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Ex-chefe da Globo abre ‘caixa-preta’ após pedir demissão e expõe bastidores “perversos” do canal

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O profissional foi promovido na Globo após 15 anos e pediu demissão meses depois  |   Bnews - Divulgação Divulgação
Andreza Oliveira

por Andreza Oliveira

Publicado em 23/03/2026, às 23h12



Fabricio Marta, que foi promovido à Chefia de Produção de Rede da Globo no começo deste ano, decidiu se demitir do canal carioca. Depois de ter sofrido dois infartos, o comunicador afirmou que não concordava com os rumos da emissora e ainda expôs bastidores da TV. 


Nas redes sociais, Marta compartilhou coisas erradas que presenciou e escancarou o que considerou ‘perversidade’, como o corte de horas extras, e já definiu que sua antiga empregadora está indo "ladeira abaixo".


De acordo como TV POP, em sua primeira publicação, que foi feita no últimos dia 12, ele relembrou os infartos e a decisão de deixar a emissora.  "Foram dois infartos: um sem cura e outro tratável, ao sabor da resiliência. A fisio[terapia] cardíaca começará em três meses. Por enquanto, estamos tentando liquidar os trombos na área necrosada do coração", começou ele. "Tudo se deu às vésperas do Carnaval, na Redação do Jornal Nacional. Foram duas semanas de CTI e um turbilhão de pensamentos de gente que não morre”, disse. 


 "O pedido [de demissão] foi feito aos meus chefes (por WhatsApp) ainda no hospital e não está atrelado aos infartos, mas a conjunturas internas que não ornavam mais com quem eu sou. Minha missão, na Globo, foi encerrada por escolhas mal dimensionadas. Pra mim, com ou sem stents, sempre valeu o escrito. Não sou moleque e muito menos signatário de atitudes incoerentes", declarou. 


O jornalista ainda deixou claro que a promoção não foi tão agradável. “Eu não curti o que me foi proposto (sem sequer ser consultado!) e catei meus panos de bunda. Os que já trabalharam e/ou conviveram comigo profissionalmente sabem quem sou: movimento, seriedade, lealdade, verdade e alegria. São semeaduras de vida inteira. E ninguém, além de mim, tem o direito de abraçar a minha colheita. Agora, burro velho não harmonizado não dá pra mudar o rumo da prosa.", disparou. 


"A proposta-mor, digamos assim, me deixou completamente atarantado: retornar a uma função realizada por mim 15 anos atrás. Repito: 15 anos atrás. Logo eu que durmo um (quando durmo) e acordo outro (mesmo sem dormir). Não nasci pra ser secretário de luxo e tampouco figurante da minha própria vida. Sou filho do vento: só ando pra frente", contou. 


Dias depois, ele revelou a burocracia e os problemas de quem trabalha no maior canal do país. "Menos 10 grupos de trabalho no WhatsApp; menos centenas de e-mails no Outlook; menos dezenas de reuniões improdutivas (por ausência absoluta de cognição alheia); menos sustos por falta de comunicação; menos mau humor de gente amarga; menos de dezenas de ligações nonsense; menos energia de gente incompetente; menos 'bom dia, 'boa tarde' e 'boa noite' cuspidos no lixo; zero fogueiras de egos e vaidades. Menos muitos plantões antecipados", listou.


Na última quinta-feira (19), ele revelou que tem respondido aos amigos quando questionam que deixar a Globo foi sua melhor decisão. Além disso, ele aproveitou a oportunidade para se aprofundar da  "fogueira de egos" citada anteriormente. "Esse meu amigo está de férias e, talvez, fique put* com essa postagem, mas ele é o somatório da minha desesperança naquele lugar. Vou dizer o nome, qualquer coisa me processa. Helton Setta, produtor do Jornal Nacional: 25 anos de Globo", começou. 


"Você já ouviu falar na polilalamina? Pois então, Setta acompanhou essa pesquisa por sete anos. O Fantástico exibiria uma reportagem especial sem sequer creditá-lo. O espanto partiu da fabulosa doutora Tatiana Medeiros. O tema ganhou notoriedade na imprensa mundial, mas as chefias do Jornalismo Globo foram incapazes de redigir um e-mail, que fosse, celebrando o colega.", mencionou. 


"Setta fala inglês, espanhol, alemão e italiano. Nunca fora convidado para qualquer função nos escritórios internacionais da Globo e, agora, a cereja: está há 10 anos sem uma promoção. Repetindo: 10 anos. Eu, como chefe de produção, jamais assinaria esse recibo", disparou o agora ex-global. 


"Ah, sabe por que o Setta não vai embora? Porque ama o que faz. Eu também amava, tenho filho, pago aluguel, mas não trabalho com injustiças. Saí por essas e outras e quantas vezes fosse preciso. Há outros muitos Settas no estoque. Daí vem a Globo e publica anúncio pra caçar talentos fora. Suco de abismo", alfinetou. 


Em outro post, o ex-chefe de produção lamentou o fim do ‘Estagiar’, projeto que fez muitos jovens talentos darem seus primeiros passos nos bastidores da TV. "Roberto Marinho ainda não havia criado a Globo, mas já estava lá o Projeto Estagiar. Um programa exclusivamente dedicado a garimpar estudantes de diferentes nichos. No Jornalismo, não havia perfumaria: entravam os que tinham parafusos soltos e sangue na boca. Quanta gente fabulosa avançou na firma, ocupando cargos de chefia, via Estagiar", lembrou.


"Agora (por mim é agora, porque fora informado pouco antes de pedir demissão), a Globo fechou uma parceria com a PUC/RJ, em busca de novos estagiários: 100 pessoas entraram nessa primeira leva. São pessoas afáveis, dedicadas, comuns. Mas o questionamento é: a PUC não trará o rapaz do Quitungo; a mocinha de Rocha Miranda; o carinha de Realengo; o cria da Maré. O Estagiar cansou de pescar estagiários na PUC, porque eram tão maravilhosos quanto os cotistas da Uerj, UFRJ, UFF, UFRRJ e por aí vai. Os tempos mudam, mas não há nota em pingo d'água", disparou ironizando a inclusão. 


Já no sábado (21), Marta fez mais um desabafo intenso. “A retroescavadeira cotidiana quase banalizava missões às quais não tinham nada ver com meu trabalho. Um dos 'pedidos' mais perversos data do fim do ano passado, quando 'fui convidado' a convocar produtores que ganhavam horas extras e avisá-los sobre o corte, no facão, já no mês corrente", relatou. 


"Esse mal ajambrado foi lavrado e validado pela antiga direção regional de Jornalismo, mas coube a mim (o então secretário de luxo) anunciar a nova condição salarial da garotada. Um produtor tinha 5 horas extras/dia --apalavradas de boca--, o menino quase passou mal ao saber do corte: ele estava pagando a faculdade da mãe. A mim, me coube aquietá-lo, mas também incentivá-lo a alternativas profissionais e dignas", contou.


"Deixar a Globo é deixar um sistema adoecido pela falta de sensibilidade e nutrido pela malandragem! Por que não houve um comunicado oficial? Por que cada caso não fora avaliado, individualmente?", questionou antes de completar: "A mesquinharia de um ambiente mofado de sobrevivência ao trabalho se dá pela pobreza de espírito que o cerca."


O ex-chefe de produção ainda contou que a direção não tomava iniciativa para ajudar os jornalistas que pretendiam disputar prêmios reconhecidos, por mais que divulgassem suas vitórias com orgulho no Jornal Nacional. "É tanta ladeira abaixo na Globo que, vez ou outra, sou visitado por pesadelos que, felizmente, já não me pertencem.", disse. 


"Além de não incentivar, a Globo não custeia mais a participação de jovens produtores no Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji. A cada edição vindoura, rosários e mais rosários eram desfiados diante na minha ex-mesa: o chefe de redação que não podia nada pelos 23 produtores. Não conseguíamos passagens de ônibus; aérea (risos); hospedagem também não. Os que conseguissem se bancar, no estilo Largados e Pelados, ganhavam um vale-podrão e um Uber, acho", revelou. "Estamos falando do terceiro conglomerado de comunicação do planeta. Cafonice define.", acrescentou. 


Na sequência, ele fez uma crítica a ausência de acolhimento e bom senso de quem se sujeita à burocracia. "Estava eu, no CTI, com eletrodos enfiados até no 'hubble', quando pisca uma mensagem da firma, no WhatsApp. Era a mocinha do Departamento de Cuidados à Pessoa da Globo, que, muito gentilmente, pediu que eu anexasse meu atestado médico ao sistema da empresa: lá mesmo do hospital. Expliquei que ainda não havia previsão de alta, mas a moça insistia. E não era inteligência artificial."


"Pensa: você, recém-infartado, com acesso pra aplicação de contraste num braço, outro acesso pra coleta de sangue no outro... Sem dormir... Porque não se dorme num CTI coronariano, sem saber se vai morrer e deixar um filho com 17 anos, e a cidadã em busca de algo que eu não poderia montar nem com Lego. Fascinante esse modelo de acolhimento", ironizou.


"Daí eu perguntei se ela agiria com a mesma afobação com a Renata Vasconcellos, William Bonner, Pedro Bassan, Flávio Fachel... Resposta: o modelo contratual deles é PJ, difere do seu. Tudo muito subjetivo", apontou ele, apontando o modelo em colapso. "Deixem cinco litros de combustível reservados pro COP fazer as imagens dos escombros. Falta pouco!", escreveu. 


Nesta segunda (23) Fabricio e outros profissionais que deixaram a Globo criticaram a arte que foi exibida pela GloboNews no estúdio i que tentou associar Luiz Inácio Lula da Silva e o PT a Daniel Vorcaro e ao Banco Master. "Contrato profissionais de PowerPoint da GloboNews para fazer meus cartões de visita. Aqui em casa já tem barbante colorido, tesoura, cartolina colorida, cola branca, hidrocor e giz de cera. Preciso mesmo é do know-how. Vai ter lanche, se a direção aprovar!", postou. 

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