Economia & Mercado
por Cibele Gentil
Publicado em 31/07/2026, às 12h58 - Atualizado às 13h41
O grupo Gennius, controlador do Habib's e do Ragazzo, passa por um período de turbulências. A rede de fast-food, famosa por campanhas promocionais agressivas, como as Bib’sfihas por R$ 0,10 nos anos 1990 e 2000, acumula hoje dívidas que chegam a R$ 312 milhões. No início deste mês, o conglomerado conseguiu na Justiça uma proteção contra a cobrança de credores.
De acordo com analistas, muitos fatores contribuíram para o cenário da crise enfrentada pelo grupo. À pressão nas finanças da empresa por conta das taxas de juros, também se somaram o endividamento das famílias, as mudanças de comportamento de consumo e o acirramento da concorrência no setor.
Pressão do mercado
Segundo Cristina Souza, CEO de uma consultoria especializada para foodservice, a estratégia de preço adotada pelo grupo deixa as empresas mais sensíveis às variações de custos. Com pouca margem, aumentos nos preços de insumos como o trigo e a carne, que sofrem com problemas do clima e conflitos internacionais, acabam impactando fortemente empresas como Habib’s e Ragazzo.
Conforme a explicação da especialista, publicada em O Globo, também pesou o acirramento da concorrência, que cresceu de maneira expressiva nos últimos anos acompanhando a aceleração do delivery. “Na disputa pelos clientes, as plataformas de delivery trazem muitos cupons, e isso pressiona as empresas do setor. Você vende um produto por R$ 10, mas recebe 20%, 25% ou até 30% menos por causa das taxas. As margens vão ficando cada vez mais apertadas”, detalhou.
Preço baixo e agilidade na entrega, que no início era o diferencial da empresa, acabaram se tornando padrão no setor. “Se antigamente o apelo era a esfiha muito barata e a entrega veloz, hoje existem outras opções com essa mesma proposta. Surgem novos concorrentes o tempo todo, e o consumidor experimenta facilmente outra marca”, explicou Cristina.
Outro ponto importante que contribuiu para a crise no grupo foi aperto no orçamento das famílias, sobretudo nas classes C, D e E, seu principal público-alvo. De acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento alcançou 81,6% das famílias brasileiras em junho, chegando a 84,7% no caso das famílias mais pobres, que ganham até três salários mínimos.
Adversidades econômicas e preservação da empresa
O grupo Gennius requereu à Justiça proteção contra credores no fim de junho, alegando enfrentar um “conjunto de adversidades econômicas e financeiras que impactaram sua estrutura de capital e solidez”. No último dia 1º, a 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo concedeu parcialmente a proteção cautelar.
A decisão abrangeu 174 sociedades do grupo e seus administradores por 60 dias. No entendimento da Justiça, a medida foi adotada “em prol da preservação da empresa e da maximização dos ativos do devedor”. Se fossem adiante, as execuções e expropriações poderiam causar “liquidação desordenada”. Com a decisão judicial, o grupo está blindado da execução das dívidas pelos credores até o início de setembro.
As dívidas somam R$ 312 milhões, sendo mais de R$ 230 milhões em débitos com instituições financeiras como os bancos Bradesco, Itaú e Inter. A longa lista de credores também inclui fornecedores como a empresa de brinquedos Bamko, a JBS, a fornecedora de vegetais De Marchi, a Bunge e a Ambev.
O grupo Gennius afirmou, através de nota, que ingressou com pedido de medida cautelar com o objetivo de negociar os passivos financeiros acumulados durante “o período desafiador dos últimos anos”. O grupo também afirmou que todas as suas lojas "continuam funcionando normalmente em todo o país, mantendo o mesmo padrão de qualidade e atendimento aos nossos clientes”.
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