Meio Ambiente

Se Amazônia virasse pasto, região ficaria 5,5ºC mais quente e continente teria menos chuva

Lalo de Almeida/Folhapress
Os modelos matemáticos do novo estudo levam em conta detalhes específicos da interação entre a atmosfera e a superfície terrestre em florestas tropicais  |   Bnews - Divulgação Lalo de Almeida/Folhapress

Publicado em 18/10/2019, às 05h35   Folhapress



O que aconteceria se toda a floresta tropical que hoje existe na Amazônia fosse magicamente transformada em pasto? Uma simulação computacional feita por pesquisadores da Universidade de Princeton (EUA) tentou responder a essa pergunta, e o cenário tem ares de distopia.

Caso isso ocorresse de fato, calculam os cientistas, a região amazônica poderia esquentar 2,5 graus Celsius a mais do que o resto do mundo na segunda metade deste século, dependendo do cenário global. Poderia ficar, portanto, 5,5 graus Celsius mais quente do que era no século 19.

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Tal aumento de temperatura, porém, seria apenas a ponta do iceberg. Sem a mata, a região também perderia entre 700 mm e 800 mm de chuva por ano (o equivalente a mais ou menos metade da chuva que cai no município de São Paulo anualmente). Isso reduziria tanto o fluxo de água dos rios da Amazônia quanto a pluviosidade que a área exporta para o resto do Brasil e da América do Sul.

Os dados foram apresentados por Stephen Pacala e Elena Shevliakova durante a conferência "Amazonian Leapfrogging" (algo como "pulo-do-gato amazônico"). O evento foi realizado pelo Brazil Lab, órgão da universidade americana dedicado a estudos sobre questões brasileiras.

Especialistas e representantes da sociedade civil de ambos os países se reuniram para debater soluções inovadoras para a crise enfrentada pela Amazônia –os tais "pulos-do-gato" do título da reunião. "Na minha opinião, enfrentamos quatro grandes crises ambientais no mundo: clima, alimentos, água e biodiversidade. A Amazônia está no epicentro de todas elas", declarou Pacala.

"A modelagem que fizemos ajuda a comunicar a urgência por trás disso." Segundo Shevliakova, a equipe de Princeton se inspirou numa pesquisa similar dos anos 1990 que tinha entre seus coautores o climatologista brasileiro Carlos Nobre (um dos convidados do evento nos EUA). "O impressionante é como a magnitude dos efeitos, em grande medida, acabou se mantendo", contou ela.

Os modelos matemáticos do novo estudo levam em conta detalhes específicos da interação entre a atmosfera e a superfície terrestre em florestas tropicais, em especial a química atmosférica e a presença de aerossóis –no caso da Amazônia, partículas de matéria orgânica, de diferentes tamanhos e composições, que são emitidas pela própria floresta.

Tudo indica que os aerossóis atuam como "sementes" de nuvens, ajudando a manter nos elevados níveis atuais a chuva que costuma cair em território amazônico. Sem a mata, portanto, os modelos mostraram grandes alterações na precipitação e na umidade, o que contribui para o excesso de calor.

"São mudanças tremendas as que nós vemos. Tanto o mundo quanto a Amazônia jamais seriam os mesmos", declarou Shevliakova. Caso a devastação alcance 50% da floresta, os impactos na temperatura regional também seriam mais ou menos a metade do que aconteceria com o desmate completo.

Para evitar que esse cenário acabe se concretizando –convém lembrar que 20% da floresta já foi desmatada desde os anos 1970–, os participantes do evento defendem que é preciso combinar desenvolvimento econômico "inteligente" e inovação tecnológica de maneira a gerar renda na região sem mais desmatamento.

É basicamente essa a receita defendida pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo, do projeto MapBiomas, e do engenheiro agrônomo Beto Veríssimo, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). "Uma área desmatada de 20% na Amazônia já é uma coisa imensa, equivalente a todo o território usado para a agricultura no resto do Brasil. A gente não precisa desmatar mais do que isso, não faz sentido", diz Azevedo. Ele sugere que outros 40% da região poderiam ter o uso sustentável da madeira e de outros produtos florestais, enquanto os restantes 40% seriam reservas ambientais "puras". Veríssimo propõe números ligeiramente diferentes (50% de uso econômico sustentável da floresta em pé, 30% de reservas).

Os especialistas, porém, defendem que o verdadeiro "pulo-do-gato" para a região seria o uso de abordagens inovadoras para diminuir a dependência de estratégias econômicas destrutivas. "Seria viável rastrear eletronicamente todo o gado criado no país para evitar que ele venha de áreas desmatadas ilegalmente. Também seria possível criar laboratórios que unissem num só lugar a pesquisa básica sobre a biodiversidade amazônica e a criação de produtos com base nessas descobertas", diz Azevedo.

Classificação Indicativa: Livre

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