Justiça

Juiz brasileiro cria nome britânico digno de romance e vira réu 45 anos depois

José Eduardo Franco dos Reis, juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo - Reprodução
José Eduardo Franco dos Reis usou o nome fictício Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield  |   Bnews - Divulgação José Eduardo Franco dos Reis, juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo - Reprodução

Publicado em 07/04/2026, às 09h43 - Atualizado às 10h24   Rafaela Kalil



José Eduardo Franco dos Reis, juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, usou o nome Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield, e responde processo penal que julga a utilização de um nome fictício durante a carreira de magistrado.

O caso de José Eduardo se tornou público em abril do ano passado, após ele tentar renovar o RG do seu verdadeiro nome e os sistemas identificarem uma duplicidade entre as digitais dele e de um suposto cidadão britânico.

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O juiz relatou à Corregedoria do Tribual de Justiça de São Paulo, em maio de 2025, detalhes de todo o caso, contando como mudou o nome e porque decidiu voltar atrás.

Segundo o magistrado, ele mudou o nome para Edward sem um motivo concreto, além de uma questão psicológica.

"Eu tinha uma fixação por Inglaterra e coisas da Inglaterra. Eu, criança, já lia e relia livros de autores ingleses: Charles Dickens, Walter Scott, Robert Stevenson, de onde me identificava profundamente com o país, as pessoas, a paisagem, a vida. Então a mudança (de nome) ocorreu por esse impulso meu, não sei dizer como ou por quê", explicou.

Depois de uma viagem frustrada aos EUA em 1979, onde teve dificuldades de adaptação com o clima e com oportunidades de trabalho, o magistrado retornou ao Brasil em segredo, segundo ele, estava envergonhado e deprimido. Por isso, para não voltar para casa, ele foi morar em uma pensão, aos 21 anos.

José Eduardo conta que foi nessa pensão que aconteceu todo o processo da mudança de nome. Durante o seu processo de introspecção, onde se afundava em uma depressão, o jovem na época, conheceu um senhor que trabalhava em uma delegacia e era chamado de Tio Pupo. Ele foi o responsável pelo surgimento de Edward Wickfield.

"Tio Pupo trabalhava numa delegacia. E ele falava pra mim: 'Você quer renascer? Eu ajudo você. Vou fazer um novo documento para você'. Como eu falava inglês, que eu falava muito de Inglaterra, ele ia me dar um nome inglês. Ele pediu meus documentos antes, meu RG de José e a certidão de nascimento e levou com ele. Aí marcou um dia pra eu ir lá na delegacia, eu assinei a ficha e ele me apareceu depois com o documento pronto.", relatou.

Com o novo nome, José Eduardo, a partir do RG tirou outros documentos, começou a trabalhar, estudou e entrou para a escola de Direito, fez um concurso para juiz e passou. Ele conta que durante todas essas etapas ninguem sabia do seu nome americano.

45 anos depois, o magistrado aposentado decidiu renovar seu documento original como José Eduardo por medo de morrer como Edward. Depois disso contou todo o caso para a sua família.

"Esse nome Edward ao longo dos anos foi se tornando um peso, estava afetando até minha saúde. Eu fiz uma renovação porque estava ficando idoso e com medo de morrer como Edward, que não era ninguém a não ser na minha vida, uma vida, assim, burocrática ou formal, não sei como dizer, mas queria que minha família me enterrasse como José. Depois que eu me aposentei, eu não precisava mais ser Edward.", finalizou.

O caso ainda segue em tramitação e aguarda data para julgamento.

Classificação Indicativa: Livre

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