BNews Agro
Historicamente, o agronegócio brasileiro, embora altamente rentável, dependia principalmente de crédito bancário, o que restringia a participação de investidores privados no financiamento das operações agrícolas. Esse cenário começou a mudar com a expansão do mercado de capitais, impulsionada pelas Leis do Agro 1 e 2, que introduziram novos instrumentos financeiros voltados para o setor.
É o que explica Cristiano Oliveira, head of Research (líder de Pesquisa) na Rivool Finance. “Essas mudanças ampliaram significativamente as oportunidades de captação de recursos para o agronegócio, permitindo o acesso a formas mais diversificadas de financiamento”, diz.
Segundo o especialista, atualmente, mais de 1,5 milhão de investidores participam ativamente desse mercado, que já movimenta quase R$ 1 trilhão em ativos, distribuídos entre Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros).
O executivo explica que, desde 2021, quando os ativos relacionados ao agronegócio começaram a ganhar maior tração no mercado, investidores e gestores têm observado, pela primeira vez, um aumento nos índices de inadimplência e no número de pedidos de Recuperação Judicial (RJ) no setor.
“Nesse contexto, o estudo econométrico realizado pela Rivool Finance busca esclarecer as principais dinâmicas da inadimplência no crédito rural, destacando importantes relações entre essa inadimplência e variáveis macroeconômicas, como a taxa de câmbio, o custo do crédito, e os preços de grãos e fertilizantes no mercado internacional”, destaca Oliveira
De acordo com o executivo, assim como a produção agrícola, a inadimplência segue ciclos econômicos, sendo fortemente influenciada por variáveis como a taxa de câmbio e os preços das commodities.
“Entre todas as variáveis analisadas, o preço internacional dos cereais se destaca como o fator mais relevante para explicar os níveis de inadimplência no crédito rural no Brasil, com aproximadamente 48% das variações na inadimplência atribuídas às flutuações nesse mercado”, pontua.
Oliveira também salienta que, além do preço dos cereais, o estudo revela a importância de outras variáveis. A taxa de câmbio e o custo do crédito também têm um impacto significativo sobre a inadimplência, embora em menor escala.
Para Oliveira, a taxa de câmbio explica que, aproximadamente, 18% das variações na inadimplência ao final de 12 meses, enquanto o custo do crédito é responsável por 11% dessas variações no mesmo período, com seu efeito mais intenso observado no sexto mês, quando se torna particularmente relevante no curto e médio prazo.
“O aumento nos custos de insumos como os fertilizantes também exerce pressão sobre os níveis de inadimplência, embora esse impacto seja mais pronunciado no curto prazo”, salienta.
Segundo pesquisa do Research Gate, diferentes variáveis impactam a inadimplência no crédito rural ao longo do tempo. Um dos principais destaques é o custo do crédito, que apresenta uma elasticidade de curto prazo bastante alta, em torno de 3,795. Isso significa que um aumento de 1% no custo do crédito leva a um aumento de 3,8% na taxa de inadimplência.
Oliveira evidencia que esse efeito se mostra mais significativo entre os meses de abril e junho, evidenciando um impacto imediato e substancial no curto prazo. Ele frisa que, no entanto, no longo prazo, a elasticidade do custo do crédito é zero, indicando que, com o tempo, os produtores conseguem se ajustar a essas variações, neutralizando o efeito sobre os níveis de inadimplência.
“Quanto ao preço dos fertilizantes, a elasticidade de curto prazo é moderada, com um valor de 0,699, e seu efeito significativo ocorre nos meses 3 a 5. No entanto, o impacto torna-se muito mais pronunciado no longo prazo, com a elasticidade chegando a 3,865. Isso demonstra que, embora os aumentos no preço dos insumos não causem grandes problemas imediatos, eles se acumulam ao longo do tempo, elevando consideravelmente a inadimplência conforme os produtores enfrentam custos de produção mais altos”, sublinha o especialista.
E continua: “O preço dos cereais no mercado internacional se destaca como a variável mais influente sobre a inadimplência no crédito rural. No curto prazo, a elasticidade é de -6,296, enquanto no longo prazo atinge -9,273. Isso significa que um aumento de 1% no preço dos cereais resulta em uma redução de aproximadamente 6,3% na inadimplência no curto prazo e uma queda ainda mais expressiva, de 9,3%, em longo prazo”.
Inadimplência do crédito rural no Brasil e preço internacional dos cereais (2013-2024)
De acordo com levantamento do Banco Central do Brasil e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO, quando os preços dos cereais estavam elevados, como ocorreu durante a recente alta impulsionada pela pandemia de COVID-19, os produtores viram suas receitas aumentarem substancialmente, o que lhes permitiu não apenas manter suas operações, mas também amortizar suas dívidas com a estabilização e posterior queda dos preços das commodities, devido à normalização das cadeias de suprimento e à menor demanda, as margens de lucro dos produtores. Além disso, a natureza cíclica dos preços das commodities tem implicações diretas para o mercado de crédito rural, que também passa a ser afetado por ciclos de inadimplência.
Para mitigar os riscos de inadimplência, o estudo sugere algumas medidas importantes. Uma das estratégias é o desenvolvimento de ferramentas de previsão mais precisas, que podem incorporar variações nos preços das commodities, como os cereais, e na taxa de câmbio. Outra alternativa é a diversificação das carteiras de crédito rural. Ao distribuir os empréstimos entre diferentes regiões e tipos de produtores e culturas, os gestores podem reduzir sua exposição a choques específicos em determinados mercados de commodities.
“Políticas públicas também colaboram para a redução da inadimplência. Uma das medidas recomendadas é a redução da frequência das renegociações de dívidas, uma prática que pode incentivar comportamentos de risco entre os produtores. Além disso, é necessário limitar o uso indiscriminado de recuperações judiciais, que tendem a prejudicar o mercado de crédito como um todo, aumentando os custos de financiamento para os bons pagadores”, conclui Oliveira.
Classificação Indicativa: Livre
Qualidade Stanley
Limpeza inteligente
Baita desconto
Cupom de lançamento
Imperdível