assume novos significados, transformando-se em uma gíria associada ao carinho, amizade e até brincadeiras leves. Termos como "meu camarada", "meu parceiro" ou "amigo do peito" tornam-se suas possíveis interpretações.
Entre amigos ou artistas populares, a entonação aplicada também muda: pode soar irônica, sarcástica ou até afetuosa. Esse novo uso do termo cria um senso de pertencimento entre os membros do grupo, que compartilham um código linguístico exclusivo, desarmando completamente a intenção hostil original. Também reduz o impacto emotivo que a palavra poderia causar em diferentes contextos.
Esse fenômeno demonstra o aspecto plástico da linguagem, mas não a torna universalmente aceitável. Fora de contextos específicos – como entre estranhos sem esse vínculo emocional – a palavra facilmente retoma seu peso histórico. Em tais casos, ainda carrega seu caráter homofóbico, perpetuando estigmas sociais e culturais. Ou seja, mesmo ressignificada dentro de alguns grupos, "viado" permanece um termo associado a dor e exclusão para grande parte da comunidade LGBTQIA+.
Outro ponto importante é que a ressignificação tem limites. Embora membros da comunidade LGBTQIA+ frequentemente reapropriem palavras ofensivas, como "bicha" ou "sapatão", para transformá-las em símbolos de orgulho, o mesmo processo, quando feito por grupos heterossexuais que não são as vítimas originais da ofensa, gera um debate ético. Há quem questione o direito de pessoas não marginalizadas ressignificarem palavras que não carregam o mesmo peso sobre si.
Além disso, mesmo em brincadeiras, o uso do termo pode causar desconforto nas pessoas que carregam um histórico pessoal com ele. LGBTQIA+ que ouvem a palavra ainda podem sentir a dor de experiências de opressão, mesmo que pronunciada com intenção lúdica.
Portanto, enquanto a ressignificação de "viado" em contextos como o dos pagodeiros reflete a capacidade da linguagem de evoluir e subverter seus próprios significados, tal prática exige cuidado. É um exemplo de como a intimidade em grupos pode mudar a força de uma palavra, mas também reforça a importância de reconhecer histórias de violência e garantir empatia. A língua é poderosa, mas seu uso precisa ser responsável.
Classificação Indicativa: Livre
som poderoso
Som perfeito
Smartwatch top
Qualidade JBL
iPhone barato