Coronavírus

'Não deixe de prescrever', dizia sistema da Hapvida sobre hidroxicloroquina

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Pressão sobre médicos incluía bullying em grupos de WhatsApp e blitz nos corredores de pronto-atendimentos

Publicado em 04/10/2021, às 07h15    Reprodução/Internet    FolhaPress

Forçar a prescrição do "kit Covid" e apelidar de “ofensores” os profissionais da rede de assistência médica que exerciam sua autonomia para não receitar medicamentos sem comprovação científica de eficácia contra a Covid-19. Promover blitz na saída de consultórios para averiguar e até mesmo substituir receitas médicas que não prescreviam esses remédios. Fornecer hidroxicloroquina gratuitamente a pacientes.

Essas são algumas das práticas relatadas à Folha por médicos da rede Hapvida. Elas apontam que a quarta maior operadora de planos de saúde do país, com sede no Ceará, promoveu uma ostensiva interna pelo uso de medicamentos do chamado "kit Covid" mesmo diante de evidências de sua ineficácia aferidas em ensaios clínicos.

Imagens do sistema de registro médico da Hapvida mostram como ele conduzia os profissionais a receitar esses medicamentos sem eficácia. Em uma das telas, uma mensagem é destacada em vermelho: "Não deixe de prescrever".

Na tela inicial do sistema, dois gráficos exibiam dados do Ministério da Saúde e informações supostamente observadas em hospitais da rede Hapvida. Os dados da rede poderiam até impressionar algum profissional menos familiarizado com a pesquisa científica, mas ofereciam uma comparação que ignora preceitos e controles típicos dos ensaios clínicos, usados para aferir resultados de medicamentos.

O caso revelado pelo site El País de paciente internado com Covid e intubado em hospital da rede em Salvador, cujo atestado de óbito não menciona a síndrome respiratória, aponta que a Hapvida fraudou o documento. A dimensão dessa prática, também identificada na rede de hospitais da operadora Prevent Senior com figuras como a do médico Anthony Wong e da mãe do empresário bolsonarista Luciano Hang, impacta nos dados apresentados pela empresa a seus médicos.

“Esse tipo de conduta é grave porque claramente quer empurrar o médico para prescrever o kit. Usaram dados que não comprovam absolutamente nada”, avalia o médico e advogado Daniel Dourado, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa/USP).

Para ele, “como a maioria dos médicos não faz pesquisa e não tem formação para isso, podem ser iludidos por esse tipo de coisa”. “A gente não sabe o que é ignorância e o que é má-fé. E, de um modo ou de outro, é lamentável.”

Procurada, a Hapvida informou, em nota, que “no melhor intuito de oferecer todas as possibilidades aos nossos usuários”, houve uma “adesão relevante da nossa rede” ao "kit Covid", mas que é coisa do passado. “Há meses não se observa a prescrição dessa medicação nas nossas unidades.”

Segundo uma médica de um hospital adquirido pela Hapvida no interior de São Paulo, o protocolo com “kit Covid” já existia em junho de 2020, quando começaram “sandices”. Ela afirma que havia cota de prescrição de hidroxicloroquina, e o plano dava a medicação para todos os pacientes com suspeita de Covid. Ela questiona a “fixação” do plano pela medicação, enquanto outras não eram distribuídas.

A operadora não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a origem da hidroxicloroquina adquirida pela rede e sobre as motivações para sua distribuição gratuita, uma prática incomum em redes privadas de saúde.

A médica conta que os coordenadores do hospital começaram a sofrer uma pressão muito grande da diretoria de Fortaleza. Segundo ela, eles recebiam telefonemas e mensagens agressivas, cobrando os motivos para a meta não ter sido cumprida.

De acordo com ela, a Hapvida tem uma estrutura vertical de orientações e um modo persecutório de operá-las. A médica afirma que foi dito claramente que quem não prescrevesse o kit não faria mais plantões no hospital.

Nessa estrutura de pressão, médicos da sede cearense da Hapvida faziam inspeções no pronto-atendimento do hospital no interior paulista, abordando pacientes para verificar se a prescrição protocolar havia sido feita. Caso contrário, a receita era retida no meio do corredor e substituída por outra contendo hidroxicloroquina e ivermectina. Uma situação surreal, descreve ela.

O esquema de pressão por prescrição e de doação da hidroxicloroquina se repetia em diversos dos 32 hospitais e 20 serviços de pronto-atendimento do grupo Hapvida, presente em 19 estados do país.

A nota da operadora informa ainda que “hoje a instituição não sugere o uso desse medicamento, por não haver comprovação científica de sua efetividade. Mas segue respeitando a autonomia e a soberania médica para determinar as melhores práticas para cada caso, de acordo com cada paciente”.

Dourado esclarece que a “autonomia médica é limitada pela evidência científica, o que está explícito no Código de Ética Médica”.

Mensagens obtidas pela Folha por meio da jornalista Chloé Pinheiro, que prepara um livro sobre o chamado “tratamento precoce”, indicam que a prescrição do "kit Covid" era obrigatória em hospitais da Hapvida.

“A prescrição de cloroquina para nós não é opcional”, diz mensagem de coordenador aos médicos de hospital da rede numa capital do Nordeste em julho de 2020.

Em outro grupo da rede, em dezembro passado, um coordenador pede atenção à “prescrição conforme diretrizes”. E completa: “Os indicadores de prescrição de diretrizes está [sic] fora do padrão”, antes de publicar imagens de um cachorro tomando cloroquina numa mamadeira.

Em mensagem de fevereiro de 2021, outro coordenador escreve: “Alguém não está de acordo com os princípios da empresa? Não podemos continuar com ofensores. O protocolo precisa ser seguido”.

A prática foi amplamente relatada por profissionais que atuaram em hospitais e serviços das operadoras Prevent Senior e Hapvida, mas há indícios de que esse arranjo tenha ocorrido também em outras operadoras de saúde do país.

Para o advogado Matheus Falcão, analista de saúde do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), “uma hipótese forte é a do interesse econômico, ou seja, tratar pessoas com medicamento sem eficácia e mandá-las para casa em vez de interná-las”, o que seria mais custoso ao plano.

“É o que chamamos na economia da saúde de conflito de agência. A operadora quer economizar, e o hospital quer financiar mais tratamentos, porque ganha dinheiro com isso. Quando esses dois agentes econômicos são a mesma empresa, há uma configuração que dá margem para descuidos”, explica o advogado do Idec.

O instituto recebeu denúncias contra a Hapvida e informa que a empresa “falhou em comprovar que não havia protocolo interno” para prescrição de medicamentos sem eficácia para Covid-19.

De acordo com médicos ouvidos pela Folha, o protocolo da Hapvida só foi descontinuado como conduta oficial de tratamento da Covid-19 a partir de abril de 2021. Foi este o mês de início da CPI da Covid e em que o Ministério Público Estadual do Ceará (MP-CE) multou a Hapvida em R$ 468 mil por "impor, indistintamente a todos os médicos conveniados, que receitem determinados medicamentos"no tratamento de pacientes com Covid-19".

A operadora está sendo investigada pelo Cremesp (Conselho Municipal de Medicina de São Paulo) e pela ANS (Agência Nacional de Saúde) após denúncias de que obrigava médicos a prescreverem hidroxicloroquina a pacientes com suspeita de Covid-19.

Em maio do ano passado, reportagem da Folha revelou que a Hapvida demitiu um médico e ameaçou fazer o desligamento de outros profissionais caso eles não adotassem a hidroxicloroquina.

À época, a rede afirmou que “a recomendação do tratamento é uma soberania médica, que leva em conta o histórico individual de saúde de cada paciente".

O Conselho Federal de Medicina (CFM) evocou a “autonomia médica” ao dar seu aval para a prescrição da hidroxicloroquina no país, por meio do Parecer nº4/2020. Ao mesmo tempo, médicos de operadoras de saúde eram coagidos a receitar os medicamentos ineficazes sob o manto deste mesmo argumento.

O CFM é alvo de uma ação da Defensoria Pública da União (DPU) por sua responsabilidade na chancela do uso consentido de cloroquina e de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com sintomas leves, importantes ou críticos decorrentes da Covid-19.

O argumento da autonomia médica também foi repetido pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido), principal garoto-propaganda do "kit Covid" e dos medicamentos nele contidos, como ficou claro em diversas de suas lives e no discurso recente na Assembleia-Geral da ONU, em que defendeu o que chamou ainda de tratamento precoce.

Médico da rede avalia que, na prática, a autonomia médica é o que foi mais comprometido em relação ao uso desses medicamentos sem eficácia para a Covid. Ele afirma que, na verdade, o que ocorreu é que os médicos passaram a ter cada vez menos autonomia para não prescrever cloroquina.

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