Geral
por Analu Teixeira
Publicado em 05/01/2026, às 17h07
O que começou como promessa de prazer intenso e noites sem limites tem se transformado em alerta máximo de saúde pública. Novas drogas usadas para “turbinar” o sexo, prática conhecida como chemsex, vêm ganhando espaço entre frequentadores de festas, blocos e boates do Rio de Janeiro, mas os riscos são altos e, em alguns casos, fatais.
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Um episódio emblemático escancarou o perigo - o turista russo Denis Kopanev, de 33 anos, foi encontrado morto em uma trilha do Horto, na Zona Sul do Rio, em 30 de setembro do ano passado, após quase quatro meses desaparecido. De acordo com o GLOBO, ao lado do corpo, a polícia encontrou GHB, um solvente químico usado na limpeza de aviões que se popularizou no meio do chemsex.
Segundo as investigações, Kopanev também havia consumido metanfetamina (conhecida como “crack dos ricos”) e cocaína.
O GHB (gama-hidroxibutirato) provoca relaxamento e euforia, mas pode causar depressão respiratória e parada cardíaca, especialmente quando combinado com outras substâncias, mistura comum nesse tipo de prática. A busca por sensações extremas envolve ainda drogas que estimulam a liberação de adrenalina e noradrenalina, ampliando perigos fora e dentro do quarto.
“Cocaína rosa” e o glamour que engana
Entre as substâncias que viraram febre está a chamada “cocaína rosa”, ou tusi, um pó rosado vendido como droga “sofisticada” e associada a festas de alto padrão. O nome vem de “two-cee-bee” (2C-B), mas a composição varia, pode misturar cetamina, MDMA e até metanfetamina, formando um coquetel imprevisível e altamente tóxico.
A popularização é impulsionada não só pelas festas, mas também pela cultura pop. O cantor Bad Bunny, por exemplo, cita a droga em uma de suas músicas, alertando: “O Tusi, rosinha, melhor evitar”.
Mesmo assim, o apelo cresce, um economista carioca contou ao GLOBO que experimentou a substância durante um bloco de rua, após um amigo colombiano trazer o pó, vendido por mais de mil reais o grama e conhecido como “droga de rico”, presença frequente em festas de réveillon.
Consumo em alta e hospitais lotados
Dados reforçam o cenário preocupante, segundo o Relatório Global sobre Drogas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o consumo de drogas sintéticas segue em forte expansão no mundo, com destaque para os estimulantes do tipo anfetamina (ATS), como a metanfetamina.
Em 2023, as apreensões desse tipo de droga bateram recorde global, representando quase metade das apreensões de sintéticas. No Rio, a estrutura do crime organizado favorece a disseminação. O relatório aponta que facções atuam como empresas verticais, controlando etapas da produção à distribuição.
O impacto aparece diretamente na rede de saúde. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o número de atendimentos no Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Capsad) saltou de 8.997 pacientes em 2023 para 13.789 em 2024, um aumento superior a 53%. Em 2025, mesmo sem o balanço final, 14.956 pessoas já foram acompanhadas.
Cultura, internet e efeito dominó
Dois jovens ouvidos pelo GLOBO relataram que a curiosidade surgiu ao mesmo tempo em que amigos comentavam sobre as drogas e referências explodiam nas redes sociais, em memes, vídeos e músicas.
Para o psiquiatra e professor Paulo Roberto Telles Pires Dias, do Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da Uerj, o fenômeno está diretamente ligado a fatores culturais.
“O que está sendo usado hoje em uma balada de São Paulo, amanhã já está no Rio”, explicou ao GLOBO.
Os riscos, no entanto, são severos. A tusi já provocou mortes de adolescentes na Europa e nos Estados Unidos. Entre os efeitos estão aumento da frequência cardíaca e respiratória, elevação da pressão arterial e, em casos de superdosagem, infarto e morte súbita.
Alerta
Diante do avanço das drogas sintéticas, o governo federal deve lançar, ainda no início deste ano, um levantamento específico sobre o tema, produzido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), do Ministério da Justiça. Recentemente, o órgão também divulgou uma cartilha de alerta sobre os nitazenos, opioides sintéticos de altíssima potência.
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