Justiça

ARTIGO: Organizações Criminosas e a Violência Urbana: o domínio paralelo nas grandes cidades brasileiras

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Redação Bnews

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Publicado em 16/07/2025, às 16h02



A escalada da violência nas metrópoles brasileiras não pode ser dissociada da atuação sistemática de organizações criminosas que, ao longo das últimas décadas, consolidaram “poder” sobre territórios urbanos e constituíram redes ilícitas complexas. Com raízes distintas, mas convergindo em práticas de dominação armada, controle territorial e economia do crime, esses grupos tornaram-se atores centrais na engrenagem da insegurança pública, muitas vezes contando com a omissão do próprio Estado.

No Rio de Janeiro, o fenômeno das milícias emerge do seio das próprias instituições estatais. Formadas, muitas vezes, por ex-policiais, bombeiros, políticos e demais agentes da segurança púbica, essas organizações surgiram no final dos anos 1990 como suposta alternativa para o combate ao tráfico, mas logo passaram a dominar territórios mediante extorsão, monopólios ilegais e coerção armada. Hoje, controlam vastas regiões da zona oeste e expandem sua influência por meio do denominado “arrego”, grilagem de terras e cobrança de taxas sobre serviços essenciais, incluída aí a pretensa segurança das localidades em que atuam.
A simbiose entre milícia e política local evidencia a falência da promessa republicana de segurança pública universal.

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Em São Paulo, a lógica se estrutura de forma distinta. O Primeiro Comando da Capital (PCC), surgido no sistema penitenciário paulista nos anos 1990, opera como uma organização hierarquizada com forte disciplina interna e domínio do tráfico de drogas. Sua atuação transcende os presídios, alcançando comunidades periféricas e o próprio sistema financeiro informal. O PCC especializou-se no tráfico internacional de entorpecentes e no roubo de cargas, atividade lucrativa que movimenta recursos significativos e compromete a logística urbana e portuária.

Na Bahia, o crescimento de algumas facções desdobradas do cenário nacional, denota como o tráfico avança sobre a ausência do Estado, promovendo guerras territoriais violentas e aliciamento de jovens periféricos. A letalidade policial no estado é uma das mais altas do país, reforçando uma política de enfrentamento bélica, racializada e ineficaz.

De outro lado, essas organizações criminosas não apenas disputam mercados ilícitos, mas impõem um domínio espacial e social sobre comunidades inteiras, substituindo o Estado em funções elementares, controlando o cotidiano da população com normas próprias e até “julgamentos”.
O resultado é a naturalização da exceção penal nas periferias, a militarização da vida e a perpetuação do encarceramento em massa de jovens negros e pobres.

O possível vácuo deixado pelo Estado brasileiro — ausente em políticas públicas efetivas de educação, saúde, habitação e cultura — se converte em terreno fértil para a cooptação da juventude periférica, que enxerga no crime organizado não apenas sobrevivência, mas um raro espaço de pertencimento, identidade e ascensão social simbólica. A deficiente alfabetização, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a violência estrutural cotidiana empurram adolescentes para os braços das facções, que oferecem não apenas armas, mas também pseudo reconhecimento e proteção. Trata-se de um processo de recrutamento silencioso, alimentado pela exclusão sistêmica e pela criminalização da pobreza.

Frente a esse quadro, não basta a repressão seletiva: é necessário repensar o modelo de política criminal, com enfoque em justiça social, controle democrático das forças de segurança e ruptura com a lógica de guerra às drogas e inimigos internos.
A persistência dessas organizações reflete menos um problema criminal e em muito a face mais brutal do fracasso civilizatório do Estado brasileiro que precisa com urgência de uma política social inclusiva, bem sucedida.

Por Gisela França da Costa,
Doutora em Direito Penal UERJ

Classificação Indicativa: Livre

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