Economia & Mercado
por Camila Sales
Publicado em 14/07/2026, às 11h35 - Atualizado às 14h34
A Baixa dos Sapateiros, um dos maiores e mais antigos símbolos do comércio popular de Salvador, enfrenta uma crise sem precedentes. O cenário, que outrora era marcado pelo intenso fluxo de consumidores em busca de preços baixos e variedade, hoje tem portas fechadas, corredores vazios e a constante preocupação dos lojistas com o futuro da região.

De acordo com comerciantes e frequentadores locais, o principal motivo para o declínio do movimento foi a reestruturação do transporte coletivo na capital baiana, que reduziu drasticamente a circulação de linhas de ônibus na área da Barroquinha e da Baixa dos Sapateiros nos últimos anos.
A retirada das linhas dificultou o acesso dos consumidores e acelerou o esvaziamento da região. Os reflexos dessa mudança são sentidos diariamente por quem trabalha ou precisa transitar pelo local:
Queda nas vendas: lojistas relatam que, após a mudança nas rotas dos coletivos, o comércio sofreu uma queda de cerca de 70% no movimento.
Fechamento em massa: praticamente 100 lojas já tenham encerrado suas atividades na região devido à falta de condições financeiras para manter os negócios abertos sem a clientela habitual
Insegurança e tempo de espera: consumidores que ainda frequentam a área reclamam da longa espera nos pontos de ônibus, que chega a durar entre uma hora e uma hora e meia, deixando-os vulneráveis a assaltos em ruas cada vez mais desertas.

Para quem dedicou a vida ao comércio local, a situação atual é triste. Uma comerciante com 40 anos de atuação na Baixa dos Sapateiros relembra a época de ouro:
"Isso aqui era muito movimento, bancos... Retiraram os bancos também. Quer dizer, não tem movimento".
Segundo ela, o que ainda traz algum fôlego para os poucos lojistas que resistem é a área do Taboão, que ainda atrai alguns compradores por conectar o Comércio ao Pelourinho, Baixa dos Sapateiros e Carmo.
O problema não é recente. Desde 2017 e 2018 jornais locais e associações de comerciantes já denunciavam a queda nas vendas e organizavam protestos contra a retirada dos ônibus, alertando para o impacto devastador em um comércio com mais de 180 anos de tradição.

A realidade contrasta fortemente com o passado da avenida, que não foi apenas um polo econômico, mas também um movimentado centro cultural. Durante décadas, a Baixa dos Sapateiros foi o destino principal para compras da população além de que abrigou cinemas e teatros.
Sua importância para a alma de Salvador é tão grande que foi eternizada na música brasileira, dando nome a uma das mais famosas composições de Ary Barroso:
“Na Baixa do Sapateiro/Encontrei um dia/A morena mais frajola da Bahia/Pedi-lhe um beijo, não deu/Um abraço, sorriu/Pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu”
Apesar do cenário de abandono, os lojistas ainda acreditam que há espaço para recuperar a região.
Para que as portas voltem a se abrir, os comerciantes fazem apelos urgentes ao poder público municipal e estadual para que olhem a importância histórica e econômica do comércio de rua da região. Com isso, uma das principais propostas defendidas pela associação de comerciantes é a instalação de equipamentos de serviços públicos na Barroquinha. A ideia é que a oferta desses serviços volte a atrair a circulação diária de pessoas, movimentando o comércio e resgatando a vida da avenida.
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A Baixa dos Sapateiros carrega grande parte da memória econômica e cultural de Salvador. O desafio agora é encontrar meios de integrá-la às novas dinâmicas de mobilidade da cidade, antes que mais portas se fechem definitivamente.
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