Economia & Mercado
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, provocou reações nas redes sociais após prometer comprar dívidas bancárias de brasileiros, suspender temporariamente as cobranças e reduzir o valor das parcelas.
A proposta foi apresentada durante o debate da Band, neste domingoo (19), e prevê seis meses de carência para pessoas físicas e um ano para empresas. Após a declaração, internautas compararam a iniciativa ao Plano Collor, que bloqueou parte do dinheiro depositado em contas bancárias e cadernetas de poupança em 1990.
Durante o debate, Flávio afirmou que pretende fazer com que o governo compre as dívidas diretamente dos bancos por valores menores. Segundo ele, a medida permitiria reduzir os juros e liberar recursos para que famílias voltem a consumir e comerciantes recuperem seus estoques.
A promessa, porém, levantou questionamentos sobre como o programa seria financiado, quais seriam as condições para a compra dos débitos e como as instituições financeiras seriam compensadas.
Nas redes sociais, as críticas também resgataram a experiência do governo de Fernando Collor de Mello, marcada por uma das intervenções econômicas mais traumáticas da história recente do país.
Atualmente, o ex-presidente cumpre pena em regime domiciliar em Maceió (AL), após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato.
Ao explicar a proposta, Flávio afirmou que pessoas físicas ficariam seis meses sem pagar as dívidas contempladas pelo programa. Para empresas, o prazo seria de um ano.
“E para você que é pessoa física, vai ficar 6 meses congelado, parada a sua dívida, você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de 1 ano, 1 ano sem pagar os seus boletos, sem pagar as suas dívidas que estão atrasadas”, declarou.
O candidato também prometeu reduzir o valor das parcelas após a renegociação. Como exemplo, citou prestações de R$ 100 ou R$ 200 que poderiam cair para R$ 20 ou R$ 30.
“E após 1 ano com essa carência é que você vai poder, vai voltar a pagar a sua dívida, só que o seu montante já vai ser bem menor, porque a sua dívida já vai ter reduzida com o Flávio Bolsonaro. A sua parcela que você pagava R$ 100, R$ 200, vai chegar a R$ 20, R$ 30, você vai poder pagar exatamente com os recursos que eu vou garantir a você, que vai ser um financiamento barato e de longo prazo para você reinvestir no seu negócio”, acrescentou.
O presidenciável usou o exemplo de um pequeno mercado para explicar como a medida, segundo ele, ajudaria a movimentar a economia. A ideia apresentada foi que, sem precisar destinar imediatamente parte da renda ao pagamento das dívidas, os consumidores teriam mais dinheiro para comprar mercadorias, enquanto os comerciantes poderiam recompor os estoques.
O senador também afirmou que a taxa de juros cairia rapidamente durante seu eventual governo e que essa redução contribuiria para diminuir o custo das dívidas.
Flávio Bolsonaro prometeu comprar dívidas bancárias por valores menores, suspender cobranças por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas, além de reduzir parcelas. https://t.co/BJQlK7UVcb
— bnewsvideos (@bnewsvideos) October 19, 2026
Entre os comentários nas redes sociais, usuários questionaram se os bancos aceitariam ficar seis meses ou um ano sem receber os pagamentos e quais seriam os valores envolvidos na operação.
Uma das críticas resumiu a dúvida sobre a viabilidade do programa: “Os bancos topariam tomar calote por 6 a 12 meses? Quantos trilhões estão envolvidos?”, questionou um internauta.
A questão envolve o funcionamento da proposta. Como os bancos são os credores originais, a compra das dívidas pelo governo exigiria regras para definir os contratos contemplados, os valores pagos às instituições financeiras e as condições oferecidas aos devedores.
A promessa de reduzir parcelas de R$ 100 ou R$ 200 para R$ 20 ou R$ 30 também gerou questionamentos sobre como essa diminuição seria calculada e financiada. O material apresentado no debate não detalha essas condições.
Outra reação foi uma crítica irônica ao exemplo do mercadinho usado por Flávio para defender a proposta. Internautas questionaram a ideia de que a liberação de recursos para o consumo seria suficiente para resolver o problema dos comerciantes.
As dúvidas sobre os efeitos econômicos da medida, no entanto, não comprovam que ela provocaria necessariamente uma crise bancária ou uma disparada da inflação. A economista Daniella Marques, apontada como a principal porta-voz e coordenadora do plano econômico da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, ainda não se manifestou sobre o assunto desde a declaração do presidenciável.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) possui o Desenrola Brasil, um programa federal criado para facilitar a renegociação de dívidas de famílias brasileiras. A iniciativa prevê descontos de até 90%, juros de até 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses para pessoas que atendam aos critérios estabelecidos.
Em setembro de 2026, Lula também assinou uma medida provisória que criou a terceira fase do programa, o Desenrola Brasil 3.0. A nova etapa prevê que a União compre, por meio de leilões, carteiras de dívidas bancárias e não bancárias elegíveis, repassando aos devedores os descontos obtidos nas operações. A expectativa divulgada pelo governo é de que até R$ 150 bilhões em dívidas possam ser contemplados.
A proposta apresentada por Flávio Bolsonaro também prevê a compra de dívidas pelo governo, mas inclui promessas específicas de seis meses de carência para pessoas físicas e um ano para empresas, além da redução das parcelas para valores entre R$ 20 e R$ 30. Esses prazos e valores foram apresentados pelo senador durante o debate da Band.
A comparação feita nas redes sociais remete ao Plano Collor, lançado em março de 1990 pelo então presidente Fernando Collor de Mello, primeiro chefe do Executivo eleito por voto direto após a ditadura militar.
Na época, o Brasil enfrentava uma inflação muito elevada. Para tentar conter a alta dos preços, o governo anunciou uma série de medidas econômicas que incluíram o bloqueio de valores em contas correntes e cadernetas de poupança acima de 50 mil cruzados novos.
O dinheiro retido ficou indisponível para os titulares durante o período estabelecido pelo plano. A medida tinha como objetivo reduzir a quantidade de moeda em circulação e conter a inflação, mas provocou forte insatisfação entre os brasileiros, que perderam temporariamente o acesso a parte de suas economias.
O pacote também incluiu medidas de controle econômico, como o congelamento de preços e salários, além da abertura comercial e de um programa de privatizações.
O plano não conseguiu controlar a inflação de forma duradoura e foi acompanhado por recessão, desemprego e dificuldades para empresas e famílias.
A expressão usada nas redes sociais faz referência à intervenção estatal sobre compromissos financeiros privados. Os críticos associam a promessa de Flávio de comprar dívidas e suspender cobranças à lembrança do bloqueio de recursos promovido pelo governo Collor.
As propostas, entretanto, têm diferenças. No Plano Collor, o governo bloqueou parte do dinheiro que os próprios brasileiros mantinham em contas bancárias e na poupança. Já a iniciativa anunciada por Flávio prevê a compra de dívidas bancárias pelo governo, acompanhada de períodos de carência e da promessa de redução das parcelas.
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