Justiça

Carnaval de Salvador: Pacto histórico firmado em Brasília busca garantir dignidade a cordeiros e ambulantes

Ascom MPT
Com a adesão da Ambev ao pacto, o foco é garantir condições dignas para os trabalhadores que fazem a festa acontecer.  |   Bnews - Divulgação Ascom MPT
Claudia Cardozo

por Claudia Cardozo

claudia.cardozo@bnews.com.br

Publicado em 04/02/2026, às 20h16



Se por um lado o Carnaval de Salvador é sinônimo de festa e faturamento recorde, por outro, a realidade de quem "carrega o folia" nas costas, como cordeiros, ambulantes e catadores, sempre foi marcada pela precariedade. Mas o cenário para 2026 desenha algo diferente. A pauta pela valorização dos trabalhadores “invisíveis” ganhou projeção nacional e foi discutida em Brasília, para se firmar um acordo por dignidade no trabalho para essas categorias. 

Na última terça-feira (3), o jogo ganhou um novo capítulo com a adesão da Ambev ao Pacto pelo Trabalho Decente. O objetivo é promover o bem-estar social de quem faz a festa acontecer como prioridade absoluta, longe da sombra da exploração.

Em conversa exclusiva ao BNews, o procurador-Geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, abriu o jogo sobre como essa força-tarefa entre o MPT, a Justiça do Trabalho, o Governo Federal e a Prefeitura de Salvador vai operar na prática. O desafio não é pequeno: são cerca de 20 mil trabalhadores espalhados pelos circuitos da folia que, agora, passam a ter o olhar atento das instituições para garantir que o suor do trabalho não venha acompanhado de abusos ou falta de estrutura básica.

O fim do improviso?

Gláucio Araújo destaca a promessa de enterrar o improviso na infraestrutura. Segundo o procurador, a gestão municipal se comprometeu a entregar espaços que fujam do básico: locais dignos para descanso, pontos de alimentação e sanitários que funcionem de verdade. "Fiquei satisfeito com a informação de que teremos estruturas reais para que o trabalhador autônomo e o ambulante possam renovar suas energias", pontuou, reforçando que o descanso não é luxo, mas direito.

A medida mira na exaustão física que castiga, principalmente, os cordeiros. Eles, que encaram jornadas pesadíssimas debaixo do sol de Salvador, agora devem ter acesso rigoroso a Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e diárias com valores mais justos. É uma tentativa de humanizar o "chão do trio".

A sombra do trabalho infantil

Outro ponto que sempre gera polêmica é a presença de crianças nos circuitos. Muitas vezes, o ambulante leva o filho por não ter rede de apoio durante o trabalho. Sobre isso, o procurador foi enfático: haverá uma coordenação pesada para coibir o trabalho infantil, mas com um diferencial social. A promessa é de espaços lúdicos e seguros, onde os pequenos possam ficar protegidos enquanto os pais garantem o sustento da família sem o peso da insegurança.

Responsabilidade social e a fiscalização

A entrada da Ambev no pacto não é vista apenas como marketing, mas como um pilar de responsabilidade social necessário. Para o procurador, o setor privado finalmente entendeu que o lucro não pode atropelar a dignidade humana. Mas engana-se quem acha que o pacto é apenas um "acordo de cavalheiros" sem dentes.

Gláucio alertou que haverá punição caso haja desrespeito ao acordo. "O Ministério Público do Trabalho estará lá como observador independente, monitorando tudo, da montagem das estruturas até o último dia de festa", avisou. O objetivo é equilibrar o jogo: respeitar a autonomia de quem vende, mas sem permitir que as metas agressivas das grandes empresas virem uma sentença de desumanidade.

Com o suporte do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Salvador sinaliza que quer, sim, fazer o maior Carnaval do mundo. Mas, desta vez, tentando garantir que a civilidade não fique de fora da corda.

Classificação Indicativa: Livre

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