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Sete de Setembro: Saiba como a manifestação foi construída ao longo dos anos no imaginário popular

Joilson Cesar / BNews
Apesar de simbolismo, celebração do 7 de setembro se tornou controversa ao longo dos anos  |   Bnews - Divulgação Joilson Cesar / BNews
Vagner Ferreira

por Vagner Ferreira

Publicado em 07/09/2025, às 06h00 - Atualizado às 06h02



Brasil, 7 de setembro de 1822: "Montado em seu cavalo, às margens do riacho Ipiranga, Dom Pedro I ergueu a espada com firmeza e, em voz alta, proclamou: 'Independência ou Morte!'". O grito do príncipe regente é narrado em livros de histórias e em comemorações cívicas. Mas, apesar do simbolismo, o contexto, no entanto, tornou-se controverso ao longo dos anos. 

Para a historiadora, Victoria da Paixão, o contexto do Grito da Independência foi construído no imaginário coletivo brasileiro com Dom Pedro I, um homem branco, português e vindo de uma elite, como o principal herói – um herói imaginário. “Isso passa pelo debate racial e a gente não pode deixar acontecer. O Brasil ainda tem o sonho de ser uma Europa, um país europeu fora das Américas”, afirmou ela, evidenciando que as narrativas ensinadas nas escolas também têm grande relevância para essa contextualização. 

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Ruptura de 1822

Um fator relevante para a ruptura em 1822 foi o fato de Portugal querer que o Brasil retornasse à condição de colônia, com todas as decisões sendo feitas em Lisboa, segundo aponta a historiadora. “A elite branca, abastada do Brasil, que fazia parte da política, achava que eram portugueses nascidos na América, e que iam continuar com esse status. Porém os portugueses deixaram bem claro que eles eram colonos brasileiros e que não deveriam ter nenhum tipo de autonomia”, descreveu.

Caso voltasse a ser colônia, o Brasil ia perder autonomia na comercialização. “Quem consegue comercializar livremente são países autônomos, colônias precisam passar por toda uma questão da aceitação do seu colonizador”, continuou a historiadora. “A escolha de fazer uma independência, inclusive de uma forma gradual e diplomática, nesse primeiro momento, é para evitar uma revolta entre a população”, acrescentou, ressaltando que o ato aconteceu por meio de uma união de diferentes estados para evitar que houvesse rebeliões. 

“Independência para quem?”

Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em História da UFBA, Victória explica que manter a escravidão e a população indígena silenciada, fazia parte desse processo de independência, porque tirava a chance das pessoas se revoltarem. 

“A gente saiu dessa independência, mas, independência para quem? Quem realmente conquistou essa independência? Não que essas pessoas não pudessem lutar para conseguir, mas, como foi negociado, tratou-se de uma tentativa de manter esse status da forma como estava. Então, a elite vai fazer de tudo para impedir com que a independência chegasse para todo mundo e continuava toda uma perseguição e escravização das pessoas racializadas. Para a população mais pobre, que estava no dia a dia, se manteve a mesma coisa”, afirma.

Independência do Brasil na Bahia?

A história não se encerra no dia 7 de Setembro de 1822. A independência do Brasil ainda estava longe de ser uma realidade concreta, especialmente na Bahia. Aqui no estado, foi apenas em 2 de Julho de 1823 que a luta se consolidou, de fato, na região, com a expulsão definitiva das tropas portuguesas que resistiam em Salvador. 

A historiadora conta que o processo de se tornar independente aconteceu, sobretudo, entre 1822 e 1823, mas que, por muitos anos, tentaram silenciar a vitória dos povos baianos. 

“A gente teve a construção de uma identidade por meio da união contra os portugueses, com participação da população indígena, do caboclo e da cabocla, da população negra, de mulheres participando, como Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Filipa, diferente do 7 de Setembro”, explica. “E esta é uma narrativa perigosa porque você vai ter a ideia da união desses povos minoritários participando e tendo o protagonismo da independência e da expulsão dos portugueses”, prosseguiu.

“Eu como baiana falo que é muito mais emocionante pra mim o 2 de julho do que o 7 de setembro, pois eu consigo me ver na história. A Bahia passa por uma identidade de luta, centrada no próprio baiano e não esperando os militares fazerem algo, não no português que gritou independência ou morte, mas sim na luta do próprio povo. É uma narrativa que se fosse colocada de forma nacional, ia de contra ao que os políticos da elite branca querem para o país”, detalha a historiadora. 

Imaginário coletivo nos desfiles cívicos

Ainda assim, as celebrações pelo 7 de Setembro se mantêm. Como forma de preservar a memória histórica e o espírito de união nacional, os desfiles cívicos que acontecem anualmente neste dia, se tornaram tradição no Brasil, reunindo escolas, bandas marciais, militares e representantes de instituições públicas e privadas. Entretanto, vem mudando ao longo dos anos. A historiadora ressalta, no entanto, que as primeiras manifestações não eram tão organizadas e nem tão militarizadas como nos dias atuais. 

“A gente vai ter uma mudança a partir do período da Era Vargas, do Estado Novo, porque se precisa criar uma narrativa de passado para uma memória coletiva, e que naquele momento, precisava ser militar, fazendo uma exaltação a eles. Até hoje, há uma narrativa em que acham que os militares vão resolver os problemas, mas não é bem assim, isso foi construído”, crítica Victória. 

As mudanças são percebidas pela analista técnica em contabilidade, Helena Marceline, que participa anualmente dos desfiles. “Há uma diferença muito grande entre os desfiles de hoje e os de antigamente. Antes, as escolas se preparavam para a apresentação, mostrava às crianças e aos adolescentes o que significava o 7 de setembro. Agora, até mesmo quando as escolas desfilam, estão mais preocupadas em mostrar serviços políticos, fazendo diretamente o palco de autoridades políticas que estão ali, com um tom mais de propaganda”, disse.

“Isso, de certa forma, tira o foco do verdadeiro sentido do desfile, da valorização cívica, da história e da participação da comunidade. Seria muito positivo se conseguíssemos resgatar o espírito de união e a celebração coletiva que a gente tinha no desfile há muito tempo atrás”, continuou Marceline. 

Por fim, a historiadora ressalta: “Como historiadora, eu quero falar que a narrativa nacional é feita de diversas formas. Vai ter a narrativa popular, que vai estar ali debatendo com movimentos sociais, com uma memória coletiva, e tem a narrativa construída exatamente pelo Estado brasileiro, com foco em um ponto específico que ele quer chegar. E esse ponto vai silenciar várias narrativas populares”, concluiu.

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