Economia & Mercado
O debate sobre o fim da escala 6x1 no Brasil tem sido tratado de forma precipitada e sob influência do calendário eleitoral, segundo avaliação do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban.
Ao Estadão, ele afirmou que levar o tema ao Congresso com urgência, sem aprofundar os impactos econômicos, representa um equívoco. Para Alban, a discussão até pode ser válida, mas exige mais tempo, dados consistentes e um ambiente menos pressionado politicamente.
“É uma discussão meritória, mas tem de ser feita com responsabilidade. O que a gente chama de responsabilidade? É com ponderação, com estudos de impacto efetivos, realistas, com causas e efeitos sendo entendidos. Vivemos num momento muito crítico para a economia brasileira, com uma enxurrada de produtos manufaturados entrando no Brasil, principalmente da China, Estamos vendo uma indústria que perdeu a competitividade. São dados. E tem um outro dado estatístico importante. De fato, a média das horas trabalhadas no Brasil já é menor do que 40 horas. São negociações de livre entendimento entre as partes. Isso é a democracia. E ela acontece quando existem condições. Como é que nós queremos fazer agora uma imposição por lei? Não faz sentido”, disse.
Pressa no Congresso é alvo de críticas
Para Alban, a crítica central do setor industrial está na velocidade com que a proposta pode avançar. Há expectativa de que o governo envie um projeto com urgência constitucional, o que obrigaria a análise em até 45 dias.
“Porque não vai ser uma discussão responsável em um momento de pressão eleitoral, populista, eleitoreira, sobre nossos deputados e senadores. E nós não queremos jamais colocar essa posição entre 'nós e eles'”, reforçou
Na avaliação de Alban, esse prazo é incompatível com a complexidade do tema. Ele defende que mudanças desse porte precisam de debate mais amplo, com participação de diferentes setores e análise detalhada dos efeitos na economia.
“Eu acho que é um erro político. Só se justifica como uma estratégia política. Vamos ter empresas sofrendo sem solução e vamos ter aquelas que têm a capacidade de encontrar mão de obra ou de repassar custos, fazendo o mesmo. Eu não vejo, da forma que vai ser feita, açodadamente, que é a única palavra que eu encontro mais adequada, uma real conquista para a sociedade. E o que nós queremos é que seja conquista. Porque se for conquista, é bom para todo mundo”, disse.
Impacto pode chegar à economia e ao bolso
Ainda na entrevista ao Estadão, o presidente da CNI alerta que decisões tomadas sem esse aprofundamento podem gerar efeitos diretos no custo de vida. Segundo ele, eventuais aumentos de despesas das empresas tendem a ser repassados ao consumidor final.
“Mas o preço de sua passagem de ônibus vai subir, o preço de sua cesta básica vai subir, o preço do Minha Casa, Minha Vida vai subir, o preço do seu serviço médico vai subir. Não existe milagre. A empresa tem esses custos adicionais, ela vai repassar isso”, explicou.
A preocupação envolve desde preços de serviços básicos até impactos na estrutura fiscal, já que mudanças na jornada também podem atingir gastos públicos com pessoal.
“Como é que fica a situação fiscal dos municípios, dos Estados e federal, se nós sabemos que um dos maiores itens do orçamento dos poderes públicos é folha de pagamento? Isso também tem impacto. É por isso que essa discussão tem que ser responsável. E nós não queremos também um 'nós e eles', trabalhador ou empregador. O Congresso, com opinião pública, com informações não completas. Então não é justo que nós possamos deixar os nossos congressistas numa situação também muito delicada”, afirmou.
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