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Tudo Nosso, Nada Deles

Publicado em 17/02/2015, às 13h10   Marivaldo Filho



Entender como um movimento musical oriundo da periferia de Salvador cresce e ganha força no Carnaval merece um estudo sociológico. Mais do que uma música, “Tudo Nosso Nada Deles”, de Igor Kannário, apresenta peculiaridades que só quem vive o ambiente da favela entende a profundidade. Passa pela forma de falar, de vestir e de enxergar a vida.
A empatia da periferia com Igor Kannário e a elevação do cantor ao status de ‘voz da comunidade’ começa por causa da identificação pela exclusão. À margem da sociedade, trabalhadores da favela, sem perspectiva de ascensão social, o povo se enxerga em Igor Kannário quando, por exemplo, o cantor de pagode é limado do carnaval de Salvador.
A população periférica de Salvador comprou a briga de Igor Kannário, também, depois que vazou que em uma entrevista de Caetano Veloso à Rede Bahia, uma edição estrategicamente recortou uma menção de Caetano ao “Príncipe do Gueto”. Sem contar o espaço diferenciadamente reduzido em relação a outros artistas nos meios de comunicação e o peso de ser considerado um cantor que incita a violência.  
Mais do que cantar para o povo da favela, Igor Kannário vive o gueto, frequenta as vielas e escadarias dos bairros periféricos de Salvador. A vivência o expõe tanto às coisas boas e ao relacionamento estreito com as comunidades, quanto às mazelas, a pobreza e a criminalidade que existem em qualquer localidade pobre do país.
Deixando completamente de lado o julgamento da qualidade musical e as polêmicas acusações de incitações de violência, Igor Kannário por estar imerso no ambiente das periferias soteropolitanas consegue alcançar em suas músicas, termos e gírias que só quem está muito ligado ao ambiente consegue alcançar. Ele fala para o povo pobre e a comunidade se sente abraçada pela sua música.
Por todo o histórico de exclusão e a iniciativa popular para a inclusão do pagodeiro na programação oficial do carnaval Kannário chegou mais forte à Avenida . A música de Kannário saiu da esfera da favela e ganhou os mais luxuosos camarotes dos circuitos oficiais. Mauricinhos e patricinhas rechearam as redes sociais de 'selfies' com a legenda  “Tudo Nosso e Nada Deles”.
Até o prefeito ACM Neto, durante a passagem do trio de Kannário pela Avenida na segunda-feira, além de mostrar familiaridade com a coreografia, disse que a canção do pagodeiro deveria ser música do carnaval. Em troca, Kannário fez um belo 'merchan' para o gestor, com direito a muita 'rasgação' de seda de ambos os lados.
Igor Kannário controlou a massa e o temor de ocorrências graves não se concretizou. O prefeito ficou bem na fita e quem estava no Campo Grande viu umas das maiores manifestações populares do Carnaval de Salvador nos últimos tempos. Todo mundo saiu ganhando. O povo negro e pobre seguindo o trio de Kannário e o povo branco balançando os camarotes, no mesmo ritmo, ao som de “Tudo Nosso, Nada Deles”.

Classificação Indicativa: Livre

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