Justiça
Uma decisão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) mexeu com os bastidores do mercado financeiro e colocou um freio na chamada "indústria do Limpa Nome". A Corte determinou que cerca de 487 mil protestos em cartórios voltem a ficar visíveis para consultas de crédito em todo o país.
Na prática, a decisão "devolveu ao mapa" uma montanha de R$ 12,2 bilhões em dívidas que tinham sumido do radar dos bancos e do comércio. O imbróglio veio à tona após dados do Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil (IEPTB) mostrarem uma manobra perigosa: as dívidas continuavam existindo legalmente nos cartórios, mas sumiam das telas de órgãos como Serasa e SPC por força de liminares. No processo, o desembargador relator José Reginaldo Costa Rodrigues Nogueira, alerta para um "apagão informacional" capaz de implodir a análise de risco e encarecer o crédito para o cidadão comum.
Por trás desse sumiço em massa de CPFs e CNPJs negativados, a Justiça identificou o avanço da litigância predatória. O advogado Lucas Menezes, sócio do escritório Pessoa & Pessoa Advogados e atuante no caso, explicou que o modus operandi dessas entidades consiste em desvirtuar o papel das ações coletivas.
"A relevância da decisão está em reconhecer o desvio de finalidade do processo coletivo. A legitimidade das associações pressupõe representatividade adequada e pertinência temática, requisitos que essas entidades de fachada simplesmente não preenchem. Elas nascem para litigar com foco no lucro, não para representar de fato o consumidor", dispara Menezes.
Segundo o especialista, o estrago no mercado é em efeito cascata. "O resultado são liminares genéricas, com alcance nacional, que atropelam protestos válidos e regulares. Isso cega os credores na hora de avaliar o risco e acaba onerando toda a economia", detalha.
O texto do TJBA também expôs uma tática ousada dos grupos que operam o esquema: o fórum shopping. A manobra nada mais é do que espalhar processos idênticos por diferentes estados e comarcas até encontrar um juiz que conceda a liminar favorável.
Com essa pulverização de ações, as entidades conseguiam decisões amplas que blindavam caloteiros e prejudicavam terceiros de boa-fé, que vendiam ou emprestavam sem saber o real histórico do cliente.
O cenário baiano reflete uma preocupação que já escalou para Brasília. Nos últimos meses, Ministérios Públicos estaduais e o próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ) fecharam o cerco contra essas associações de fachada.
Para Lucas Menezes, o Judiciário finalmente acordou para o tamanho do problema:
O impacto final da "indústria do Limpa Nome" acaba pesando no bolso de quem paga as contas em dia. Conforme apontado no agravo do TJBA, quando o mercado financeiro não consegue calcular quem é bom ou mau pagador, a tendência natural é o aumento dos juros e das taxas para compensar o risco invisível.
Além de derrubar a liminar que escondia o rombo de R$ 12,2 bilhões, o relator do caso mandou ofícios direto para o CNJ, Ministério Público, Procuradoria-Geral de Justiça e para as seccionais da OAB da Bahia e de São Paulo. O objetivo é abrir investigações profundas e punir os advogados e envolvidos na farra dos processos predatórios.
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