Justiça
Segunda-feira, 5 de outubro de 2026, pós-eleição e aquela sensação pesada de ressaca misturada com luto cívico. A preocupação imediata nem é tanto com o segundo turno, mas com o que nos restará de democracia no final do processo. Nasci em meio à redemocratização. Da infância política, guardo vaga memória da primeira eleição direta sob a Constituição de 1988, do impeachment de Collor, da ascensão de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, com seu exitoso Plano Real, e das sucessivas derrotas de Lula naquele período, até a versão “Lulinha paz e amor”.
Havia disputas acirradas, mas nunca, nunca mesmo, pairou a sensação palpável de retrocesso ou o fantasma real de retornarmos ao período mais sombrio da nossa história: os anos de chumbo da ditadura.
Lembro do clima de final de Copa do Mundo na primeira vitória de Lula, em 2002. Eu era uma adolescente de 16 anos, recém-chegada a Salvador, a cidade mais à esquerda do país, digamos assim. Nas ruas, havia uma sensação de esperança, renovação e alívio. Parecia o desfecho vitorioso de uma guerra, que, na época, nem parecia tão violenta assim. Éramos jovens demais para antever que, anos mais tarde, a nossa democracia, tão jovem quanto a nossa geração, estaria em risco.
De 2002 a 2010, atravessamos os anos dourados da era petista. Em 2008, veio o primeiro grande solavanco com a crise imobiliária e bancária que estremeceu os Estados Unidos e, por ricochete, atingiu o Brasil. O governo apostava que o tsunami global se resumiria a uma “marolinha”. E foi, naquele instante inicial. Mais tarde, eu já era estagiária de jornalismo em um sindicato, e passei a ouvir com frequência em palestras e encontros a apreensão com um sintoma estrutural que surgia: a desindustrialização acelerada e o encolhimento de postos formais de trabalho.
Indústrias importantes começaram a encerrar atividades. Grandes multinacionais já operavam com lobbies pesados por isenções tributárias, chantageando o poder público com a ameaça de se retirar do Brasil. Ao mesmo tempo em que o país vivia um boom imobiliário descompassado, o poder de compra da população dava claros sinais de asfixia. O problema não era só doméstico; o mundo todo entrava em convulsão. E uma onda conservadora começou a surgir ali.
Uma nova crise global se desenhava, e foi nessa brecha de desilusão material que discursos extremistas e ideias neonazistas encontraram solo fértil para brotar. E isso coincidiu com a explosão da internet de massa no cotidiano brasileiro, uma ferramenta de poder inédito que chegou às mãos do cidadão sem nenhum tipo de preparo. Não fomos alfabetizados para lidar com a internet.
Naquele período, setores progressistas insistiam na urgência de marcos regulatórios para a mídia e na real democratização da internet, com regras e responsabilidades claras. Isso nunca saiu do papel. E, aqui, cabe dizer. “Isso é culpa do PT”. Tivemos em mãos a chance histórica de regular as comunicações para blindar e amadurecer nosso Estado Democrático de Direito. Diante do cerco das velhas oligarquias, o debate foi silenciado na gestão da então presidente Dilma Rousseff, e o projeto acabou engavetado.
No vácuo de regras, as emissoras viraram um palanque permanente para a barbárie. As atrocidades e polêmicas geravam audiência e engajamento. Figuras públicas medíocres, sem qualquer proposta concreta para o país, ganharam projeção nacional e palanques infinitos. Enquanto isso, assistimos a tudo quase inertes, anestesiados pela convicção ingênua de que as instituições eram inabaláveis e que a liberdade de expressão jamais implodiria as regras do jogo democrático
E tudo isso aconteceu debaixo do nosso nariz. A extrema-direita decifrou a linguagem das massas e tomou de assalto as mesmas redes que sonhávamos ver democratizadas. Hoje, sem aquela euforia de 2002, repetimos o verso imortalizado no samba-enredo da União da Ilha, de 1978: “Como será o amanhã? Responda quem puder”.
Diferente do samba, no entanto, nosso destino não está nas cartas de tarô nem na sorte das ciganas. A resposta para o enigma da nossa sobrevivência democrática passa, obrigatoriamente, pela comunicação. Passa por resgatar a capacidade de dialogar com quem está esgotado da liturgia burocrática da política tradicional, do jargão sindical envelhecido e da insistência em enxergar a classe trabalhadora como uma massa operária homogênea, ignorando sua condição de sujeitos complexos, com aspirações e dores múltiplas.
A velha promessa da “picanha e da cervejinha” perdeu a força; virou um apelo anacrônico. O trabalhador sonha com dignidade, mas suas demandas não cabem mais na caricatura de um churrasco de fim de semana.
Conquistamos garantias sociais importantes ao longo das últimas décadas, mas continuamos tropeçando no básico: moradia digna e segurança pública. A expansão urbana sem planejamento, o crescimento desordenado das periferias e a ausência do Estado alimentam diariamente o ciclo vicioso de violência. O medo diário de sair de casa sem saber se voltará vivo é a angústia mais concreta e universal que atravessa a rotina do brasileiro.
Se as lideranças políticas não aprenderem a ouvir com honestidade o clamor que vem das ruas, se não formos capazes de construir pontes onde as demandas populares se sobreponham à guerra de trincheiras ideológicas, o amanhã continuará sob ameaça.
É preciso realmente ouvir as vozes das ruas, a voz do povo, e achar algum ponto de inflexão. Onde é que a direita e a esquerda se cruzam? Onde o centrão ajuda a estabilizar nossa política nacional? E o que nos garantirá que a democracia - essa vontade soberana do povo, reinará?
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