Educação

Por uma internacionalização ampla da Universidade

Arquivo Pessoal
Bnews - Divulgação Arquivo Pessoal

Publicado em 29/08/2021, às 18h35   Penildon Silva Filho



A Universidade Federal da Bahia realizou no último dia 24 de agosto um debate com a Embaixada do Irã no Brasil com o tema “A segurança no Oriente Médio”. Foi uma realização da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação, do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA. Os nossos convidados foram Dr. Hossein Gharibi, embaixador do Irã no Brasil, que fez uma apresentação inicial sobre o tema, e tivemos como debatedores o professor Daniel Aragão, da UFBA e do programa de pós Graduação em Relações Internacionais, e o professor Júlio César de Sá Rocha, diretor da Faculdade de direito da Universidade. Tivemos uma debate extremamente rico numa iniciativa que terá repercussões com a abertura de intercâmbio e acordos de cooperação da UFBA com universidades iranianas e para a realização de debates sobre diversos temas de Geopolítica, Economia, Meio Ambiente, Política de Segurança, Cultura. Terá início também um curso de língua Persa, expandindo mais ainda a larga trajetória de internacionalização que a Universidade já tem com diversos continentes.

Antes do debate com o embaixador e os dois professores da UFBA, tivemos uma mesa de abertura oficial com professora Maria Hilda Baqueiro Paraíso, diretora de FFCH, representando também o CEAO, que é hoje um órgão complementar dessa Faculdade, professora Elisabete Ramos, Assessora de Assuntos Internacionais representando o Reitor, e contamos com uma saudação gravada do vice governador, João Leão, representando o Governo do Estado. Na fase do debate sobre a Segurança no Oriente Médio, especialmente no Golfo Pérsico, tivemos um tópico de relevância não somente agora com a crise no Afeganistão, mas desde o processo de descolonização das potências europeias e depois da Segunda Guerra Mundial, e de importância não apenas regional, mas global, por ser área sensível pela questão energética e conflitos entre países e seus aliados históricos de fora do Oriente Médio, como Estados Unidos, URSS/Rússia e China.

A abordagem do embaixador Hossein Gharibi foi extremamente pertinente, interessante e atestou que a forma de lidar com a região implementada pelas potências ocidentais com intervenções militares externas, imposição de regimes políticos sem o consentimento e fora da realidade local e a busca desenfreada por recursos naturais se sobrepondo ao bem estar da população geram mais conflitos, mais guerras e impedem o desenvolvimento e o respeito aos Direitos Humanos. O Irã propôs há muito tempo a constituição de um Fórum de Segurança do Golfo Pérsico, cujo princípio é o multilateralismo, que deve substituir o unilateralismo e o hegemonismo de uma nação sobre as outras. Esse Fórum prega a não intervenção militar sob qualquer hipótese e a busca por soluções negociadas assim como deve construir a cooperação econômica, política, cultural e acadêmica para o desenvolvimento em situação de Paz, que é o único caminho para garantir prosperidade e inclusão social. Muitos dos fundamentalismos nessa região e em outras no planeta se devem à imensa exclusão social, à exploração de países e de seus recursos naturais pelas potências ocidentais, às ocupações militares que destroem a Economia e as vidas. 

Alguns aspectos não foram abordados pelo embaixador, até por razões de ordem diplomática que demandam um cuidado maior para construir pontes e diálogos, mas no espaço acadêmico já há uma vasta literatura sobre as consequências nefastas do intervencionismo e imperialismo na Região. Podemos afirmar que o episódio atual do Afeganistão é apenas mais um que comprova a falência da política estadunidense de intervenções militares e de imposição de governos marionetes para dominar amplas regiões do Globo. As dificuldades dessa região repousam em outros episódios também, como por exemplo no estímulo que os Estados Unidos e outros países, como Inglaterra e França, tiveram para destruir Estados Nacionais, como foi o caso da Líbia em 2011, que se tornou um território conflituoso e hostil disputado por grupos terroristas. A tentativa de derrubar o governo sírio com o financiamento do próprio Estado Islâmico pelos países ocidentais contra Bashar Al-Assad a partir de 2013 e a invasão do Iraque e do Afeganistão com a ocupação que levou décadas provocou um esgotamento do espaço da política para resolver os problemas e o fortalecimento da guerra/guerrilhas.

Essa história de intervencionismos é antiga, é importante lembramos que no Irã foi constituído um governo popular que nacionalizou as reservas e empresas de petróleo ocidentais, sob a liderança de Mohammed Mossadegh, primeiro ministro entre 1951 e 1953, mas o mesmo sofreu um golpe de Estado dos Estados Unidos pela sua agência de inteligência, a CIA, e por influência da Grã-Bretanha, fato hoje bastante documentado oficialmente pelo próprio governo estadunidense. Operação igual ocorreu na nascente nação independente do Zaire/Congo em 1960, que depois se tornaria a República Democrática do Congo, uma das regiões mais ricas no mundo em minerais importantes para a alta tecnologia contemporânea, quando o herói da independência, Patrice Lumunda, que liderou todo o processo de libertação, sofreu também um golpe de Estado abertamente apoiado pela CIA com o objetivo de devolver o controle dos recursos minerais do Congo para as empresas belgas, francesas, americanas, inglesas e outras. Lumunda foi preso e morto por forças da CIA e da Bélgica em 1961.

A Universidade brasileira já é bastante internacionalizada e reconhecida mundialmente, com uma produção científica crescente e respeitada, que pode ser avaliada e atestada por índices validados internacionalmente, como pelo “Web of Science”, que pontua os artigos científicos publicados em revistas de renome e prestígio internacionais. Dialogamos sem preconceito ou barreiras ideológicas com todos os países, pois a Universidade deve ser o espaço da pluralidade e o projeto da Ciência não tem nacionalidades, ele precisa ser um esforço conjunto de toda a humanidade. A aproximação com universidades iranianas é mais um passo no sentido da ampliação dessa internacionalização, que deve se estender para a África, o Médio Oriente e o Oriente, e dessa forma contribuiremos no plano da Cultura e da Ciência para uma sociedade mais pacífica, próspera e sustentável ambientalmente. 

No mês de maio de 2021 a UFBA teve outra iniciativa nessa mesma direção, quando realizamos o “Ciclo de debates: a Educação na China e no Brasil no século XXI”, promoção da Universidade Federal da Bahia, da Renmin University, da Beijing International Studies University e da USP - Universidade de São Paulo por meio do IEA - Instituto de Estudos Avançados - Cátedra de Educação Básica,  e com o apoio do Governo da Bahia, do Instituto Confúcio e do Programa PROFICI da UFBA, que garantiu a tradução dos textos do seminário. O objetivo foi de promover um ciclo de debates sobre as experiências educacionais chinesa e brasileira, com duas partes, uma referente à Educação Básica, e outra à Educação Superior. Criou-se assim um espaço de encontro para pesquisadores e professores; para integrar grupos de pesquisa e centros universitários num esforço para comparar as experiências e analisar alternativas exitosas, promovendo novos encontros, difundindo os debates na comunidade acadêmica e publicando textos acadêmicos sobre a temática.

Não se justifica que essa região do globo, Médio Oriente e Oriente, que se desenvolve rapidamente e já é o maior e mais dinâmico polo econômico no mundo, não tenha um diálogo tão grande com o Brasil quanto temos com os Estados Unidos e a Europa. O projeto de Universidade por natureza é internacionalista. Embora ele deva estar ligado a um projeto nacional de desenvolvimento econômico, social, cultural, científico e tecnológico, isso não significa que é um projeto nacionalista. A Universidade é das principais instituições que pode cimentar um futuro mais cooperativo, pacífico e sustentável para a humanidade. A Ciência, a liberdade em pesquisa e estudar, os estudos em Humanidades e Artes e o intercâmbio entre diferentes culturas e realidades sociais são vacinas contra fundamentalismos, intolerâncias, violências, preconceitos e imperialismos, inclusive epistemológicos e culturais. 

Esses dois eventos podem ser assistidos no canal da Prograd UFBA no youtube. O Ciclo de Debates com a China pode ser assistido pelo link: http://www.educacaochinaebrasil.ufba.br/modulos/gerenciamentodeconteudo/docs/575_programacao_ptbr.pdf  . E o debate com o Irã está no link: https://www.youtube.com/watch?v=Ne8_jt4yoDU 

Professor da UFBA e doutor em educação

Classificação Indicativa: Livre

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