Publicado em 25/07/2014, às 15h33 Roberto Albergaria
Afobado, vou dar uma de Mãe Diná cá.
Vai se repetir no caso desse rolezão ao ar livre (Rolezão do Ventão?) a mesmíssima história que rolou nos rolezinhos do ar condicionado dos Shoppings no ano passado.
Claro! O fato da mídia passar a super-representar a "muvucação" ou a "zoeira" ou o “agito” ou a "vadiação" (palavra mais antiga) desse mundinho de adolescentes alvoroçados só irá fazer essa coisinha curiosinha crescer como uma bola de neve – todo mundo tirando a sua lasquinha...
Até mesmo porque a molecada festeira e bagunceira dessas estudantadas licenciosas dos fins de semana não está querendo só zanzar à beira mar, curtir, paquerar, “ficar” (que é beijar, apalpar e, no máximo, boquetear; enfim “fazer ozadia”, ficando no mela-cueca mesmo).
Desejam, também, "se amostar" através dessa molequeira arteira, “zoando com a cara dos outros”, especialmente os adultos já casados -- gente discreta, já com grana pra pular a cerca em motel limpinho. Semostração generalizada que é potencializada pela própria lógica da Sociedade do Espetáculo que enforma o mundão presepeiro do baiano de opereta de hoje em dia.
Cenário fantasioso em que "ser gente" é aparecer na tevê, mesmo que negativamente. E logo os programas da própria Aratu (que primeiro chutou a bola), de Zuzé Bocão, de Valéra etc. vão cair em cima da novidade -- ciscando que nem pinto no lixo. Levando a sério que não passa de uma brincadeirinha descaradinha, bestagem...
Vão transformar esse "fatinho" num noticiarão do tamanho de um jegue, já virando o trombeteado hype do momento...
E os meninos rueiros do rolezão irão adorar toda essa patacoada audiovisual massiva, essa matracagem desmesurada em cima deles.
Pois ter visibilidade -- no extremo do exibicionismo -- é que mais nos motiva hoje. Motivação importante, sobretudo, para os consumidores de segunda linha, para os zoiúdos abelhudos de fora-da-tela. No caso o mói dessa garotada meio-lenhada / meio-remediada da semi-periferia (classe C emergente? ou já submergente?) – amontoada pelas escolas públicas fuleiras que não levam ninguém a lugar nenhum (e eles sabem disso).
Anonimato insuportável para quem quer ser alguém -- famosinho ainda que apenas em 15 minutos, ainda que morcegando do lado de fora do buzú da ninguéndade cotidiana do nosso povão comum (não por acaso o buzú é chamado de “o humilhante” pelo frangote lascado que não pode comprar nem uma “cinquentinha” com o cartão-de-crédito da tia).
Assim, na medida em que se torne a bola da vez (onda midiática que dá audiência, pois cobertura de eleição é só encheção de linguiça) essa simples zoeira de meninões brincalhões se transformará num "auê" espetaculoso; que eles irão curtir adoidado, especialmente no Fakebook (onde marcam seus saraus & sururus).
O rebuliço multiplicado por mil nas telas das tevês já atraindo mais galeras de outros remotos bairros do Além-Paralela, malucórios mil, bi-curiosos da FACONHA (alunos de Maluzinha Fontes?), jovens multiplicadores culturais (como os bebezões que mamam na SECULT?), promotores do abençoado protagonismo juvenil-cidadanil da CESE...
Além dos “puliças” já infiltrados, dos videomakers espalha-brasas da mídia ninja apaulistada, dos velhuscos taraduscos caçadores de novinhas “em água” e, até, dos franco-atiradores alternativos da igualha do polígrafo paroleiro Geme-Geme Martinho.
Ô bolo doido! Ô quiproquó da zorra!
Como quer que seja, essa garotada embiritada vai ficar ainda mais excitada & ousada quando se der conta que está assombrando, também presencialmente, a classe média melindrosa da Brancolândia da orla. Mães-de-família assustadiças & peruas cheias de madamismo que passam de carro diante deles com os vidros fumês bem fechados...
Sem falar na estudante feinha (recalcada que morre de inveja das suas colegas funkeiras, lindinhas atiradinhas que se jogam em qualquer suingueira rueira). Ela que segue a sua professora cabo-de-vassoura calçoluda (tipo feminista-petista) – que se mostra escandalizada com a posição abaixadinha , tão sexualmemte incorreta, das piriguetes boqueteiras. (Quanta alienação! Quanta falta de educação sentimental!).
Neste caso, as mocinhas & os rapazotes que se agitam na muvuca -- ao perceber que estão sendo vistos mais com desdém e temor do que com curiosidade -- irá aproveitar seu rolezão em dobro. Teatralismo quaduplicado! “Ói nóis na fita, mano”!
Eu assombro, eu pareço brega (“bráu”?) e perigoso, logo existo!
Gozosa zoeira... E a patota dos bundões madurões tirados a pais-de-família-responsáveis lá da Pituba, irá vai fazer o que?
Começar uma nova chiadeira, lógico.
Um deus-nos-acuda, talvez na eterna ilusão de estão protegendo seus mimados filhinhos coxinhas das más companhias que representam as “classes perigosas” da Boca-do-Rio e a “juventude transviada” do Parque Júlio César...
E logo vão passar a noite inteirinha enchendo a paciência de Çêu Máro no ar, pedindo providência às "otóridade competente", denunciando o perigo representado pelo "póbrêma das droga"; apontando o malefício que este clima de pícara brincadeiria (bricadeira + trutaria) está causando às semi-virgens semi-inocentes (mas embucháveis!) que também se esbaldam pelo meio da galera folgazona.
Cagaço retado dos "barões da Pituba" (na verdade, baronetes de apartamento financiado até a morte, apenas a acomodada ex-nova classe média técnica "poleira"). Ô neura! Ô gente impressionável, que come pilha de tudo que é lado!
Brancões (imaginários) caretões (reais) que ainda se lembram dos arrastões que se seguiram ao show de Kannário & A Bronkka, lá na praça do Clube Português, no ano passado ou retrasado.
E não adianta ponderar que as tribos urbanas que compõem o ajuntamento difuso desses brothers curtidores (tipo homeletes hedonistas) é bem diferente em seu estilo-de-vida da galera abandidada do tipo "vida lôka" -- que tem o “raça rúin” do Kannário como ídolo...
Um abismo os distanciando dos bravos manifestantes do “não vai ter copa” (aqueles jovens conscienciosos que foram demonizados como “terroristas black blocks” – e tratados como bandidos pelo establishment governamental-televisual: ferrados por todos os lados, sumiram aqui na Bahia).
É isso. O circo está montado. Mais uma dança-de-rato super-animada! O resto é o ciclo mensal (que nem uma menstruação?) de sempre. Badalação repetitiva da grande midia, super-dimensionando o teor da vida ao redor. O que seria algo de culturalmente ordinário já sendo transmutado, de repente, numa coisona extraordinária: novo bicho-de-sete cabeças!
Levando a meninada a ficar hiper-excitada mentalmente... E ainda mais ouriçada quando souberem que seu comportamento é objeto, até, da atenção de um monte de entendidões da UFBa (como este peru-de-redação descarado que vos escreve); fazendo a festa das opiniões dos cabeções que se viciaram em cair de língua em cima do que leem nas tais das redes anti-sociais da moda... E tresleem nos artigalhões da TARDE (tarde demais?).
Enfim, depois virá o cansaço, a mornura, a obsolescência da notícia, a ventoinha intelectual logo mudando de ares.
Seguida do recomeço de tudo que é lambança "noticiável": picula do mais-novo, do mais-original, correria atrás da bomba (traque-de-massas?) que aparecerá no Bocão News como mais uma exclusividade quentíssima. Mês que vai, mês que vem...plus ça change plus c’est la même chose... Ô vida besta, ô fuleiragem manjada!
P.S. O Geme-Geme acima mencionado é o invencioneiro James Martins: que vem definindo a esculhambaçãozinha mundana da molecada como um “embola-gato presencial/digital”, como uma “efervescência anarco-molecular”, como um “happening porno-poético”, como uma “multisexual mob” pós-política, pós-xerequista ou coisa assim -- reocupando o “urban playground” do Jardim de Alah (“novo paraíso da liberdade libertina, novo squat do nomadismo presentista da minha geração cyberpunk”, acrescenta o guru dos alternativos de Salvador).
Ô ingresia esbaforida!
Classificação Indicativa: Livre
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