Entretenimento
Quem viveu sabe: eram noites de shows lotados, CDs piratas na mochila, roupas suadas de tanto dançar, regadas a vinho de safra ruim ou bebidas de procedência duvidosa — e, quase sempre, com cheiro de cigarro no ar. Antes da Lei Antifumo, sancionada em 2011, fumar em bares, boates e locais fechados era comum e fazia parte da paisagem.
O ar carregado de fumaça era quase um personagem das madrugadas embaladas por música.
Na Salvador dos anos 1990 e 2000, a cidade pulsava com uma cena musical diversa e potente. O pagode dominava os paredões dos bairros periféricos e ganhava os palcos do país. Ao mesmo tempo, o rock alternativo baiano resistia com criatividade e atitude, marcando território em festivais e bares underground.
De um lado, os versos irreverentes de bandas como Gera Samba — que mais tarde se tornaria o icônico É o Tchan! —, Marrom Society, Swing do P, Os Sungas, Nossa Juventude, Companhia do Pagode e Selakuatro. Era de lei passar no Mamagaya para curtir a quebradeira e tomar uma gelada na orla da cidade.
Ver essa foto no Instagram
Do outro, a distorção e o grito de grupos como Superfly, Inkoma, Brincando de Deus e Dr. Cascadura. Muitas dessas bandas não existem mais — mas permanecem vivas na memória de quem fez parte da cena.
“Ficava na rua até de madrugada”
O músico David Acciole, de 49 anos, revive com clareza as noites que pareciam não ter fim:
“Ia nos shows das bandas, me divertia. Ficava na rua até de madrugada, voltava pra casa de manhã, não tinha Uber”, lembra ele, citando grupos que marcaram sua juventude como Lisergia, Dois Sapos e Meio, Brincando de Deus, The Dead Billies, Inkoma, Injúria, Saci Tric e Dr. Cascadura.
Essas bandas agitavam espaços lendários da cena alternativa, como o Rock in Rio Café, o antigo Idearium, o Dubliners e festivais como o Palco do Rock. Quando o show acabava, a noite continuava: muita gente terminava a farra no Karaokê da Lapa, cantando Legião Urbana no grito, ou no Bond Canto, no Rio Vermelho, onde se reuniam músicos e boêmios de todas as tribos.
“Lamento ter perdido as fotos no Orkut”
Hoje cristã e com uma rotina diferente, Lua Macedo relembra a adolescência marcada pelo pagode:
“Pagod’art, LevaNóiz, Guig Guetho, Oz Bambaz, Saiddy Bamba, Fantasmão, Swing do P, Black Style, A Bronkka, Selakuatro, Uns Kamaradas...”, lista, recordando os eventos no Shopping Ponto Alto, na Avenida São Rafael, onde o pagodão dominava os fins de semana. São memórias de uma juventude intensa, antes da fé cristã mudar sua caminhada pessoal.
Por onde andam essas bandas?
A Inkoma, precursora do hardcore baiano, revelou Pitty, uma das maiores roqueiras do Brasil. A banda encerrou suas atividades no início dos anos 2000, e Pitty partiu para uma carreira solo de sucesso nacional. Antes de estourar no país, ela apareceu na MTV em 1998 ao lado da banda.
Ver essa foto no Instagram
Já a Cascadura lançou álbuns aclamados e se despediu em 2015. O vocalista Fábio Cascadura hoje vive no Canadá.
Outros nomes do rock alternativo, como Brincando de Deus, Dois Sapos e Meio, Lisergia, The Dead Billies, Injúria e Saci Tric, desapareceram ao longo dos anos, vítimas da escassez de investimentos, da falta de espaços e das mudanças nas prioridades dos integrantes.
No pagode, o sumiço também pegou fãs de surpresa. Algumas bandas que estouraram hits tiveram vida curta. Outras, como Nossa Juventude — famosa pelo sucesso “Dig Dig Lambe Lambe”, que embalava festas nos bairros do Pau Miúdo e Uruguai — ainda existem, mas não estão tão em evidência como antes. Consegue puxar da memória o grito marcante de Lu Costa, berrando aquele “Pepiiiiiiiiii!” que contagiava a galera?
A LevaNóiz também segue na ativa, mas longe do alcance nacional que teve em 2011 com “Liga da Justiça”.
As raízes dos grandes nomes do pagode baiano
Antes de se tornarem estrelas nacionais, muitos artistas nasceram em bandas locais — verdadeiros celeiros de talento. Rubynho, por exemplo, despontou à frente da banda Oz Bambaz. Flavinho, vocalista do Pagod’art, foi fundamental para a consolidação do pagode nas comunidades populares. Leo Santana começou no vocal do Parangolé e logo conquistou o país, até seguir carreira solo e se tornar uma das maiores estrelas do ritmo.
O fenômeno É o Tchan! surgiu a partir da banda Gera Samba e conquistou o Brasil com coreografias e músicas que atravessaram gerações. O Psirico, liderado por Márcio Victor, nasceu nas ruas do Engenho Velho de Brotas e arrastou multidões com um pagode cheio de swing e identidade. Igor Kannário começou a carreira na A Bronkka. Tony Salles começou no grupo 'Balangandã' em 1996. E a cena segue forte com bandas como a Harmonia do Samba, liderada por Xanddy.
“Era resenha, virou arquivo histórico”
Para o músico e comunicador Bobby, criador do Pagodão Cast, a cena deixou raízes fortes — e merecia mais reconhecimento.
“O podcast surgiu como uma resenha com a galera do pagodão. Mas a gente percebeu que estava fazendo algo importante. Era um registro bem-humorado da história de bandas que não alcançaram sucesso nacional, mas foram fundamentais e são reverenciadas por quem conhece”, contou ao BNews.
Bobby destaca nomes esquecidos pelo tempo, como Delíriu’s do Samba, Miskuta, Supersamba, Akidasamba, Seduzir e Chacoalha. Diz que, se dependesse dele, “todo mundo das coletâneas Bahia Mania de Pagode e EDSamba estaria no currículo das novas gerações”.
Ver essa foto no Instagram
“O pagodão foi injustiçado, sim”
Bobby também aponta desigualdades na forma como o pagode baiano foi tratado em comparação com o axé: “Se falarmos da diferença de tratamento entre as bandas de pagode e as de axé, aí sim dá pra dizer que houve injustiça. O ritmo mais popular da Bahia há anos é o pagodão — mas qual virou campanha? Qual ganhou aniversário? Em breve vou divulgar o ano oficial do surgimento do pagodão, estou pesquisando.”
Segundo ele, o que fez o pagode baiano ser único no Brasil foram três pilares: “Dança, bom humor e sensualidade. Costumo dizer que esses são os pilares do pagodão, pelo menos é o que eu acredito. Agora imagine quem ligou a TV e viu, pela primeira vez, do nada, brotar em cena dois caras sorridentes, um falando TU TU TU TU PÁÁ, enquanto um trio formado por um homem e duas mulheres, usando roupas coladas, dançava freneticamente, rindo muito ao som que dizia SEGURE O TCHAN, AMARRE O TCHAN… É contagiante.”
“Teria que ser um festival (risos)”
Se pudesse montar o line-up dos sonhos com bandas daquela época, ele não tem dúvidas: “Anos 90/2000 — Teria que ser um festival (risos), mas vamos lá: É o Tchan, Companhia do Pagode, Gang do Samba, Patrulha do Samba, Harmonia, Selakuatro, Saiddy Bamba, Delíriu’s do Samba, Pagod’art e Nossa Juventude.”
Mais do que música, era estilo de vida
Os shows eram encontros de tribos. De dançarinos de paredão com camisa colorida a roqueiros de preto e coturno, todos tinham seus palcos preferidos. A juventude lotava as ruas, as festas de bairro e os portões de clubes. Quando acabava a energia do trio ou a distorção do último acorde, era hora de cantar no karaokê da Lapa, matar a larica com um acarajé ou dogão na saída do Bond Canto, ou pegar o primeiro ônibus da manhã.
O que fica é o legado: letras que ainda tocam o fundo do peito, álbuns esquecidos que viraram relíquias e histórias que a nova geração talvez nunca entenda — mas que quem viveu guarda como um tesouro. Porque, quando a música é feita com verdade, ela não desaparece. Só muda de lugar — e continua tocando dentro da gente.
Classificação Indicativa: Livre
Qualidade Stanley
Limpeza inteligente
Baita desconto
Cupom de lançamento
Imperdível