Justiça
Publicado em 24/11/2025, às 06h00 Thiago Dória
Tenho um amigo (chato) que, ao ouvir aquelas reportagens sobre o resgate de pessoas se afogando em Salvador, sempre comenta: “Com certeza é tabaréu! Deu uns pulos na piscina e acha que sabe nadar...” Ressalvado o odioso preconceito regional, aqui repudiado, a parte final do comentário me levou a uma reflexão inusitada sobre a gestão dos riscos de uma empresa: só se afoga quem sabe nadar.
De fato, a pessoa que tem consciência e convicção de que não sabe nadar tende a adotar condutas bastante conservadoras neste particular. Se estiver passeando na praia, normalmente nem entra no mar, no máximo molha os pés ou se senta numa pocinha; se precisar andar de barco, se agarra a um colete salva-vidas e faz de tudo para chegar logo em terra firme. Já a pessoa que aprendeu a dar algumas braçadas de um lado a outro da piscina, geralmente entra no mar com tranquilidade, mesmo sem ter nenhuma experiência ou desenvoltura para enfrentar ondas fortes e correnteza, ou para vencer distâncias maiores a nado, caso necessário. A falsa impressão de dominar o ambiente pode fazer com que essa pessoa ignore seus riscos – e é assim que o incauto vai parar nos noticiários do final de semana.
Uma das principais tarefas da governança é ajudar as organizações a identificar, medir, prevenir, mitigar e neutralizar riscos. Considerando as duas situações hipotéticas acima, quem fez uma gestão de riscos mais eficiente? A pessoa que não sabe nadar, e por isso afastou-se do perigo e acionou um sistema preventivo, ou a que sabe nadar e entrou no mar sem considerar que as circunstâncias poderiam sair do seu (aparente) controle? Mesmo que não aconteça nada a essa segunda pessoa, é evidente que ela correu mais riscos. Ela estava realmente pronta para lidar com eles?
O que queremos dizer é que as empresas e organizações devem estar prontas para lidar com todos os riscos envolvidos nas suas operações, e para isso precisam entender muito bem onde elas sabem “nadar” e onde elas não sabem. É fundamental entender a quais perigos elas estão expostas, e quais deles elas são capazes de enfrentar. É óbvio que empreender e realizar sempre vai envolver risco, e muitas vezes atividades com mais riscos oferecem margens de lucro maiores, mas cada negócio precisa entender o seu apetite para o risco, definindo em que “mares” estão dispostos a entrar, e contra quais “correntezas” seu fôlego lhes permite nadar.
Uma boa iniciativa nesse sentido é a construção de uma matriz, onde os riscos da empresa sejam dispostos considerando a frequência e a relevância desses episódios, e essa combinação define a gravidade de cada risco e prioridade no seu tratamento. Embora seja visualmente simples, a construção de uma matriz de riscos exige sensibilidade e experiência, e dificilmente um executivo “sabe nadar” em toda e qualquer circunstância.
Além dos riscos operacionais, que normalmente são mais fáceis de dominar, as organizações estão diariamente sujeitas a riscos financeiros (baixa liquidez, inadimplência, mudança de política econômica, oscilação de câmbio), riscos legais e de conformidade (fiscalizações diversas, autuações tributárias, reclamações trabalhistas, corrupção e afins), riscos cibernéticos (ataques de hackers, sequestro de dados, vazamentos), de reputação (declarações equivocadas, envolvimento em polêmicas, defeitos de produto ou serviço expostos em rede social, escândalos de assédio), estratégicos (mudanças de hábitos de consumidores, obsolescência tecnológica, perda de vantagens competitivas, rescisão com fornecedores, brigas entre sócios). Como lidar com isso tudo sem a ajuda dos profissionais certos para levantar e medir esses riscos?
No mar e nos negócios, continuamos vendo pessoas que ignoram riscos para os quais não têm nenhuma expertise. Se você for uma delas, por favor, procure um salva-vidas.
Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas
Classificação Indicativa: Livre
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