Meio Ambiente

Junho Verde: Brasil perde cinco árvores por segundo em ritmo alarmante de desmatamento

Divulgação/Ibama
Queda de 20% em 2025 não esconde que o país perdeu área maior que Pernambuco para o desmatamento nos últimos sete anos  |   Bnews - Divulgação Divulgação/Ibama
Antonio Dilson Neto

por Antonio Dilson Neto

Publicado em 09/06/2026, às 05h00



O Brasil atingiu em 2025 o menor índice de desmatamento desde que o MapBiomas Alerta começou a monitorar os biomas do país, em 2019. Foram 984.794 hectares de vegetação nativa destruídos no ano — uma queda de 20,6% em relação a 2024 e a primeira vez na série histórica que o número ficou abaixo de 1 milhão de hectares.

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Mesmo com o recuo, o país perdeu em média 2.698 hectares de vegetação por dia ao longo de 2025 — o equivalente a 17 parques do Ibirapuera desaparecendo diariamente. Só na Amazônia, foram 792 hectares destruídos a cada 24 horas, o que equivale a cinco árvores derrubadas por segundo. No Cerrado, o ritmo foi ainda mais intenso: 1.482 hectares por dia.

Os dados são do RAD 2025, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, divulgado pelo MapBiomas Alerta no final de maio.

desmatamento

Para o professor Antonio Lobo, do Instituto de Geociências da UFBA e coordenador de Meio Ambiente da SUMAI/UFBA, o recorde positivo não deve obscurecer o tamanho do problema. "A Amazônia ainda figura como uma das principais áreas de desmatamento no mundo. A queda nos últimos três anos é resultado de uma ação mais intensa do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, do ICMBio e da Polícia Federal — mas as taxas ainda são altas", afirma.

Sete anos, 10,9 milhões de hectares e uma conta que não fecha

O marco de 2025 não apaga o acumulado. Entre 2019 e 2025, o Brasil destruiu 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa — área superior à do estado de Pernambuco. Um número que contextualiza o que a queda anual ainda não consegue reverter.

O Cerrado segue como o bioma mais castigado. Sozinho, respondeu por 54,9% de todo o desmatamento do país em 2025, com 540.614 hectares perdidos. A Amazônia vem em segundo, com 289.478 hectares — queda de 23,5% em relação ao ano anterior. Juntos, os dois biomas concentraram mais de 84% de toda a vegetação nativa destruída no Brasil no período.

O Pantanal registrou a maior redução proporcional entre todos os biomas: queda de 48,4%, com 12.260 hectares desmatados em 2025.

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Reprodução/Fundação SOS Pantanal

O professor Lobo contextualiza o problema numa escala global e aponta três grandes zonas de floresta tropical sob pressão no mundo: a Amazônia, a bacia do Congo, na África Central, e o Sudeste Asiático — com países como Indonésia, Malásia e Mianmar.

Nas três situações, a expansão da fronteira agrícola e as atividades de mineração, principalmente em busca de minerais críticos, são as grandes responsáveis pelo desmatamento", explica.

No caso brasileiro, ele detalha os vetores: "A expansão do grande agronegócio, com destaque para a criação de gado, a soja, o algodão, o milho e a cana-de-açúcar, além da mineração ilegal e das madeireiras, são os principais motores dessa destruição."

Bahia no topo 

A região do MATOPIBA, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, permanece como o epicentro do desmatamento nacional. Os quatro estados estão entre os cinco que mais desmataram em 2025 e, somados ao Mato Grosso, respondem por mais de 63% de toda a área destruída no país.

A Bahia ocupa a terceira posição no ranking estadual, com 110.616 hectares desmatados — queda de 17% em relação a 2024, mas ainda longe de um patamar tranquilizador. Dentro do estado, um dado específico preocupa: a APA do Rio Preto, localizada em grande parte no Cerrado, foi a Unidade de Conservação com maior área desmatada em todo o Brasil em 2025, com 7.701 hectares — aumento de 44% em relação ao ano anterior.

O professor Lobo não esconde o que sente ao analisar a situação do estado.

Meu sentimento é de tristeza e desapontamento. A Bahia é um dos maiores estados do Brasil, mas também um dos mais latifundiários, com muita terra concentrada nas mãos da agricultura patronal, e vem sofrendo muito com o desmatamento", afirma.

Ele aponta os vetores de pressão em cada bioma baiano. Na Mata Atlântica do sul do estado, a expansão do eucalipto e da pecuária. Na Caatinga, a instalação de parques solares e eólicos. No Cerrado do oeste, municípios como Correntina, São Desidério, Luiz Eduardo Magalhães e Barreiras lideram o desmatamento nacional.

A situação da Bahia é bem preocupante. O estado tem deixado muito a desejar nas políticas ambientais", diz.

Lobo faz um alerta específico sobre a Chapada Diamantina, onde projetos de mineração ameaçam os corpos d'água da região. "Esses projetos podem comprometer severamente as bacias do Rio de Contas e do Rio Paraguaçu — e, consequentemente, o abastecimento de água de Feira de Santana, Salvador e toda a região metropolitana", adverte.

O relatório não deixa dúvida sobre o que move o desmatamento brasileiro: a expansão da agropecuária responde por 99% de toda a vegetação nativa perdida no país em 2025 e por mais de 97% do acumulado nos últimos sete anos.

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Reprodução/Observatório Pantanal

O dado que mais chama atenção, porém, está na coluna da ilegalidade. De acordo com o MapBiomas, 96% dos eventos de desmatamento validados em 2025 apresentam indícios de irregularidade ou ilegalidade. Em área, isso representa 89% de tudo que foi destruído no ano. Apenas 4% dos alertas — equivalente a 11% da área total desmatada — não apresentaram sinais de ilegalidade.

Para o professor, há uma contradição estrutural entre os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil — signatário do Acordo de Paris, anfitrião da Eco 92 e da COP 30 — e o que acontece na prática. "Há um descompasso muito grande entre esses compromissos e a ação do poder econômico, do poder político e do Estado internamente. O Brasil hoje é o país que mais produz e consome agrotóxicos no mundo. Mais de 2.000 tipos foram aprovados pelo Congresso nos últimos cinco anos", afirma.

Ele aponta a bancada ruralista como o principal vetor de resistência às políticas ambientais. "Essa bancada se articula com outras de cunho econômico e às vezes religioso para aprovar pautas voltadas à expansão da fronteira agrícola. E isso se replica nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais", explica.

Quando uma árvore cai

Quando uma floresta cai, o estrago não fica só no solo. O professor Lobo lista os impactos em cadeia: climático, ecológico, sanitário, hidrológico e econômico.

As árvores são depósitos de carbono. Quando você destrói um bioma e ainda faz queimada para limpar a área, há uma liberação gigantesca de CO2, o que acelera o aquecimento global. E ao mesmo tempo você elimina a capacidade natural de retirar esse gás da atmosfera", explica. "Do ponto de vista ecológico, há uma perda enorme de biodiversidade — muitas vezes definitiva. Animais raros, endêmicos, como o mico-leão-dourado e as araras azuis da Caatinga, são diretamente afetados."

No campo sanitário, o alerta é sobre o surgimento de novas doenças. "Na medida que a gente destrói os biomas e vai ocupando esses espaços, aumenta o risco de doenças infecciosas provocadas por vírus e bactérias — como foi o caso da Covid", diz.

Lobo também desmonta o argumento do ganho econômico imediato. "Há uma falsa sensação de lucro no primeiro momento, com a exploração da área para agricultura ou mineração. Mas a médio e longo prazo vêm as perdas: empobrecimento do solo, desertificação, ausência de chuva, poluição dos corpos d'água. O bioma retroalimenta a fertilidade do solo. Quando você o destrói, mata o solo também."

E há um recorte que o professor faz questão de nomear: "O aceleramento climático penaliza primeiro as pessoas mais pobres — nas áreas rurais e nas periferias das cidades. São as primeiras vítimas dos alagamentos, deslizamentos, ondas de calor e doenças. E no meio disso tudo, temos uma população majoritariamente negra. Isso traz para o centro do debate o que a gente chama de racismo ambiental."

Políticas de proteção

A atuação de organizações criminosas que atuam em regiões de floresta entrou na mira da mais alta corte do país.

Em abril deste ano, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a União adote imediatamente medidas repressivas contra organizações criminosas que atuam na Amazônia. A decisão foi tomada na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 743, em que o STF determinou a adoção de medidas estruturais para aperfeiçoar as políticas de prevenção e combate a incêndios florestais, de fiscalização ambiental e de gestão territorial na Amazônia Legal e no Pantanal. 

Entre os elementos considerados para a decisão estão dados de investigações, relatórios oficiais e reportagens que indicam a crescente atuação de facções criminosas na região e o aumento da pressão dessas organizações contra os povos indígenas. 

Também há relatos de uso de tecnologias mais sofisticadas, como cianeto, na extração ilegal de ouro e episódios recentes que mostram a expansão logística e operacional dessas organizações, com impactos diretos sobre comunidades indígenas e ribeirinhas.  

Entre as medidas a serem detalhadas pela União estão a realização de operações pela Polícia Federal, pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Ibama, ações conjuntas com as polícias estaduais e ampliação da presença das Forças Armadas, especialmente em áreas de fronteira e regiões críticas, com decretação de operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), se necessário. 

Ainda segundo a decisão, a Advocacia-Geral da União (AGU) deve apresentar, em 15 dias, relatório com manifestações dos Ministérios da Justiça, da Defesa, do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas sobre as ações concretas em curso ou passíveis de ampliação no enfrentamento do problema.   

Segundo Dino, diversos processos estruturais em curso em seu gabinete têm demonstrado que a forte presença de facções criminosas na Amazônia Legal é um dos principais obstáculos à superação de crimes ambientais.  

O que muda com a nova regra europeia

O relatório projeta ainda o impacto da regulamentação da União Europeia sobre desmatamento — a EUDR —, que restringiu a entrada no mercado europeu de produtos provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Foram identificados cerca de 7 milhões de hectares nessa condição no Brasil, o que pode afetar até 264 mil imóveis rurais cadastrados no sistema nacional.

A queda de 2025 é real e representa um avanço concreto. Mas os números do relatório — e as palavras do professor Lobo — deixam claro que o Brasil ainda destrói muito, rápido demais, e em grande parte de forma ilegal.

A ação mais importante de todas é a educação ambienta. O Brasil precisa mostrar para sua população que a preservação ambiental é uma tarefa de todos e não só do poder público ou das ONGs. É um compromisso coletivo."

O recorde é uma boa notícia. O caminho que falta percorrer, uma realidade que os dados não deixam esconder.

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