Economia & Mercado

Vorcaro pagou R$ 1,2 milhão em apartamento comprado pelo presidente da Febraban, aponta colunista

Divulgação e Divulgação
Mensagens extraídas pela Polícia Federal indicam pagamentos ao antigo proprietário de imóvel de Isaac Sidney que não aparecem na escritura de compra e venda  |   Bnews - Divulgação Divulgação e Divulgação
Redação Bnews

por Redação Bnews

redacao@bnews.com.br

Publicado em 15/10/2026, às 06h04 - Atualizado às 06h20



O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, pagou R$ 1,2 milhão ao antigo proprietário de um apartamento comprado por Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) e divulgadas pela colunista Natalia Portinari, do Uol, nesta quinta-feira (15).

Os valores foram transferidos diretamente ao vendedor de um duplex de 410 metros quadrados na Vila Olímpia, em São Paulo, mas não constam na escritura do imóvel, adquirido por R$ 7,3 milhões em novembro de 2020.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Procurado pela reportagem, Sidney afirmou desconhecer os pagamentos e negou ter recebido benefícios em troca de influência junto ao Banco Central (BC). Segundo ele, eventuais valores acertados entre Vorcaro e o antigo proprietário decorreriam de negociações das quais não participou.

Pagamentos foram divididos em três partes

De acordo com a reportagem, os R$ 1,2 milhão foram distribuídos em três pagamentos. O primeiro, de aproximadamente R$ 535 mil, quitou um financiamento que o vendedor mantinha com o Itaú pelo apartamento. O boleto foi pago por Vorcaro em 17 de novembro de 2020.

A segunda parcela, de R$ 534 mil, foi destinada à construtora Yuny como sinal pela compra de outro imóvel pelo vendedor. O comprovante foi enviado pelo ex-banqueiro em 22 de dezembro daquele ano. A terceira transferência, de R$ 131 mil, foi feita diretamente para a conta de Eduardo Barcellos, antigo proprietário do apartamento.

Em uma conversa de novembro de 2020, Barcellos cobrou de Vorcaro um saldo de R$ 665 mil e afirmou que preferia receber antes da assinatura da escritura porque o valor não estava documentado. O documento de compra e venda foi assinado em 27 de novembro e registrou a quitação do financiamento, sem identificar quem havia realizado o pagamento.

Questionado pelo portal, Barcellos disse não se lembrar de ter vendido o imóvel. Ao ser confrontado com os detalhes das mensagens, encerrou a ligação.

Vorcaro também bancou parte do aluguel

As mensagens analisadas pela reportagem indicam que Vorcaro custeou parte significativa do aluguel do apartamento antes da compra por Sidney.

Em fevereiro de 2019, o então banqueiro negociou a locação diretamente com o proprietário. Embora o aluguel solicitado fosse de R$ 50 mil mensais, o contrato formal registrou apenas R$ 15 mil por mês, valor correspondente à parte paga por Sidney. O presidente da Febraban teria antecipado R$ 174 mil referentes ao primeiro ano.

Pelas contas do vendedor, Vorcaro arcaria com a diferença durante 18 meses, além dos impostos. O valor estimado dessa parcela era de R$ 946 mil. Os pagamentos ocorreram entre março e abril de 2019, por meio de transferências e boletos de contas pessoais do proprietário.

Na época, Sidney havia deixado o Banco Central e atuava como advogado para o Banco Máxima, nome anterior do Master. Ele assumiu a vice-presidência da Febraban em maio de 2019 e chegou à presidência em março de 2020.

Em declaração ao UOL, Sidney afirmou que o contrato de aluguel foi firmado antes de sua entrada na entidade e que as despesas com um flat nos primeiros meses em São Paulo foram pagas como honorários advocatícios, sem vantagem indevida.

Compra foi financiada pelo Banco Master

A escritura do duplex, vendido por R$ 7,3 milhões em novembro de 2020, registra que Sidney pagou R$ 1,8 milhão com recursos próprios e financiou os R$ 5,5 milhões restantes junto ao Banco Master.

Segundo a reportagem, o empréstimo foi quitado 13 meses depois, antes do vencimento da primeira parcela, devido ao período de carência de um ano. Sidney declarou ter utilizado ativos para pagar a dívida, que, segundo ele, havia sido cedida a um terceiro. Ele não informou quais ativos foram utilizados.

O presidente da Febraban também afirmou que o valor da negociação e as condições de pagamento correspondem ao que consta na escritura pública e na declaração do Imposto de Renda. Sobre o boleto do Itaú, disse que acompanhou o pagamento porque a quitação do saldo devedor era necessária para que o imóvel pudesse ser dado como garantia em um novo crédito imobiliário.

Mensagens mostram interlocução sobre processos regulatórios

A reportagem também relata conversas entre Vorcaro e Sidney sobre processos envolvendo o Banco Máxima e o Master. Em uma delas, Sidney enviou ao banqueiro um despacho da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) relacionado a um processo que investigava suspeita de operação fraudulenta com debêntures.

Em agosto de 2020, Sidney também encaminhou a Vorcaro um parecer técnico da CVM contrário a um acordo proposto pelo banqueiro e comentou: “Achei duro”.

Em mensagens de 2023, quando o Banco Central preparava mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), Vorcaro reclamou da falta de atenção de Sidney. O presidente da Febraban respondeu que havia saído em defesa do banqueiro em conversas com dirigentes do BC.

“Você nem imagina o que ouvi do presidente do BC e de um diretor, mas saí em sua defesa. Às vezes, o prestígio não é o que se vê, mas o que nem se sabe. Lealdade é o maior prestígio que posso lhe oferecer”, escreveu Sidney.

Em abril de 2024, segundo as mensagens, o ex-ministro Henrique Meirelles procurou Sidney para pedir referências sobre o Master. Sidney relatou a Vorcaro que havia conseguido desfazer ressalvas sobre o banco. O ex-banqueiro também pediu que o presidente da Febraban sugerisse a Meirelles conversar com servidores da supervisão do BC.

Sidney afirmou que as conversas refletiam interlocuções institucionais e que, ao ser procurado por Meirelles, recomendou que ele buscasse a área de fiscalização do Banco Central.

Proposta de delação de Vorcaro foi rejeitada

Na proposta de delação apresentada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro atribuiu a compra do apartamento a uma suposta contrapartida pela influência de Sidney junto ao Banco Central em favor do banqueiro e do Master.

O ex-banqueiro alegou que Sidney teria apoiado a aprovação da mudança de controle acionário do Banco Máxima e aproximado Vorcaro de Paulo Sérgio, em 2019. A proposta de delação foi rejeitada pela PF e pela PGR por falta de provas.

Sidney negou ter recebido qualquer benefício em troca de influência sobre o BC. Ele também afirmou que foi o primeiro dirigente do setor bancário a apoiar a liquidação do Master e que a Febraban havia alertado o Banco Central sobre a concentração de captação garantida pelo FGC.

“Jamais recebi qualquer bem, nem houve transferência para meu nome, a qualquer título, de nenhuma propriedade do ex-controlador do banco”, declarou.

O presidente da entidade também afirmou que só prestou serviços jurídicos ao Banco Máxima após cumprir o período de quarentena e que a transferência do controle da instituição para Vorcaro foi autorizada em outubro de 2019, quase seis meses após sua saída do escritório de advocacia.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)