Esporte

Inglaterra x Argentina: por que a semifinal da Copa do Mundo é muito mais que um jogo de futebol

DIvulgação/Festival de Cannes
Futebol e política se misturam em semifinal da Copa do Mundo nos EUA para disputa entre ingleses e argentinos  |   Bnews - Divulgação DIvulgação/Festival de Cannes
Matheus Simoni

por Matheus Simoni

matheus.simoni@bnews.com.br

Publicado em 12/07/2026, às 09h05



Atlanta será palco, nesta quarta-feira (15), de um dos duelos mais aguardados da história recente do futebol mundial. Inglaterra e Argentina se enfrentam pela primeira vez em uma Copa do Mundo desde 2002, e agora em uma semifinal, uma fase até então inédita no histórico do encontro entre as duas seleções. O jogo reúne dois times que já ergueram a taça: os ingleses em 1966, em casa, e os argentinos em 1978, 1986 e, mais recentemente, em 2022, no Catar.

Clique aqui e se inscreva no canal do BNews no Youtube

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Só isso já bastaria para colocar a partida no topo do noticiário esportivo global. Mas a rivalidade entre as duas seleções carrega um peso que extrapola as quatro linhas, elemento que dá um tom raro ao futebol: quando a história e a política entram em campo para retratar confrontos que o passado já reproduziu. 

Torcida da Inglaterra
Torcedores ingleses lotam estádios e fazem a festa durante campanha do time na Copa do Mundo (Foto: X/@England)

Como as seleções chegaram à semifinal

A Argentina, atual campeã mundial e liderada por Lionel Messi, viveu uma campanha de sustos. Precisou da prorrogação para superar Cabo Verde no primeiro mata-mata, buscou uma virada dramática contra o Egito depois de sofrer 2 a 0 e um pênalti perdido pelo capitão, e só confirmou vaga nas quartas de final batendo a Suíça na prorrogação, por 3 a 1, em jogo teve a história mudada após uma expulsão no time europeu.

A Inglaterra, comandada por Harry Kane e Jude Bellingham, também não teve vida fácil. Fechou a fase de grupos com sete pontos, goleando a Croácia por 4 a 2 na estreia, empatando sem gols com Gana e batendo o Panamá por 2 a 0. Nas quartas, precisou da prorrogação para eliminar a Noruega por 2 a 1, com dois gols de Bellingham. E um deles, mais uma vez, aconteceu no tempo extra.

Um retrospecto equilibrado 

Antes da semifinal de Atlanta, ingleses e argentinos já haviam se enfrentado cinco vezes em Copas do Mundo, com um retrospecto historicamente parelho. A Inglaterra venceu em 1962, na fase de grupos, e em 1966, nas quartas de final daquele Mundial disputado em solo inglês. A Argentina conquistou sua primeira vitória no confronto direto em 1986, também nas quartas, numa partida que entraria para a história por um motivo específico, explicado mais à frente.

Em 1998, nas oitavas de final, um empate em 2 a 2 levou a disputa aos pênaltis, decididos a favor dos sul-americanos. O último encontro em Copas aconteceu em 2002, na fase de grupos, com vitória inglesa por 1 a 0. No entanto, um jogo específico nunca saiu da mente dos ingleses.

1986: a "Mão de Deus" e o gol do século

Diego Maradona
Episódio que ficou conhecido como "La mano de Dios" (Mão de Deus, traduzido para português) marcou uma das maiores polêmicas de todas as Copas do Mundo (Foto: Arquivo/Fifa)

Nenhuma partida entre as duas seleções é mais lembrada do que o confronto das quartas de final do México, em 1986. Na mesma tarde, Diego Maradona marcou dois dos gols mais comentados da história das Copas: o primeiro, com a mão, driblando o goleiro inglês sem que a arbitragem notasse a irregularidade. O episódio foi batizado por ele mesmo de "Mão de Deus" e até hoje é celebrado pelos argentinos. 

O segundo, poucos minutos depois, aconteceu após o camisa 10 correr praticamente todo o campo driblando adversários, considerado por muitos especialistas e historiadores do futebol o melhor e mais bonito gol da história dos Mundiais. A Argentina venceu por 2 a 1 e seguiu rumo ao título daquele ano.

O peso político: a Guerra das Malvinas

Malvinas
Placa reforça contexto político em disputa entre Inglaterra e Argentina (Foto: Tjeerd Wiersma/Café e História)

O que transforma Inglaterra x Argentina em algo além de um clássico esportivo é o contexto político que envolve as duas nações desde 1982, quando Reino Unido e Argentina travaram a Guerra das Malvinas (Falklands, para os britânicos), um conflito de 74 dias pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul, que terminou com a vitória britânica e a morte de mais de 900 pessoas, entre elas 649 soldados argentinos e 255 britânicos.

A derrota no confronto armado precipitou o fim da ditadura militar argentina, enquanto o triunfo fortaleceu politicamente o governo de Margaret Thatcher no Reino Unido.

Não por acaso, o jogo de 1986, disputado apenas quatro anos depois da guerra, ficou marcado na Argentina como uma espécie de revanche simbólica, e o próprio Maradona reforçou essa leitura ao longo dos anos, tratando o resultado como uma resposta esportiva à derrota militar.

A disputa pela soberania das Malvinas, aliás, segue sem solução até hoje. Neste ano, a diplomacia argentina voltou a propor a retomada de negociações bilaterais com o governo britânico sobre o tema, enquanto Londres mantém a posição de que a soberania das ilhas pertence ao Reino Unido, apoiada em referendo de 2013 no qual mais da quase totalidade dos moradores do arquipélago optou por permanecer sob domínio britânico.

A questão voltou a ganhar repercussão internacional neste ano após a revelação de discussões internas do governo americano sobre uma eventual revisão de sua postura histórica em relação ao tema, reacendendo debates em ambos os países sobre a disputa territorial que dura mais de 190 anos.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que cada encontro entre as seleções, mesmo décadas depois do conflito, é tratado pela imprensa e pela torcida dos dois países como algo que vai muito além de uma simples partida de futebol.

Um capítulo à parte: 1998 e o pisão de Beckham

Outro episódio que marcou a rivalidade aconteceu nas oitavas de final da Copa da França, em 1998. David Beckham foi expulso após um lance de reação contra o argentino Diego Simeone, sendo alvo de forte pressão da imprensa britânica na sequência do torneio.

A Argentina venceu a disputa de pênaltis e avançou, enquanto o episódio ficou marcado como um dos pontos mais tensos da história recente do confronto.

O que está em jogo em Atlanta

Voltando agora para 2026, além de uma vaga na final, a semifinal desta quarta representa possivelmente a última partida de Lionel Messi em uma Copa do Mundo, fechando um ciclo que inclui o título de 2022 e recordes históricos de gols e assistências na competição.

Pelo lado inglês, a equipe busca repetir o único título de sua história, conquistado em 1966. O fato de ter somente um único título na história das Copas ainda é algo que incomoda os ingleses, reconhecidos mundialmente como inventores do futebol. Por isso um dos lemas da campanha britânica envolve a música "It's coming home", que brinca sobre a possibilidade do futebol estar "voltando para casa". 

Messi
Idolo máximo da atual seleção, Messi tem nas mãos a chance de marcar mais uma vez a história pela Argentina no futebol (Foto: @Conmebol/Redes sociais)

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)
{# Os assets da galeria (unitegallery) sao injetados em bones/objects.py, somente quando o artigo tem galeria. #}