Justiça
Publicado em 24/10/2025, às 09h00 Thiago Dória
Governança é para ser simples, a gente é que complica. Aliás, muita coisa na vida é assim, não é verdade? Governança também. Muitos executivos e consultores falam de Governança como se fosse uma alquimia: complexa e minuciosa, restrita aos especialistas de uma casta especial, capazes de usá-la para prevenir e solucionar todos os problemas das empresas. Já empresários e empreendedores muitas vezes falam de Governança como se fosse arte contemporânea: arrojada e impactante, admiram quando as grandes empresas a exibem, mas no fundo acham que não faz muito sentido para eles.
Eu confesso que não entendi o que era Governança de primeira. De bate pronto, diante de conceitos meio complexos, eu considerava que tudo aquilo resultava numa sobreposição meio inútil, como se fosse uma gestão da gestão que misturava questões jurídicas e administrativas sem muito sentido. Como jovem advogado, na época, me faltava um pouco de vivência. Somente quando trabalhei diretamente como um agente de Governança é que compreendi perfeitamente o fenômeno, e essa epifania me acendeu a necessidade de falar mais sobre isso.
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa conceitua a Governança corporativa como sendo “sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral”. O conceito é cientificamente impecável, mas precisamos descomplicá-lo para o mundo real. Num primeiro contato, prefiro falar de Governança de outra forma.
A maioria de nós já andou de carro ou de ônibus, e tem alguma noção de como se dirige uma veículo automotor. Sabemos que nenhum motorista, por melhor que seja, se arvoraria a dirigir um automóvel sem faróis, luzes de freio e pisca-piscas, ou sem velocímetro e painel, ou sem cinto de segurança, sem macaco e sem step, quiçá sem freio... Pois bem: freios funcionam como um sistema de integridade básico, e brecam o veículo quando um perigo aparece; faróis, luzes e piscas se assemelham a medidas de planejamento e transparência, avisando a todos os próximos movimentos do veículo; medidores no painel são como monitores de risco, e evitam que o carro pare de funcionar no meio da rua porque o motor ferveu ou porque acabou a gasolina; e cintos de segurança funcionam como bons contratos sociais, que protegem a todos na hora dos imprevistos. Todos os dias, entretanto, milhares (milhões?) de empresários desfilam orgulhosos pelas ruas, dirigindo seus negócios apenas com o acelerador e o volante.
Notem, mais uma vez, que estamos falando de coisas simples. É óbvio que os carros de última geração têm muito mais acessórios, dezenas de sensores e câmeras, pneus que não esvaziam, navegação por GPS e vários airbags para cada passageiro. Tudo isso é ótimo – para quem pode. Mas quem não pode ter um carro com tantos opcionais não abre mão do básico só por isso. Ninguém faz disso um ou oito ou oitenta. Precisamos compreender que no quesito Governança também é assim: você não precisa ter um complexo sistema de compliance típico dos grandes bancos para cuidar da integridade na sua empresa, nem precisa de um acordo de acionistas de centenas de páginas para firmar questões importantes entre os sócios de maneira clara e madura.
Nas próximas colunas, vou procurar abordar alguns pontos importantes e demonstrar que qualquer empresa ou organização, de qualquer tamanho, pode implantar uma boa Governança de maneira simples, fazendo o básico, e se beneficiar disso de maneira muito positiva e especial.
Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas
Classificação Indicativa: Livre
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