Economia & Mercado
Esta matéria trata de histórias reais de três mulheres de gerações, culturas, classes sociais e raças distintas que não desejam revelar seus nomes, mas consentiram em contar suas experiências pessoais para inspirar outras pessoas que vivem os mesmos problemas por elas superados. Serão aqui denominadas de Maria, Antônia e Cecília, nomes fictícios que irão proteger suas identidades, uma vez que venceram a violência doméstica, a dependência emocional e financeira, tornando-se protagonistas de suas próprias vidas e exemplos de sucesso nos negócios.
Hoje, essas empreendedoras são arrimos de família e estão construindo um legado material, um patrimônio baseado na autoestima, na autonomia conquistada com coragem, força, fé, foco, persistência, muita determinação e educação financeira.
A jornada que vai da dependência emocional para o sucesso nas finanças envolve uma profunda transformação da configuração da mente, uma vez que perpassa pela submissão psicológica, profundamente enraizada em dívidas emocionais, e pelo medo da responsabilidade. Superar tais obstáculos requer coragem, ação consciente e consistente, contínua, além de muita organização financeira.
Essa tríade de mulheres empoderadas tem em comum o fato de todas serem nordestinas e ex-subordinadas emocionais e financeiras à suas famílias e aos cônjuges. Elas não tinham ideia da importância do conhecimento e controle sobre as finanças pessoais e somente depois de essa tomada de consciência suas vidas mudaram completamente, entretanto, em um processo gradual, árduo, mas que valeu a pena.
Maria, hoje com 30 anos de idade, é uma soteropolitana nascida e criada no subúrbio de Salvador, que cursou até o último ano do ensino fundamental. Ela começou no ramo de negócios de Baiana de Acarajé em 2019. Aos 18 anos de idade foi morar com um homem 15 anos mais velho para fugir da violência familiar, já que é filha de um pai alcoólatra e de uma mãe dependente química.
A relação foi o meio que ela encontrou, a estratégia mais rápida para sair daquela vida sofrida. Só que a realidade que a esperava era tão ou mais cruel que a anterior ao lado dos pais. Ela teve quatro filhos de um homem infiel, autoritário, abusivo, manipulador que não a deixava trabalhar e regrava todas as despesas dentro de casa. Como Maria já tinha filhos, a situação era muito difícil tanto emocional quanto financeiramente.
Sem o estudo adequado e necessário, a jovem mãe vivia desesperada, não sabia o que fazer até que, conversando com uma vizinha mais velha, descobriu uma obra social que ajudava mulheres em sua situação a se capacitar através de cursos gratuitos em horários flexíveis e adquirir, assim, a independência financeira. Ela tinha medo da reação do marido, mas teve sorte, pois ele se envolveu afetivamente com uma outra pessoa de poder aquisitivo melhor e a abandonou, deixando-a livre pra mudar de vida.
Não tendo outra opção, ela resolveu lutar para mudar de seu cenário pessoal em prol de si e de seus quatro filhos. “Contei com a ajuda dessa vizinha, que hoje é minha sócia, para me manter com o mínimo necessário e pude fazer o curso. Montei um tabuleiro de baiana e comecei a viver dos alimentos que vendia no subúrbio de Salvador, com o primeiro investimento possibilitado por minha amiga no valor de R$ 200,00, além de conseguir dela utensílios emprestados”, ressaltou Maria.
Mas a educação financeira e o controle sobre as finanças pessoais, lições que aprendeu em outro curso oferecido pela obra social, fizeram-na chegar ao estágio em que se encontra hoje junto com a sósia. Maria tem tabuleiros em cinco pontos da cidade empregando mais de 10 pessoas e possibilitando os estudos dos filhos.
“Adquiri, a partir daí, a minha casa própria, dois carros – um de trabalho e outro para o lazer pessoal com a família - além de ter conseguido realizar o meu antigo sonho de viajar para o exterior. Ano passado fui para a Europa com os meus filhos e a minha sócia. Foi perfeito! Quem poderia imaginar que aquela menina-mulher sofrida viveria tudo isso. A determinação, os amigos e os estudos,abaixo de Deus, fizeram com que eu chegasse aqui e ainda pretendo, com fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, voar como uma águia para além das nuvens”, destacou Maria.
Ela economiza, aplica, investe e não desperdiça, não mistura gastos pessoais com despesas da empresa, hoje com marca registrada. A outrora vítima de abusos psicológicos e físicos é, atualmente, uma empreendedora de sucesso e está construindo um patrimônio para os seus herdeiros. Como mulher empoderada, a baiana já os educa com a consciência da relevância do controle permanente sobre lucros e gastos.
Ela continua fazendo cursos de especialização investindo no autoconhecimento. Atualmente, realiza palestras nas comunidades por meio de obras sociais, ajudando, como mentora, outras mulheres a alcançarem êxito semelhante ao seu. E Maria ainda tem grandes sonhos de aumentar o seu patrimônio, fazer outras viagens internacionais e ver o seu os seus negócios no ramo da alimentação baiana se expandirem para o restaurante que pretende abrir e administrar com seus filhos e a sócia.O terreno já foi comprado!
A história de Antônia
Outra história inspiradora é a de Antônia de 48 anos de idade. A pernambucana de classe média cursou até o terceiro ano do antigo científico. Ela sempre foi vaidosa. Apaixonada pelo segmento de beleza, seu sonho era fazer o curso superior na área de estética, mas engravidou e teve que se casar, pois vem de uma família tradicional. O seu então marido a convenceu a não prestar o vestibular e ficar com a criança, assumindo o papel de mãe em tempo integral.
Desta forma, ela sufocou, mas nunca conseguiu exterminar em seu âmago, o sonho de se realizar como profissional no ramo da beleza e transferiu essa meta para a criança, sua menina, cuidada com uma verdadeira princesa. Após mais de 20 anos de casamento tóxico, no qual o marido sempre a humilhava, minando sua autoestima, com terrorismo psicológico, inferiorizando-a, menosprezando-a como mulher, Antônia começou a se sentir incapaz de realizar qualquer coisa, a mínima função que existe na vida.
“Eu acreditava nas palavras do meu cônjuge, que dizia que eu já estava há muito tempo afastada dos estudos, velha e que só sabia ser mãe. Ele me considerava até uma péssima mãe, me dizia sempre palavras cruéis, que nenhuma mulher deveria ouvir na vida e que hoje sei que são mentiras...”, revelou sofrida, com olhos lacrimejantes ao rememorar tudo o que passou antes de ressurgir como uma verdadeira fênix na imagem de mulher e empresária.
Antônia passou a acreditar em tudo o que o marido dizia para mantê-la dependente dele totalmente. Por isso, submetia-se à vergonhosa situação de necessitar pedir até o dinheiro do pão, diariamente, para o marido. “Eu não tinha condições de comprar um sabonete, um shampoo, nada. Tudo tinha que pedir e conseguir depois de muita humilhação verbal, estresse psicológico... era chamada de feia, gorda... ele dizia que ninguém mais ia me querer e que deveria ser muito grata por ele ainda estar comigo por pena”, contou com os olhos angustiados.
E revelou com cicatrizes no coração, mas força na alma: “Eu sabia que ele não gostava mais de mim nem eu gostava mais dele. Só estava junto a ele por necessidade, pois não tinha coragem de voltar para os meus pais que eram muito religiosos e não aceitavam separação na família. Minha mãe suportou traição de meu pai e achava que eu deveria fazer o mesmo, que era obrigação de toda mulher. Aceitei, eu me condicionei e dei continuidade a esse círculo vicioso”.
Mas suas forças para tentar sobreviver a esse casamento tóxico acabaram e ela foi acometida por uma violenta crise de ansiedade. Sofreu um colapso psicológico após uma forte rotina depressiva. “Fui levada ao hospital onde detectaram que eu estava com stress em níveis alarmantes e fui orientada, depois de ser medicada, a ir a um psicólogo. Diante do meu estado, com medo de eu ter alguma coisa e ele ser culpabilizado, meu então marido, por causa da insistência de minha filha - que também vivia aterrorizada com as brigas diárias criadas pelo pai -, mesmo sendo tímida, enfrentou-o e fez com que ele aceitasse pagar um psicólogo para mim”, revelou Antônia, sensibilizada com o retorno das memórias.
Foi aí que houve a girada de chave. Aos poucos a pernambucana foi se abrindo com a psicóloga, que começou a lhe mostrar que a vida era muito maior e que ela era capaz de tudo o que eu quisesse; precisava apenas se reerguer psicologicamente e ter forças para ir em busca de seus sonhos. “Não seria fácil diante da submissão e sob o controle que eu vivia, mas fingi que estava em sessões extras de psicologia necessárias para restauração da minha saúde mental e me matriculei em um curso de beleza, o qual descobri na internet e que era próximo à minha casa. Ela era gratuito. A partir daí, estabeleci relações de amizade e consegui uma oportunidade para estagiar em um salão de beleza”, rememora, animada com emoções surgindo em botões.
“Eu lembro que, ao falar para meu marido, ele ficou furioso, foi uma briga terrível,porém, junto com a minha filha, eu o enfrentei e disse a ele que se me proibisse, eu iria enlouquecer e denunciá-lo. Pela primeira vez ele ficou temeroso e não me proibiu mais. Comecei a ficar mais ousada, independente”, confessa.
Ela se refere ao fato que, após o episódio, pediu um dinheiro emprestado a uma das colegas do curso. “Lembro-me como se fosse hoje que consegui fazer com esse dinheiro multiplicasse. Foram dias, meses de sacrifícios que valeram a pena. Economiza na alimentação, ia e voltava do estágio, a princípio, três vezes por semana. Depois solicitei uma ajuda de custo no trabalho onde expliquei minha situação. Ele regrava tudo em casa para tentar ver se me dissuadia do meu sonho, que ele chamava de bobagem infantil, loucura de mulher velha, mas resisti e guardei cada centavo”, revelou.
Uma colega que morava perto de Antônia começou a lhe dar carona e, com o dinheiro que guardava, começou a comprar alguns equipamentos pessoais, como lixa de unha, esmalte e demais produtos essenciais para exercer suas funções na área. “Eu fazia tudo com tanto cuidado e paixão que as clientes começaram a me dar gorjetas cada vez maiores. Dessa forma, comecei a reinvestir parte do que ganhava nos meus materiais e a conseguir clientes particulares. Foi aí que o negócio foi aumentando e eu resolvi me inscrever em um curso de gestão de negócios, finanças para iniciantes”, conta a empreeendedora.
Ela tomou coragem, alugou um espaço bem simples para si e sua filha, separou-se litigiosamente, uma vez que o ex-marido não aceitava a derrota nas tentativas de manipulação, e, conseguiu fazer o curso de educação financeira para multiplicar seus ganhos e não voltar mais para a vida de dependência completa que o marido e os pais a imputaram.
”Resultado: hoje, tenho um salão de beleza, vou abrir outro com ajuda de minha filha que administra ambos e irei fazer a minha tão sonhada faculdade de estética, pois pretendo ampliar os negócios colocando serviços diversificados com especialistas. Ou seja, irei gerar empregos e me tornar uma profissional cada vez mais qualificada no ramo que amo - o de beleza, da estética”, fala com os olhos em chamas, resplandecendo garra, coragem e certeza no futuro que já projetou para sim.
A pernambucana tomou as rédeas de sua vida e se tornou a protagonista de sua história. “Eu me considero uma vencedora e ainda tenho muito que conquistar e vencer. Tenho orgulho de dizer que sou, hoje, um exemplo para minha filha, que é a minha melhor amiga. Ela nunca me deixou e sempre me incentivou, porém a educação financeira, o controle das minhas finanças pessoais e a ajuda de uma obra social no momento certo, abaixo de Deus, trouxeram-me até aqui. Pra vencer nesta vida é preciso ter persistência, fé e amigos, conclui.
A vida de Cecília
A terceira grande mulher desta reportagem é a denominada Cecília. Uma alagoana de 62 anos, formada em administração e psicologia e pós-graduada em gestão estratégica de negócios. Com os olhos fixos no horizonte, ela afirma que nunca foi feliz no casamento. Contraiu o matrimônio por amor, teve dois filhos, um casal, mas sempre foi a mãe perfeita, a dona de casa ideal, a esposa dedicada que abriu mão de todos os seus sonhos para se dedicar ao marido, um engenheiro que vivia viajando.
Segundo Cecília, o marido sempre a tratou como uma dondoca desprovida de inteligência, todavia nunca lhe faltou nada no quesito material, nem quando era solteira nem após casada. Mas no âmbito sentimental a situação era bem diferente: o cenário era de escassez. Cecília se sentia vazia sem um propósito nessa vida, pois tudo que pensava em fazer seu marido dizia que ela não tinha aptidão, que não adiantaria, seria perda de investimento e de tempo, ale de vergonha para a família, já que ela estava fadada ao fracasso.
“Ele me dizia que não adiantaria investir dinheiro em nada do que eu propunha, uma vez que era boa em apenas uma coisa: em gastar o dinheiro dele e que eu me contentasse com isso porque ele era um marido que não ligava em gastar o dinheiro suado dele nos meus luxos de mulher dondoca e vazia. Tudo isso era dito com frieza assustadora, com uma naturalidade alarmante,suas palavras doíam, cortavam meu peito e me destruíam como pessoa”, relatou Cecília com sua voz mansa, seus olhos calmos de quem sabe que venceu tamanha crueldade e deixou seu algoz para traz.
Sabe o filme “Dormindo com o inimigo”? Era assim que eu me sentia. A única diferença é que ele me batia, me chicoteava, me matava com palavras ou com a falta delas. Hoje, sei que era o que ele podia me dar, pois não conseguia lidar com o fato de me perder quando eu descobrisse que ele era medíocre eu muito melhor e maior do que ele jamais seria, com seu egoísmo, sua mesquinhez, covardia, inveja e alma pequena”, desabafou, de forma tranquila, a mulher com uma sabedoria conquistada após uma trajetória de vida de autoconhecimento e conquistas que ninguém mais poderá lhe tirar.
“Aceitei isso como sempre aceitei tudo que as pessoas me davam ou diziam sem questionar. Não gostava de enfrentamentos, era mais cômodo calar, ceder e não arriscar, não me indispor, mas a estagnação em meio às conquistas alheias me angustiava, me consumia por dentro. Não tina inveja das vitórias de outrem, mas da coragem que levava as pessoas a tamanhos êxitos.Queria essa coragem!”, contou Cecília, como foram de catarse.
Mas isso mudou quando Cecília, até então tratada como um bibelô, uma peça de decoração do lar, descobriu que estava sendo traída e, não suportando a infidelidade, pediu o divórcio. Como retaliação e vingança, pois o então cônjuge queria viver a hipocrisia da vida dupla, mantendo as aparências através do casamento sem abrir mão da amante, a obrigou a lidar com um divórcio litigioso.
“Por ter sempre deixado minha vida nas mãos dele, terminei sem nada e tive que me reinventar. Formada em administração, consegui emprego com um amigo de meu tio e comecei a trabalhar arduamente. Os meus filhos me deram força e, diante do trauma psicológico que eu vivi durante todo aquele tempo e depois com a traição – apesar de não sentir mais nada por ele diante de tantos maus tratos -, comecei a cursar psicologia como forma de catarse e também para entender como deveria enfrentar a vida”, revela a alagoana.
Foi desse modo que esta nordestina descobriu o amor pela profissão e reinvestiu nos estudos. Trabalhando nessa empresa sob indicação, foi convidada por um dos sócios para um cargo de confiança, subiu de patamar na companhia e resolveu investir na pós-graduação estratégica de negócios. Começou então a administrar as finanças pessoais e duplicou o patrimônio que havia perdido, aplicando, economizando, fazendo escolhas financeiras racionais e conscientes de olho no futuro.
Cecília mostrou a si mesma e a todos que não acreditaram nela que é capaz e se tornou um exemplo para as mulheres que vivem como ela viveu. Ela, Maria e Antônia seguiram em frente, reinventaram-se e driblaram esse círculo vicioso que as gerações de outrora e também as atuais ainda enfrentam.
“Hoje, sou um exemplo também para meus filhos e isso me deixa orgulhosa. Estou dando palestras e sou consultora de gestão estratégica de negócios para muitas empresas privadas e públicas no estado de Alagoas e em outras cidades do Brasil.Tenho muita disposição e ainda muito que aprender, realizar e ensinar sobre resiliência, educação econômica, gestão de financeira, pontos- chave para o sucesso pessoal e profissional de quaisquer pessoas”, finaliza Cecília.
Uma coisa é certa: essas três vitoriosas mulheres nordestinas não se conhecem, mas as suas hstórias de superação e sucesso no mundo dos negócios precisam ser conhecidas e chegar ao máximo de pessoas possível. São exemplos de vidas que se reinventaram a partir da coragem e da educação financeira.
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