Um dos mais respeitados cientistas do mundo, o climatologista Carlos Nobre passou mais da metade dos seus 74 anos estudando o clima e a Amazônia - ainda na década de 1990, alertou sobre o risco de a floresta amazônica chegar ao ponto de não retorno, ou seja, perder sua capacidade de se regenerar. Na
COP30, Nobre teve a incumbência de criar o inédito Pavilhão da Ciência Planetária, o primeiro pavilhão oficial totalmente dedicado à ciência.
A ideia partiu do presidente da COP30, o embaixador
André Corrêa do Lago, com o objetivo de trazer a nata dos estudos científicos ligados ao estado atual do clima e dos ecossistemas, para informar - e influenciar - os negociadores sobre os riscos que a crise climática traz à vida na terra.
Segundo Nobre, a elevação da temperatura média de 1,5ºC é dada como certa entre cinco e dez anos, pois esse marco já foi ultrapassado temporariamente por 21 meses consecutivos, então é preciso correr para se evitar os piores cenários. “Se passar de 2ºC, o que temos é um ecocídio, um suicídio ecológico", diz. "Passando de 2ºC, a ciência alerta que vamos disparar vários pontos de não retorno: extinguir os recifes de corais, derreter o gelo da Groenlândia e do permafrost (solo congelado) e vamos perder a Amazônia", diz o climatologista. Os outros biomas brasileiros - Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e
Caatinga - também serão seriamente degradados, prejudicando todo o Brasil.
A partir desse cenário, aponta Nobre, a COP30 precisa arregaçar as mangas e tomar decisões para que a temperatura média global se eleve, no máximo, até 1,7ºC. Será preciso agir rápido para conter o atual ritmo das emissões globais de gases de efeito estufa, que aumentaram 1,1% no ano passado.
De acordo com Nobre, a ciência tem a receita: eliminar majoritariamente os combustíveis fósseis (que respondem por 75% das emissões globais); zerar as emissões líquidas até, no máximo, 2045 e, ao mesmo tempo, criar gigantes projetos de restauração de ecossistemas para remover o gás carbônico (CO2)da atmosfera.
Para isso, seria preciso restaurar, em todos os biomas do mundo, entre 5 milhões a 6 milhões de quilômetros quadrados, especialmente de florestas tropicais, o que removeria até 7 bilhões de toneladas de carbono da atmosfera. O Brasil pode liderar esse processo, contribuindo com um restauro de 1 milhão de quilômetros quadrados em todos os biomas, o que retiraria entre 1 bilhão e 1,2 bilhão de toneladas de carbono do ambiente.
"Com isso, a temperatura média global chegaria a 1,7ºC até 2050, com a perspectiva de baixarmos para 1,5ºC até 2070 e até menos em 2100. Isso é o que o Pavilhão da Ciência está colocando para os negociadores na COP30", diz Nobre.
E, mesmo no cenário de 1,7ºC, os eventos climáticos extremos - ondas de calor, secas extremas, tempestades e tornados como o que aconteceu no Paraná, com ventos acima de 200 km/h - devem aumentar, o que força a COP30 a brigar por mais recursos para a adaptação climática, um dos temas fortes da conferência. "Hoje, o que mais leva à morte são ondas de calor, são mais de 500 mil mortes por ano. No Brasil, mais de 4 milhões de brasileiros moram em áreas de risco para chuvas excessivas, como encostas e beiras de rios", diz Nobre.
Para mudar esse cenário, será preciso alcançar a meta de US$1,3 trilhões do financiamento climático anual para os países em desenvolvimento, e desses recursos, destinar uma fatia de pelo menos US$500 bilhões/ano para a adaptação, na visão dos cientistas.
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