Entrevista

PSOL deve marchar com Lula, mas presidente da sigla aponta contradições do PT baiano

Ricardo Stuckert/Divulgação

Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL, esteve em Salvador e conversou com a equipe do BNews

Publicado em 25/04/2022, às 06h30    Ricardo Stuckert/Divulgação    Victor Pinto

Crescimento. Esse é o mote do PSOL para as eleições deste ano. Juliano Medeiros, presidente nacional da sigla, demonstrou, em conversa exclusiva com o BNews, otimismo no pleito.

Ele esteve em Salvador na última semana e participou de reuniões de articulações do PSOL baiano. A sigla conta com Kleber Rosa, pré-candidato ao governo, e Tâmara Azevedo, pré-candidata ao Senado Federal

O PSOL, de acordo com Medeiros, avança para anunciar no fim de abril o apoio ao ex-presidente Lula (PT) na disputa nacional e não acredita que essa medida atrapalhe os planos da legenda no palanque estadual. 

Confira a entrevista completa:

BNews: A sua visita a Salvador foi uma forma também de dar uma propulsão ao nome de Kleber e de Tâmara que estão como pré-candidatos ao Governo e ao Senado da Bahia?

JM: Com certeza. Esse é parte de um projeto que nós estamos desenvolvendo desde o início desse ano, chama PSOL pelo Brasil, que tem como propósito visitar todos os 27 estados do país pra que a gente possa não só fortalecer nossas chapas ao governo dos estados, ao senado, também a deputada federal e deputado estadual, mas iniciar discussões fundamentais sobre os problemas de cada estado, as saídas que o PSOL tá apontando, a incorporação destes temas também à nossa agenda nacional, né? A construção de um programa nacional não pode ser uma abstração que pense o país apenas do ponto de vista teórico, nós temos que ver o país de perto, viver de perto quais são as demandas, as necessidades do nosso povo. E tá aqui também tem esse propósito, além de fortalecer a campanha do Cleber e da Tâmara, também ouvir os nossos companheiros e ver quais são os temas importantes que o PSOL da Bahia considera que devem ser elevados também num nível nacional, que devem tá presentes na narrativa dos nossos dirigentes, no discurso das nossas lideranças em outros estados e mesmo na pré-campanha do ex-presidente Lula, que deve ser muito provavelmente o nosso candidato.

BNews: Aproveitando para já abordar esse assunto... O pessoal já bateu o martelo quanto ao apoio a Lula ou se não o que é que falta ainda pra poder ter essa unidade do campo de esquerda?

JM: O PSOL abriu um processo de negociações que envolve a incorporação de elementos programáticos que pra nós são indispensáveis pra essa unidade. Cito como exemplo aqui a revogação do teto de gastos que congelou por 20 os investimentos em saúde e educação, a necessidade de um programa de combate a crise climática, ao desmatamento, de garantia dos direitos dos povos indígenas. Cito também como fundamental a necessidade de uma reforma tributária pra dotar o estado brasileiro novamente de condições pra se financiar e ao se financiar, financiar as políticas públicas. Então tudo isso foi colocado na mesa no processo de diálogo com o PT. Ontem mesmo aconteceu uma reunião entre as fundações Perseu Abramo do PT e a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco do PSOL, onde nós apresentamos esse esses pontos, são 12 pontos que foram apresentados na reunião e houve uma sinalização positiva do PT pra incorporação. Então nós estamos encerrando esse processo de negociações e que vai ser homologado pela nossa conferência eleitoral que acontece no dia 30 de abril em São Paulo. Então dia 30 de abril o PSOL toma a sua definição, concluindo esse processo de negociações que se iniciou cerca de dois meses atrás.

BNews: É esse o mesmo prazo pra resolver a vida do PSOL de São Paulo? Seu nome foi posto como um possível nome pra compor uma chapa com Fernando Haddad.
JM: Essa definição vai passar pelo pessoal de São Paulo. Eu tô totalmente focado, concentrado, na definição dessas questões nacionais. Nós tivemos essa semana a votação do nosso diretório nacional que aprovou a federação com a Rede de Sustentabilidade. Estamos no meio de um processo de negociações com o PT, que é complexo no nível nacional. Então, as definições de São Paulo eu vou deixar pra que os nossos companheiros lá conduzam e obviamente vai levar em conta a realidade local, a possibilidade de uma unidade com Fernando Haddad, mas isso tudo tá em discussão pela direção de São Paulo.

Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL
Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL

BNews: Sobre a federação, como é que vocês tão vendo essa questão da cláusula de barreira? Vocês fizeram uma federação agora com a Rede. Acreditam que vão conseguir ter êxito, conseguir os índices necessários pra poder prosseguir com o partido?

JM: O PSOL tá num processo de ascensão eleitoral e político muito consistente nos últimos anos. Aliás, em 2021 foi o partido que mais cresceu no Brasil e um dos únicos dois partidos que teve mais filiações do que desfiliações. O outro foi o PR, partido da Igreja Universal. Então, nosso processo de crescimento é muito consistente. Agora, é claro que nós temos que olhar também em perspectiva, né? Eu não acho que o PSOL corra nenhum risco em relação a cláusula de barreira nas eleições deste ano. Mas isso pode representar um risco, por exemplo, em 2026, quando a cláusula de barreira vai ser de 3% dos votos válidos pra deputado federal, que é coisa. São 3 milhões de votos. Então, também pensando lá na frente, a gente achou que era importante antecipar o debate da federação. A Rede Sustentabilidade tem sido um partido que tem votado com o PSOL na Câmara Federal. 95% das matérias que foram apreciadas na Câmara, PSOL e Rede votaram juntos. O deputado Túlio Gadelha, de Pernambuco, a deputada Joenia Wapichana, única deputada indígena do Congresso Nacional, que são da Rede, são parceiros do PSOL, aliados do PSOL na luta contra o governo Bolsonaro. Então, nós não vimos nenhuma razão relevante pra que a federação não avançasse. Até porque os partidos mantém a sua identidade, mantém a sua autonomia. A federação não é uma fusão onde os partidos perdem a sua identidade. Os partidos mantém a sua identidade política e a sua autonomia, mas constroem uma espécie de aliança permanente, uma coligação permanente por quatro anos, que eu acho que é positivo pra democracia brasileira, que permite que a Rede possa ter os seus direitos de funcionamento plenamente assegurados e acho positivo também pro PSOL que incorpora de forma mais central ainda a agenda ambiental e ecológica que é fundamental hoje pra pensar o futuro do país.

BNews: Na Bahia é muito comum ter uma nacionalização das eleições. Um candidato a Presidência da República puxar o candidato ao Governo do Estado. No fato do PSOL fechar questão de apoiar o ex-presidente Lula, aqui tem um nome que é o nome de Jerônimo Rodrigues, que é o nome do PT. Você não acha que isso pode atrapalhar o desenvolvimento do pessoal na majoritária aqui na Bahia, o fato de não ter um candidato a Presidência da República?

JM: Não, de forma alguma. Eu acho que é fundamental pra que o PSOL possa colocar como uma alternativa de esquerda nas eleições desse ano, que o PSOL demarque claramente qual é a sua prioridade. E a sua prioridade é derrotar o Jair Bolsonaro. Não há outra forma melhor de derrotar o Jair Bolsonaro do que apoiar o ex-presidente Lula. Ele é o nome hoje que tem condições, não só de derrotar o Bolsonaro, como apresentar um programa que represente uma superação dessa agenda, que é uma agenda de retirada de direitos, uma agenda de privatizações, uma agenda de ataques à legislação ambiental. Então, desse ponto de vista eu tenho certeza que o eleitor na Bahia vai ter plena consciência da opção que o PSOL tá fazendo de derrotar o Jair Bolsonaro e vai, inclusive, reconhecer isso também no esforço do Kleber e da Tâmara que aqui nos representam na candidatura ao Governo e ao Senado, pra também darem o voto de confiança a eles, levando em conta também as contradições do projeto do PT na Bahia. É um projeto que não conseguiu resolver problemas crônicos do estado, como por exemplo o problema da segurança pública, né? A Bahia continua sendo um estado perigoso para os jovens negros e pras jovens negras. E acho que essas contradições, especialmente, no que diz respeito a política de alianças que o PT tem desenvolvido na Bahia, vão ficar ainda mais evidentes, o que fará com que o com que o eleitor que tem percepções, valores e posições de esquerda, deem o voto de confiança ao pessoal nessas eleições

BNews: O PSOL conseguiu ter uma base muito boa no Sudeste do país, na região Sul-Sudeste, e no Nordeste ele não desconta. Vocês já tentaram mapear e já descobriram porque ainda não conseguiram furar essa bolha, por exemplo de um PSB e de um PT, que são os partidos da esquerda muito fortes aqui, e o PCdoB, na Região Nordeste e que que vocês pensam pra o futuro?

JM: Naturalmente, em regiões onde os partidos da esquerda tradicional governam, como é o caso aqui da Bahia, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, só pra dar esses exemplos, evidentemente onde essa esquerda governa, o processo de renovação da esquerda ele é mais lento e isso nós temos visto em outros estados também. Em lugares onde a esquerda mais tradicional não tem conseguido se viabilizar como alternativa, como é o caso do Rio de Janeiro, de São Paulo, mesmo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, o PSOL tem conseguido crescer mais rápido. Então, eu acho que é um processo relativamente natural, né? Onde este ciclo da esquerda tradicional no governo tende a se esgotar e nesse processo de esgotamento vão surgir novos atores, novas atrizes, novas lideranças. Isso já começa a acontecer. Como é o caso em Pernambuco, onde o PSOL teve um desempenho extraordinário pra prefeitura na chapa com a Marília Arraes na última eleição contra o PSB. Agora no Ceará, onde a candidata do PSOL, Adelita Monteiro, já aparece com um bom desempenho eleitoral e acho que na Bahia também isso começa acontecer. Acho que essa eleição é uma eleição de virada de chave pra o PSOL da Bahia, onde além de manter o espaço que nós já temos na Assembleia Legislativa, nós podemos, pela primeira vez, eleger deputados e deputadas federais e ter um desempenho surpreendente tanto pra o Senado quanto pra o governo do Estado.

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