Esporte
Atlanta será palco, nesta quarta-feira (15), de um dos duelos mais aguardados da história recente do futebol mundial. Inglaterra e Argentina se enfrentam pela primeira vez em uma Copa do Mundo desde 2002, e agora em uma semifinal, uma fase até então inédita no histórico do encontro entre as duas seleções. O jogo reúne dois times que já ergueram a taça: os ingleses em 1966, em casa, e os argentinos em 1978, 1986 e, mais recentemente, em 2022, no Catar.
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Só isso já bastaria para colocar a partida no topo do noticiário esportivo global. Mas a rivalidade entre as duas seleções carrega um peso que extrapola as quatro linhas, elemento que dá um tom raro ao futebol: quando a história e a política entram em campo para retratar confrontos que o passado já reproduziu.
A Argentina, atual campeã mundial e liderada por Lionel Messi, viveu uma campanha de sustos. Precisou da prorrogação para superar Cabo Verde no primeiro mata-mata, buscou uma virada dramática contra o Egito depois de sofrer 2 a 0 e um pênalti perdido pelo capitão, e só confirmou vaga nas quartas de final batendo a Suíça na prorrogação, por 3 a 1, em jogo teve a história mudada após uma expulsão no time europeu.
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A Inglaterra, comandada por Harry Kane e Jude Bellingham, também não teve vida fácil. Fechou a fase de grupos com sete pontos, goleando a Croácia por 4 a 2 na estreia, empatando sem gols com Gana e batendo o Panamá por 2 a 0. Nas quartas, precisou da prorrogação para eliminar a Noruega por 2 a 1, com dois gols de Bellingham. E um deles, mais uma vez, aconteceu no tempo extra.
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Antes da semifinal de Atlanta, ingleses e argentinos já haviam se enfrentado cinco vezes em Copas do Mundo, com um retrospecto historicamente parelho. A Inglaterra venceu em 1962, na fase de grupos, e em 1966, nas quartas de final daquele Mundial disputado em solo inglês. A Argentina conquistou sua primeira vitória no confronto direto em 1986, também nas quartas, numa partida que entraria para a história por um motivo específico, explicado mais à frente.
Em 1998, nas oitavas de final, um empate em 2 a 2 levou a disputa aos pênaltis, decididos a favor dos sul-americanos. O último encontro em Copas aconteceu em 2002, na fase de grupos, com vitória inglesa por 1 a 0. No entanto, um jogo específico nunca saiu da mente dos ingleses.
Nenhuma partida entre as duas seleções é mais lembrada do que o confronto das quartas de final do México, em 1986. Na mesma tarde, Diego Maradona marcou dois dos gols mais comentados da história das Copas: o primeiro, com a mão, driblando o goleiro inglês sem que a arbitragem notasse a irregularidade. O episódio foi batizado por ele mesmo de "Mão de Deus" e até hoje é celebrado pelos argentinos.
O segundo, poucos minutos depois, aconteceu após o camisa 10 correr praticamente todo o campo driblando adversários, considerado por muitos especialistas e historiadores do futebol o melhor e mais bonito gol da história dos Mundiais. A Argentina venceu por 2 a 1 e seguiu rumo ao título daquele ano.
O que transforma Inglaterra x Argentina em algo além de um clássico esportivo é o contexto político que envolve as duas nações desde 1982, quando Reino Unido e Argentina travaram a Guerra das Malvinas (Falklands, para os britânicos), um conflito de 74 dias pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul, que terminou com a vitória britânica e a morte de mais de 900 pessoas, entre elas 649 soldados argentinos e 255 britânicos.
A derrota no confronto armado precipitou o fim da ditadura militar argentina, enquanto o triunfo fortaleceu politicamente o governo de Margaret Thatcher no Reino Unido.
Não por acaso, o jogo de 1986, disputado apenas quatro anos depois da guerra, ficou marcado na Argentina como uma espécie de revanche simbólica, e o próprio Maradona reforçou essa leitura ao longo dos anos, tratando o resultado como uma resposta esportiva à derrota militar.
A disputa pela soberania das Malvinas, aliás, segue sem solução até hoje. Neste ano, a diplomacia argentina voltou a propor a retomada de negociações bilaterais com o governo britânico sobre o tema, enquanto Londres mantém a posição de que a soberania das ilhas pertence ao Reino Unido, apoiada em referendo de 2013 no qual mais da quase totalidade dos moradores do arquipélago optou por permanecer sob domínio britânico.
A questão voltou a ganhar repercussão internacional neste ano após a revelação de discussões internas do governo americano sobre uma eventual revisão de sua postura histórica em relação ao tema, reacendendo debates em ambos os países sobre a disputa territorial que dura mais de 190 anos.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que cada encontro entre as seleções, mesmo décadas depois do conflito, é tratado pela imprensa e pela torcida dos dois países como algo que vai muito além de uma simples partida de futebol.
Outro episódio que marcou a rivalidade aconteceu nas oitavas de final da Copa da França, em 1998. David Beckham foi expulso após um lance de reação contra o argentino Diego Simeone, sendo alvo de forte pressão da imprensa britânica na sequência do torneio.
A Argentina venceu a disputa de pênaltis e avançou, enquanto o episódio ficou marcado como um dos pontos mais tensos da história recente do confronto.
Voltando agora para 2026, além de uma vaga na final, a semifinal desta quarta representa possivelmente a última partida de Lionel Messi em uma Copa do Mundo, fechando um ciclo que inclui o título de 2022 e recordes históricos de gols e assistências na competição.
Pelo lado inglês, a equipe busca repetir o único título de sua história, conquistado em 1966. O fato de ter somente um único título na história das Copas ainda é algo que incomoda os ingleses, reconhecidos mundialmente como inventores do futebol. Por isso um dos lemas da campanha britânica envolve a música "It's coming home", que brinca sobre a possibilidade do futebol estar "voltando para casa".
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