Artigo

Dia Mundial do Transtorno Bipolar: os desafios e a realidade extrema de quem convive com a condição

Foto: Ilustrativa / Pexels
No Dia Mundial do Transtorno Bipolar, especialistas reforçam a importância do diagnóstico correto e do combate ao estigma para garantir a qualidade de vida dos pacientes  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / Pexels
Cibele Gentil

por Cibele Gentil

Publicado em 30/03/2026, às 05h00



O dia 30 de março não foi escolhido ao acaso para marcar o Dia Mundial do Transtorno Bipolar. A data celebra o nascimento do pintor Vincent van Gogh, diagnosticado postumamente com a condição. Mais do que uma homenagem, o dia é um convite à reflexão e à conscientização, buscando desmistificar um tema que ainda é cercado por estigmas e frequentemente utilizado de forma pejorativa no cotidiano.

Para compreender a complexidade do transtorno, é fundamental reconhecer que a bipolaridade é uma condição mental de base biológica e genética. Diferentemente do senso comum, que associa o termo a mudanças rápidas de opinião ou explosões emocionais, o transtorno se manifesta por alterações significativas e patológicas no humor basal do indivíduo — conhecido como eutimia.

Entre a euforia e a depressão

De acordo com a médica Luciana Oliva, da Clínica Holiste Psiquiatria, a condição é caracterizada pela oscilação entre polos distintos. No polo depressivo, predominam sintomas como tristeza profunda, descuido com o autocuidado e anedonia — a perda de interesse ou prazer em atividades antes consideradas gratificantes.

Já no polo oposto, surgem episódios de mania ou hipomania, marcados por euforia, irritabilidade e aumento expressivo de energia. Nessas fases, é comum que a pessoa fale mais rapidamente, durma menos sem sentir cansaço e apresente comportamentos impulsivos que podem trazer riscos físicos, financeiros ou sociais.

O diagnóstico está entre os maiores desafios, pois é essencialmente clínico e depende de uma avaliação detalhada do histórico e do comportamento do paciente, além de fatores familiares. Não há exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmá-lo. Com frequência, o transtorno é confundido com a depressão unipolar, e o uso isolado de antidepressivos pode desencadear episódios de mania.

Por isso, a psiquiatra destaca que o tratamento medicamentoso é o principal pilar no controle da doença. A regulação química do organismo é fundamental, já que o transtorno envolve desequilíbrios em neurotransmissores, como a dopamina.

Aceitação e preconceito

Além da medicação, o acompanhamento psicológico é essencial tanto para a organização da rotina quanto para o enfrentamento do preconceito. O estigma, inclusive, é um dos principais obstáculos para que muitos pacientes aceitem o diagnóstico.

Segundo Marcella Gerbasi, psicóloga do Programa de Transtorno Bipolar da Clínica Holiste, reconhecer a condição pode ser especialmente difícil, sobretudo durante episódios de mania.

“Muitos profissionais, como advogados, médicos e contadores, apresentam alta produtividade durante a fase maníaca. Nesse período, a pessoa se sente extremamente ativa e entusiasmada, o que dificulta a percepção de que há algo errado”, explica.

Outro fator que contribui para a resistência é o uso equivocado do termo “bipolar” no dia a dia. “A palavra costuma ser associada a pessoas agressivas ou explosivas, o que não corresponde à realidade clínica”, ressalta Luciana Oliva.

Esse estigma faz com que muitos pacientes não se reconheçam na doença. “Há o receio de ser visto como incapaz ou ‘louco’, quando, na verdade, trata-se de uma condição que exige acompanhamento contínuo e adequado”, completa a médica.

Nesse contexto, o apoio familiar é fundamental. Buscar informação e evitar julgamentos são passos essenciais para fortalecer o tratamento. Compreender que comportamentos impulsivos durante uma crise são sintomas — e não escolhas deliberadas — favorece intervenções precoces e uma convivência mais equilibrada.

Adesão e continuidade do tratamento

O tratamento do transtorno bipolar tende a ser mais eficaz quando realizado de forma multidisciplinar, indo além da consulta psiquiátrica isolada. O acompanhamento integrado auxilia pacientes e familiares a identificarem gatilhos e sinais precoces de desestabilização.

A psicoterapia também desempenha um papel importante no enfrentamento do estigma e na elaboração das consequências das crises, além de contribuir para a adesão ao tratamento medicamentoso — fator decisivo na prevenção de recaídas.

Com acompanhamento adequado e contínuo, é possível que a pessoa mantenha estabilidade do humor e leve uma vida produtiva e funcional.

Onde buscar ajuda em Salvador

Se você ou alguém próximo apresenta sinais de alterações intensas de humor, há serviços disponíveis em Salvador:

Emergência psiquiátrica (SUS): Hospital Juliano Moreira e Hospital Municipal Mário Leal Ferreira
Acompanhamento (SUS): Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)
Atendimento particular: Clínica Holiste (0800 000 3611)
Apoio emocional por telefone: Centro de Valorização da Vida – Disque 188

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)