Justiça

Caso Banco Master: Documentos liberados pelo STF detalham o papel da REAG na engrenagem financeira dos Vorcaro

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Documentos liberados mostram o envolvimento da REAG no Banco Master e a investigação da Operação Compliance Zero  |   Bnews - Divulgação Foto: Divulgação
Claudia Cardozo

por Claudia Cardozo

claudia.cardozo@bnews.com.br

Publicado em 11/09/2026, às 16h40



A retirada do sigilo sobre os autos da Petição 15.556/DF, em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a condução do ministro André Mendonça, trouxe à tona os bastidores da Operação Compliance Zero. Liberadas no sistema judicial na madrugada desta sexta-feira (11), as centenas de páginas mostram detalhadamente o papel ocupado pela REAG Investimentos no organograma financeiro e societário do Banco Master e de seus controladores.

A REAG surge em diversas frentes da investigação: desde o desenho de Fundos de Investimento em Participações (FIPs) usados para ancorar ativos com baixa liquidez, passando pela contratação de consultorias privadas com figuras políticas de relevância na Bahia, até o bloqueio judicial de mais de R$ 2,2 bilhões contestado pela família Vorcaro.

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Créditos de carbono

Um dos trechos de maior repercussão na documentação liberada reside na manifestação protocolada pelos advogados Eugênio Pacelli e Frederico Horta, em defesa de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. A defesa contesta um bloqueio judicial efetuado via Sisbajud que alcançou mais de R$ 2,245 bilhões.

Na decisão de 3 de março de 2026 que embasou as prisões preventivas da 3ª fase da operação, o ministro André Mendonça destacou que, segundo a Polícia Federal:

A organização criminosa continuou a ocultar recursos bilionários em nome de terceiros (...), oportunidade em que foi bloqueada a impressionante quantia de R$ 2.245.235.850,24 (...), valor que estava na conta do genitor de DANIEL VORCARO, HENRIQUE MOURA VORCARO, junto à empresa CBSF DTVM, mais conhecida como REAG"

Em resposta encartada nos autos, a defesa sustenta veementemente a inexistência de moeda corrente ou desvios do Master ocultados na corretora:

A conta então bloqueada junto à REAG não dispõe e nunca dispôs dos valores ali apontados, em dinheiro, com efetiva liquidez! Jamais! Não há ali efetivos recursos monetários, para além dos estritamente necessários às despesas de gestão de um Fundo de Investimento em Participações (FIP). (...) Não há, repita-se, efetivo dinheiro, ao menos no que se refere à carteira do peticionário, naquela Corretora", disseram os advogados de Henrique Vorcaro, no dia 18 de março deste ano.

Para provar que os números não representavam dinheiro disponível, a defesa anexou um organograma societário e extratos bancários de custódia emitidos pela própria gestora. Todo o patrimônio de Henrique Vorcaro se resumia às cotas desses fundos de créditos de carbono, gerados em floresta amazônica pela Fazenda Floresta Amazônica, no município de Apuí (AM).

A defesa enfatiza que a titularidade da fazenda passou a ser contestada e reivindicada pela União, o que reduziu o valor econômico prático dos créditos a zero. O extrato juntado, emitido em 08/05/2025 pela REAG Administradora de Recursos Ltda. (Doc. 02, página 1), comprova que os R$ 16,3 bilhões líquidos de patrimônio contábil pertenciam a 170,13 cotas do fundo, restando em caixa apenas R$ 16 mil para despesas ordinárias de gestão.

Debate de mérito

Apesar da documentação juntada, tanto o Ministério Público Federal (MPF) quanto o relator André Mendonça indeferiram a revisão do bloqueio da conta na gestora. Em manifestação protocolada em 8 de abril de 2026, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, assinalou que o debate sobre a liquidez das cotas confunde-se com a própria apuração criminal:

"Referidas alegações, porém, fazem referência ao mérito da investigação, ainda sob apuração. Desse modo, seria prematura qualquer conclusão sobre o tema, não sendo o atual estado processual o momento para avaliação definitiva da origem dos valores investidos e sua utilização para desvio ou ocultação de ilícitos."

Acolhendo integralmente o parecer ministerial, o ministro André Mendonça proferiu decisão monocrática em 29 de maio de 2026 rechaçando os argumentos defensivos.

Ante o exposto, acolho o parecer da Procuradoria-Geral da República para INDEFERIR o pedido de HENRIQUE MOURA VORCARO, mantendo-se, por ora, hígidas e integrais as medidas assecuratórias anteriormente decretadas, sem prejuízo de ulterior análise quanto à tese de licitude e natureza dos seus créditos a partir da evolução das investigações."

ACM Neto e a REAG

A empresa também figurou no centro das repercussões do processo ao envolver diretamente o candidato ao governo da Bahia, ACM Neto. No dia 11 de março de 2026, ACM Neto ingressou voluntariamente nos autos da Pet 15.556/DF por meio de seus advogados.

O motivo da petição foi a publicação de reportagem pelo jornal *O Globo* que revelou dados de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf, apontando que sua empresa, a A&M Consultoria Ltda., havia recebido repasses na ordem de R$ 3,6 milhões somados do Banco Master e da REAG Investimentos.

Na petição endereçada ao relator do STF, a defesa de ACM Neto esclareceu:

No final do ano de 2022, quando não mais exercia qualquer mandato ou cargo público, o Requerente constituiu a empresa A&M Consultoria Ltda., por meio da qual prestou serviços de consultoria a alguns clientes, dentre eles o Banco Master e a empresa REAG Investimentos. A prestação dos serviços sempre ocorreu lastreada por contratos formais, com o devido recolhimento de impostos e trabalhos efetivamente executados, notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional."

O documento ressalta ainda que, à época dos contratos, não havia investigações públicas que desabonassem as empresas e que os honorários e dividendos distribuídos foram integralmente declarados à Receita Federal. ACM Neto formalizou queixa contra o vazamento ilegal de dados sigilosos e colocou-se à disposição do Supremo Tribunal Federal e dos investigadores.

Pressão no Banco Central e a ligação com Mansur

Outros relatórios e trocas de mensagens obtidos a partir dos celulares apreendidos de Daniel Vorcaro e anexados à representação policial da 3ª fase, deflagrada no dia 4 de março de 2026, mostram a REAG como elemento frequente nas discussões de bastidor com a cúpula de fiscalização do Banco Central.

No dia 17 de fevereiro de 2025, em troca de mensagens reproduzida na representação da PF (fls. 21 e 22), o então chefe-adjunto do Desup, Paulo Sérgio Neves de Souza, alertou diretamente o banqueiro sobre operações na instituição:

"Meu caro, teve uma saída de recursos de 488,8 mm do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de 545,5 mm da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento."* 

Os documentos revelam também como foi a tentativa de aquisição da Will IP. No dia 18 de abril de 2024, conforme transcrito na representação (fls. 17 e 18), Paulo Sérgio informa a Vorcaro que a aprovação da compra da instituição de pagamento pela REAG enfrentava resistências na autarquia e pede argumentos técnicos detalhando os ativos e passivos que ficariam sob a gestão da corretora para destravar a análise no BCB.

O vínculo de negócios entre o controlador do Master e o comando da gestora já vinha chamando a atenção dos órgãos de regulação. Em relatório de orientações prévias fornecidas por Paulo Sérgio a Vorcaro no dia 5 de fevereiro de 2024, antes de uma reunião institucional com o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino (fl. 16 da representação policial), o servidor público advertiu:

"Devem perguntar sobre seu relacionamento com Reag. Disse que eles tinham negócios com a família Piana e buscam no processo de liquidação ordinária reaver algum dinheiro. Mas devem querer saber sobre seu relacionamento com Mansur." 

Quem é Mansur?

Apontado pela Polícia Federal como um dos parceiros mais próximos de Daniel Vorcaro no mercado de capitais, João Carlos Falbo Mansur é fundador, sócio e ex-presidente do Conselho de Administração da REAG DTVM. As investigações da PF sustentam que fundos geridos pela REAG foram estruturados para dar vazão à circulação de ativos sem liquidez e desviar recursos do conglomerado Master. Relatórios da PF anexados ao processo citam, inclusive, que além de familiares de Vorcaro, três parentes de Mansur constaram como destinatários de repasses originados da engrenagem contábil.

Alvo na CPI e ramificações

A atuação da corretora no ecossistema do Banco Master é alvo de apuração também no Congresso Nacional. João Carlos Falbo Mansur foi convocado para depor perante a CPI do Crime Organizado (CPI CRIME) no Senado Federal, colegiado que aprovou requerimentos de quebra e transferência de sigilos bancários e fiscais, além de sucessivos pedidos de compartilhamento de documentos com o STF e com a Polícia Federal.

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