Entrevista

Otto Alencar: "Não vejo motivo para a prisão dos filhos de Bolsonaro"

Imagem Otto Alencar: "Não vejo motivo para a prisão dos filhos de Bolsonaro"

Senador baiano recebeu equipe do BNews em Brasília onde falou sobre diversos assuntos

Publicado em 20/09/2021, às 17h02        Victor Pinto, direto de Brasília

O senador Otto Alencar (PSD) tem se destacado na CPI da Covid por posicionamentos incisivos junto aos depoentes. Toda a projeção conquistada no colegiado lhe rendeu grande espaço na imprensa nacional, colocando-o como uma das principais vozes de oposição ao presidente Jair Bolsonaro. O baiano, contudo, é ponderado ao ventilar a hipótese de uma troca de governo no meio do mandato.

"Eu torço pelo Brasil. Acho que o presidente ficaria em uma posição bem melhor se ele diminuísse esse estado de beligerância que ele quis colocar dentro do país, com uma luta de brasileiros uns contra os outros - alegando que defende uma posição conservadora. Você pode ser conservador, mas não precisa brigar, xingar, fazer fake news, estimular as pessoas para agirem contra as instituições, contra o STF e outros órgãos. E abalar a República, como ele abalou. Se ele ficar em silêncio, ele vai fazer um grande benefício para a nação", opinou, em entrevista exclusiva ao BNews no gabinete dele, em Brasília.

O pessedista também é cético ao comentar sobre os supostos crimes atribuídos aos filhos do presidente. "Pelo que eu conheço, tenho visto com muita acuidade, não vejo nenhum motivo para a prisão de nenhum filho do presidente. Nem o Renan, nem o Eduardo, nem o Carlos e nem o Flávio Bolsonaro. Não vejo motivo para a prisão de nenhum deles. Muito menos do presidente. Mas, as pessoas mais acirradas, mais oposicionistas, falam isso. Coisa que eu nunca falei. Tenho cuidado de saber que um juiz, e eu não sou juiz, julga o que está nos autos do processo", diz, cauteloso.

Na entrevista, Otto discorre sobre diversos assuntos - incluindo a política local. Cotado para ser candidato ao Governo do Estado em 2022, o senador afirma que ainda é cedo para fazer qualquer tipo de projeção para o próximo ano. "Não tenho preocupação com isso. Não me causa preocupação. Não tenho ansiedade. Por mais que a situação seja difícil na minha vida, por onde passei, nunca tive ansiedade pelo que vou ser. Até porque, cheguei em um lugar bem mais distande de onde esperava", avalia.

Leia a entrevista na íntegra:

BNews - Qual é a sua avaliação na reta final da CPI da Pandemia? Ela cumpriu o papel? 

Otto Alencar - A CPI vai mostrar ao Brasil todos os crimes sanitários que aconteceram por parte de elementos que não eram profissionais de saúde e, por parte também, da negligência de alguns outros profissionais que optaram pelo tratamento precoce de uma doença desconhecida. E que não se resolve com hidroxicloroquina e muito menos com azitromicina. Está comprovado isso. Muitos pacientes utilizaram esse tratamento e foram a óbito. A grande farsa que foi feita com essa doença é que é uma doença em que 95% dos pacientes são assintomáticos, leves ou moderados. E só 5% vai para a forma grave, com pneumonia virótica, com insuficiência respiratória e que precisa de suplemento de oxigênio, antinflamatório e anticoagulante. Se você tem uma doença de 95% com bons resultados, sem tratamento, fizeram esse TrateCov que levou a óbito quase 600 mil pessoas no Brasil. E até banalizando a vida e não se sensibilizando com a morte. Esse é o grande problema. Vai de encontro ao Código Penal, Artigo 268, que pune com rigor. Os juristas que estão nos dando apoio nos listam sete crimes. São crimes de responsabilidade, contra a vida, contra a humanidade... Nós vamos aprovar e levar esse relatório para o Ministério Público Federal, para a Câmara dos Deputados e para a Corte de Haia. Será uma denúncia internacional o que aconteceu no Brasil.

BNews - Sobre os atos tidos como antidemocráticos do presidente Jair Bolsonaro, a gente viu uma radicalizada que ele fez nestes atos do dia 7. Depois, chamou Michel Temer para fazer uma carta. Para o senhor, essa carta amansou qualquer tipo de clima para impeachment?

Otto Alencar - Eu torço pelo Brasil. Acho que o presidente ficaria em uma posição bem melhor se ele diminuísse esse estado de beligerância que ele quis colocar dentro do país, com uma luta de brasileiros uns contra os outros - alegando que defende uma posição conservadora. Você pode ser conservador, mas não precisa brigar, xingar, fazer fake news, estimular as pessoas para agirem contra as instituições, contra o STF e outros órgãos. E abalar a República, como ele abalou. Se ele ficar em silêncio, ele vai fazer um grande benefício para a nação, trabalhando mais e executando mais. Ele tem condição de fazer isso. Tem alguns ministros que têm correspondido e tem ajudado. Sou um crítico do ministro Paulo Guedes, a economia vai mal. Mas têm outros que tem se esforçado. O próprio Ministro das Minas e Energia [Bento Albuquerque] e o da Infraestrutura [Tarcísio Freitas] são bons ministros. Eles têm trabalhado e procurado fazer as coisas com poucos recursos. Outros foram demitidos por ele mesmo. O presidente Bolsonaro nomeou e já demitiu 19 ministros. Só na Educação e na Saúde foram oito. Foram pessoas desqualificadas que ele nomeou. Digo sempre que ele, em silêncio, vai ajudar muito o Brasil e ele mesmo. Até porque, o silêncio não é julgado. Se ele calar, melhora bastante. Torço para que ele melhore. Não sou daqueles que quer que ele leve o Brasil para uma situação pior do que está hoje, porque sou adversário dele. Prefiro bater o tema com um adversário capaz, forte. A política é para isso, para debater. Com ele melhorando, melhora a vida do povo brasileiro.

BNews - Sobre a Reforma Eleitoral, o relatório da senadora Simone Tebet já foi apresentado e ela enterrou as coligações - algo que já era esperado. No Senado, o senhor acredita que já há um clima para a retomada das coligações? É algo que está gerando tensão entre os deputados da base...

Otto Alencar - Essa matéria deve ir ao Plenário para votação. Embora seja favorável, não vejo votos para aprová-la. São necessários 41 votos, que é a maioria absoluta. Acho difícil, mas pode ter surpresa também se for ao Plenário. O que deve passar aqui é o fim das sobras, que já é um avanço muito grande. Para formar um deputado, tem que ter no mínimo 80% do coeficiente . E aquele, para ser deputado, tem que ter 20% pelo menos dos votos do coeficiente. Acho correto isso. 

"Se ele ficar em silêncio, ele vai fazer um grande benefício para a nação, trabalhando mais e executando mais. "

BNews - Sobre eleição nacional, Lula mostra força nas pesquisas e Bolsonaro perdendo pontos. Pode chegar ao ponto do presidente nem mesmo concorrer?

Otto Alencar - Fala-se muito sobre isso aqui em Brasília. Ontem mesmo comentaram isso aqui. Acho que, se o presidente ver uma situação dessa natureza, deveria tomar a posição do Michel Temer e procurar deixar o país organizado. Ele daria um exemplo de patriotismo, de brasilidade e de compromisso com o povo. Organizar a casa, que está muito desorganizada. Não sei se o presidente vai nessa direção, mas se fala aqui. Ele até agora não tem partido. Como é que um presidente da República, faltando um ano para a eleição, não tem sequer partido político? Como é que ele vai governar, sem base de sustentação na Câmara? Isso é o mínimo que se exige ao candidato de chapa majoritária.

BNews - Ele estaria mais preocupado com a prisão dos filhos?

Otto Alencar - Pelo que eu conheço, tenho visto com muita acuidade, não vejo nenhum motivo para a prisão de nenhum filho do presidente. Nem o Renan, nem o Eduardo, nem o Carlos e nem o Flávio Bolsonaro. Não vejo motivo para a prisão de nenhum deles. Muito menos do presidente. Mas, as pessoas mais acirradas, mais oposicionistas, falam isso. Coisa que eu nunca falei. Tenho cuidado de saber que um juiz, e eu não sou juiz, julga o que está nos autos do processo. Não tenho os autos dos processos contra nenhum deles. Como é que eu vou dar uma opinião de que ele vai ser preso? Seria leviano da minha parte. Não faço isso de jeito nenhum. 

BNews - Sobre Bahia, Jabes Ribeiro do PP e o senador Jaques Wagner, do PT, são unânimes em dizer que a chapa ainda não está arrumada. Há vários campos e especulações. Muito se fala de Wagner na cabeça, o senhor no Senado e o PP na vice. O PP fala que quer a cabeça ou  o Senado. Como está a sua visão a respeito desse rascunho de formação de chapa?

Otto Alencar - Sempre fui aberto ao diálogo com Wagner, Leão e com o governador Rui Costa - que tem feito um bom trabalho. Mas eu já disse reiteradas vezes que a nossa decisão final é de março para abril. Então, até lá, não vou tomar decisão nenhuma. Não serei estorvo ou obstáculo para nenhum tipo de conversação que atenta todos os três partidos mais importantes no cenário político da Bahia - que o PT, o PP e o PSD. Mas acho que isso terminará se resolvendo. Não me preocupo muito porque a minha vida é de desafios. Aceito a missão do povo e também não tenho essa pressa toda. O sujeito na política que fica muito angustiado para chegar aonde deseja, não precisa nem empurrar, porque tropeça nas próprias pernas e cai. Estou tranquilo, não tenho problema. O meu partido está sereno, sem dificuldades. Na mudança de março para abril, ou até maio, a gente vai sentar e tomar a decisão. Mas acho que vai se chegar a um bom termo, embora eu veja na imprensa muitas declarações a respeito disso - que, ao contrário de ajudar, tensiona e prejudica dentro do grupo.

BNews -  Justamente sobre isso. Uma declaração que chamou atenção na semana passada foi a de João Leão dizendo que só se vê como governador, seja numa possível renúncia de Rui para ser candidato ou ele sendo o candidato a governador pelo grupo. Acredita que ele está radicalizando?

Otto Alencar - Leão tem o estilo dele. Eu tenho o meu, Rui tem o dele e Wagner tem o dele. Cada um tem o seu estilo diferente. Leão é um grande baiano, que está ajudando o governador Rui Costa. É uma pessoa que tem uma visão empreeendedora. Ele gosta da Bahia, gosta de trabalhar e tem ajudado bastante. Por onde passou, deixou marcas de trabalho. Por onde passou deixou marcas de trabalho. Então, é o direito dele falar isso. É normal. Entendo que é uma coisa muito normal. Cada um de nós tem essa visão: se está trabalhando, tem que colher o fruto do seu trabalho. Não tenho preocupação com isso. Não me causa preocupação. Não tenho ansiedade. Por mais que a situação seja difícil na minha vida, por onde passei, nunca tive ansiedade pelo que vou ser. Até porque, cheguei em um lugar bem mais distande de onde esperava: nasci no interior,  com dificuldades, vim para Salvador, morei em pensão, sozinho, colégio interno, distante de meus pais... O que já aconteceu em minha vida, agradeço a Deus. Não tenho ansiedade. Não durmo pensando o que vai acontecer no dia seguinte. Termino meu dia com mesa vazia, despacho minhas coisas que são da minha responsabilidade, e vou para casa dormir. Já fui muitas coisas e isso talvez até baste para mim.

"Leão tem o estilo dele. Eu tenho o meu, Rui tem o dele e Wagner tem o dele. Cada um tem o seu estilo diferente"

BNews - Está havendo algum atrito com o PP no sentido da proporcional? Eu vejo muita migração do PP para o PSD e do PSD para o PP em lideranças regionais. Isso sempre aconteceu? É normal? 

Otto Alencar - É normal, é do jogo. Ninguém tira voto de ninguém. Você perde votos. Perde porque não deu assistência, não colaborou, não correspondeu ao eleitor. Voto vem da palavra devoto. Crença, fé... Quando o cara vota em você, ele está acreditando em você. Se você falha com ele, ele pode mudar. Então, é isso que acontece. Nunca me queixei de alguém que tomasse meu voto em município algum da Bahia. Acho que fiz minha obrigação e minha função corretamente ao longo da minha vida. Inclusive quando fui três vezes deputado estadual e duas vezes mais votado. Até quando fui oposição, no governo Nilo Coelho, fui o mais votado em 1990. Não me procupo.

BNews - O ex-prefeito e presidente do DEM, ACM Neto, fala que não vai haver a nacionalização da eleição na Bahia - apesar de as pesquisas mostrarem que Wagner cresce nas pesquisas quando associado a Lula. Na sua opinião, vai ter ou não peso a eleição de presidente da República na Bahia?

Otto Alencar - Respeito as considerações do ACM Neto, mas não tenho essa pesquisa que ele tem. Tem que esperar para ver o que vai acontecer. A lógica é sempre dar a lógica. Espero que isso seja mantido. Não tenho essa pesquisa, essa convicção que ACM Neto tem. Está um pouco distante ainda, tem muita água para rolar ainda debaixo da ponte. Esperar o desenrolar dos acontecimentos para ter uma visão mais clara do ano que vem.

BNews -  Acredita em três vias na majoritária da Bahia?

Otto Alencar - Não sei, não tenho ideia a esse respeito. Não estou fazendo essa projeção. Não faço, até para o meu bem estar físico e mental. Eu não durmo pensando nisso. Sou o presente, o hoje. 'O que é que eu vou ser', diante de um Brasil que tem milhões de pessoas recebendo R$ 150 por mês para sobreviver, que tem 27 milhões de pessos abaixo da linha da pobreza. Tenho acesso, graças a Deus e ao meu trabalho, aos bens e serviços que uma sociedade moderna pode oferecer. Posso ter medo de quê? Me preocupar com meu futuro? Se serei senador, se serei isso ou aquilo, não posso ter essa ambição. Não posso me preocupar com isso, sobretudo no momento que eu vivo. Tenho 74 anos e já vivi uma vida que tive essas condições. Agora vou chegar aqui me preocupando se vou passar no vestibular? Na minha época só podia passar na Federal e eu passei na Federal para medicina. Vou deixar as coisas acontecer. Deus haverá de me dar o que me deu até hoje: uma cabeça tranquila, confiante e ciente de que tudo aquilo que eu fiz foi com responsabilidade. Para quê vou me preocupar? Meu futuro é um palmo na minha frente. Não é amanhã. É o hoje.

*Colaborou Henrique Brinco

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