Educação
Publicado em 15/10/2026, às 09h10 - Atualizado às 11h11 Gabriel Dinis
No Dia do Professor, celebrado nesta quinta-feira (15), os desafios enfrentados por educadores da Bahia vão além da sala de aula. Sobrecarga de trabalho, desgaste emocional, falta de estrutura e conflitos com alunos e familiares estão entre os problemas relatados por representantes da categoria nas redes pública e privada.
Em entrevistas ao BNEWS, educadores apontaram diferenças entre as dificuldades de cada rede, mas destacaram uma preocupação comum: as condições de trabalho e seus impactos na saúde mental dos profissionais.
De um lado do muro educacional, temos a educação pública, onde o desafio pedagógico é indissociável da vulnerabilidade social. Para Déborah Irineu, professora da rede estadual e diretora de Imprensa do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB), rotular uma turma como “difícil” exige, antes de tudo, compreender quem são esses estudantes e o que trazem na bagagem antes de passarem pela porta do colégio.
“Muitas vezes, essa classificação recai sobre estudantes que enfrentam condições sociais extremamente adversas. A dificuldade em sala é a materialização de problemas para além do muro da escola: violência no entorno, insegurança alimentar, inserção precoce no trabalho para ajudar na renda da família e ausência de políticas públicas. Então é óbvio que tudo isso atravessa, chega na sala de aula e acaba interferindo diretamente no processo de ensino e aprendizagem”, pontua Déborah.
Segundo a educadora, a violência em que o jovem está inserido compromete diretamente a frequência escolar e a segurança da comunidade, gerando defasagens graves de leitura, escrita e atenção. No entanto, ela combate a ideia de que a escola deva funcionar como um escudo para todas as falhas do Estado.
“Existe uma tendência de atribuir ao professor a responsabilidade de resolver problemas que ultrapassam nossas atribuições. Não somos da tese de que a educação salva a humanidade sozinha. A educação acolhe, mas não substitui saúde, segurança pública, assistência social e geração de emprego”, ressalta.
Para Rui Oliveira, professor e coordenador-geral do APLB-Sindicato, a crise nas salas de aula combina infraestrutura precária e desvalorização profissional. Além de problemas como superlotação, altas temperaturas e falta de suporte pedagógico para atender alunos com deficiência (PcDs), ele chama a atenção para a instabilidade dos vínculos de trabalho:
“O que torna uma turma difícil são as péssimas condições de trabalho: falta de estrutura, calor frequente nas salas e a tensão gerada por esse contexto. Para completar, mais de 50% dos professores das redes públicas no Brasil hoje são terceirizados, o que compromete a carreira do professor e a qualidade do ensino”, denuncia Rui.
Do outro lado do muro educacional, a rede privada revela uma realidade em que os problemas não são de estrutura, mas de relações humanas. Nesses espaços, alunos e famílias frequentemente se posicionam como clientes, enquanto o professor é reduzido à condição de mero prestador de serviços.
Nas escolas da rede privada da capital baiana, o perfil das “turmas difíceis” ganha outro contexto, mas a consequência continua recaindo sobre a saúde mental dos docentes. Diretora da Secretaria Jurídica do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia e representante oficial do Sinpro-BA, a professora Anna Cristina Pinto Croesy afirma que a maior barreira hoje é a apatia e a inversão de papéis guiada pelo dinheiro.
“Hoje, considero difícil a turma apática, que fica em silêncio e ignora a presença do professor sob a lógica do cliente: ‘eu pago, então eu posso tudo’. Já ouvi de aluno em sala: ‘Não vou fazer e não me mande fazer, porque quem paga o seu salário sou eu’”, relata a professora.
Além da postura em sala, a pressão se estende para fora da jornada contratada. Com a digitalização das rotinas escolares, o trabalho invisível explodiu: “O professor tem que alimentar plataformas em tempo real, responder mensagens e preparar tarefas em casa, no seu tempo de descanso, sem receber absolutamente nada por isso”, diz.
Conforme a educadora, um dos pontos centrais para entender o avanço de todos esses problemas é a transformação de escolas em negócios geridos por grandes fundos de investimento, inclusive com capital estrangeiro. Essa mudança alterou drasticamente a dinâmica pedagógica: o ensino virou produto, e as famílias passaram a vigiar conteúdos e cobrar notas como consumidoras exigentes.
“Muitos donos de escola sequer são educadores; são empresários do capital. Algumas instituições chegam a colocar os alunos para avaliar a dicção e o desempenho dos professores em enquetes institucionais. O slogan que usamos no sindicato é urgente: educação não é mercadoria”, conclui.
O resultado desses diversos tipos de abuso contra o professor é uma onda de adoecimento coletivo. Diante do volume alarmante de queixas e denúncias de assédio que chegam diariamente ao sindicato, o Sinpro-BA apoia a pesquisa “Saúde Mental e Condições de Trabalho Docente na Rede Particular de Ensino da Bahia”. A iniciativa nasce justamente da necessidade de mapear com dados científicos a extensão do impacto do trabalho na saúde mental dos docentes na rede privada baiana, onde se multiplicam os casos de síndrome de burnout, crises de pânico e depressão.
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Anna Cristina relata que o assédio moral atinge desde a educação infantil até o ensino médio:
“Temos recebido denúncias de professores expostos em reuniões de coordenação e até mesmo em grupos de WhatsApp. Nós temos relatos de que essa exposição vem adoecendo esses professores. Na educação infantil, o assédio parte muitas vezes dos próprios pais, familiares ou pessoas que tomam conta das crianças. E, no caso dos alunos maiores, o assédio também vem dos pais, mas vem também dos próprios colegas de trabalho, que são coordenadores e orientadores.”
Na educação privada, o diagnóstico do esgotamento docente passa pelo assédio moral, pelas jornadas duplas e pelo distanciamento da gestão. A expansão de grupos internacionais nas escolas baianas trouxe gestores desconexos da realidade educacional, aprofundando a falta de sensibilidade com a categoria, tudo isso alimenta o sentimento diário de desvalorização.
As razões para continuar
Apesar dos graves relatos, o que mantém profissionais com décadas de lousa dentro da sala de aula? Longe de aceitarem a romantização de que os professores devem se sacrificar pelo amor ao que fazem, os educadores apontam para a convicção política e para a transformação nas relações humanas.
“O compromisso e a paixão que temos não podem servir de justificativa para precarizar o nosso trabalho. A gente não trabalha por amor, a gente trabalha porque acredita na educação pública e luta para que ensinar não dependa de sacrifício individual”, pontua Déborah.
Para a professora de Geografia, a maior vitória ocorre no detalhe do cotidiano: “O que faz valer a pena é quando o aluno de escola pública entende a cidade dele. Quando ele olha a ocupação de Salvador, a Cidade Alta, a Cidade Baixa, e diz: ‘Professora, agora eu entendo o meu lugar no mundo’. É disputar o direito dos filhos da classe trabalhadora a terem acesso à ciência e à cultura que pertencem a todos.”
No Colégio Central, Rui evoca o patrono da educação brasileira para justificar sua permanência após um quarto de século lecionando:
“Como dizia Paulo Freire, se existe uma profissão que não pode perder a esperança é a de educador. É conjugar o verbo esperançar. É gratificante encontrar ex-alunos que saíram da escola pública, entraram nas federais, viraram mestres, doutores e hoje têm uma vida digna. Garantir que o jovem preto e periférico sente nos bancos das universidades junto àqueles que sempre dominaram a elite do país é a nossa vitória diária.”
Então, para além das celebrações institucionais de 15 de outubro, as reivindicações da categoria cobram medidas concretas de gestão e respeito à saúde mental. Nada disso será alcançado enquanto a sociedade se pautar em discursos que romantizam o sacrifício do docente ou em frases prontas de que o “país só muda pela educação”. O avanço precisa sair do campo abstrato e se traduzir em ações concretas.
“Valorizar o professor não é apenas publicar uma homenagem no 15 de outubro nas redes sociais”, resume a professora Déborah. “É garantir condições materiais concretas para que a gente possa exercer, com dignidade e saúde, a nossa função social de ensinar.”
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