Justiça

Se Governe: Não precisa ganhar o Hexa, basta ganhar o baba

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Publicado em 10/06/2026, às 13h00   Thiago Dória



Quando falamos em Governança Corporativa, é comum que as pessoas pensem logo num Departamento de Compliance ultra complexo, ou em uma Diretoria de ESG cheia de pessoas, projetos e metas. Diante dessa associação imediata entre governança e complexidade, muitos empresários e gestores não querem nem pensar no assunto, pois acham que governança não é para eles.

A governança das grandes empresas pode até ser vista como inspiração, mas nunca como modelo. O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa conceitua a Governança corporativa como sendo um “sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral”. O conceito é cientificamente impecável, mas pouco didático para o empresariado, então vamos exemplificar.

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Ninguém imaginaria uma microempresa sendo “dirigida e monitorada” por dezenas de pessoas, e um bom gestor é capaz de fazer isso, mas é óbvio que esse trabalho fica melhor com uma assessoria de contabilidade e jurídica. Também não é necessário ter uma mega ferramenta de software e uma dúzia de analistas para estabelecer processos simples dentro da empresa, mas é óbvio que a previsão de procedimentos simples ajuda, como a exigência de três orçamentos numa tomada de preços ou a autorização do gestor para concessão de um desconto especial. Tudo isso é governança.

Em outras palavras, o que a maioria dos gestores de pequenas empresas não compreende é que as suas organizações já têm um pequeno sistema formado por alguns “princípios, regras, estruturas e processos” que resultam na efetiva governança daquela empresa. Quando esse pequeno sistema não é tratado como atenção, isso não quer dizer que a empresa optou por “não ter” governança corporativa, porque isso ela já tem. Na verdade, o que a empresa pode escolher é como ela vai tratar a governança que tem, e a opção de ignorá-la geralmente tem consequências ruins.

No embalo da Copa do Mundo, pensei num paralelo curioso. Todos nós já vimos o brilho nos olhos de uma criança ao se admirar com a destreza de um craque de bola, como por exemplo [sem polêmicas, insira aqui o nome do seu jogador preferido]. Toda criança, até os famosos pernas-de-pau (como eu), imagina ser aquele craque, almeja ser aquele craque, e entende que há um caminho entre eles: o futebol. Então, mesmo quando a criança percebe que ela não se tornar um craque como [insira aqui o nome do seu jogador preferido], ela vai continuar jogando futebol sempre que puder, e dando o seu melhor para se tornar pelo menos o craque da família, ou da rua, ou da escola. No final das contas a vida das crianças toma seu rumo, e cada uma percebe que não precisa ganhar a Libertadores (ou a Champions), basta ganhar o baba de domingo...

Quando você olha para a governança de uma empresa bilionária e pensa que aquilo não é para você (que é coisa dos craques de bola e dos clubes milionários), você não entendeu a diferença entre inspiração e modelo. E também não entendeu que você já está em campo, que a partida já está rolando, e você está parado. Não adianta se esconder da bola ou fingir contusão, pois nesse jogo não tem substituição: ou você aprende a jogar ou perde. Mas calma, a primeira coisa que você precisa lembrar é que não está disputando a final do mundial contra o time de [insira aqui o nome do seu jogador preferido]. Você joga no time da rua de cima, basta ganhar do time da rua de baixo. Será que é tão difícil?


Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas

Classificação Indicativa: Livre

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