Meio Ambiente
Publicado em 16/06/2025, às 06h00 Victória Valentina
A indústria da moda se tornou, ao longo dos anos, uma das mais poluentes do planeta. Para se ter uma ideia, a produção de uma única calça jeans pode consumir até 5 mil litros de água. Já uma camiseta convencional, feita de algodão, exige cerca de 2.700 litros — o equivalente a 70 chuveiradas. Um tênis, por sua vez, precisa, em média, de 14.000 litros de água do início da cadeia até o produto final.
Com tendêcias mudando a cada semana, é comum que pessoas se tornem cada vez mais consumistas, indo atrás de peças novas para encher o guarda-roupa. Acontece que, em meio a esse consumo acelerado, o meio ambiente é diretamente impactado.
No meio disso tudo, uma alternativa sustentável vem ganhando espaço nos últimos tempos: o upcycling. A técnica que consiste em reaproveitar roupas e tecidos que seriam descartados, transformando-os em novas peças, virou a queridinha de fashionistas e fonte de renda para muita gente. É o caso da costureira Marcela Santos fundadora do Ateliê Deusa Chic, que existe desde 2015 e une moda afro ao conceito de upcycling.
Ao projeto Junho Verde, do BNews, Marcela relatou que sua jornada na moda começou com um curso de customização de bolsas e acessórios no Bloco Afro Malê de Balê, em 2015. Durante o período, ela aprendeu a transformar fantasias de carnaval que sobravam em bolsas e acessórios vendáveis, despertando o interesse na prática.

"Comecei a produzir minhas próprias peças, reaproveitando jeans e outros tecidos como o de estofaria, que eu pedia em lojas e empresas que descartavam esses materiais. Também comecei a recolher retalhos com outras costureiras e transformava roupas jeans que seriam descartadas – como calças e bermudas – em bolsas, porta-celulares e nécessaires. Passei a enxergar o jeans com um potencial enorme de reinvenção e sustentabilidade", destacou.
Para Marcela, o processo criativo de trabalhar com "restos" é capaz de conectá-la com a ideia de desperdício zero e com a ancestralidade do fazer manual, onde nada se perde e tudo pode ser ressignificado.
"Faço garimpos em brechós e nas próprias comunidades onde estou inserida, buscando sempre materiais que possam ser transformados com propósito. Não é só uma questão de custo — é uma escolha política e ecológica. Eu acredito na economia circular, no desperdício zero e em dar uma nova vida para aquilo que muita gente já não enxerga mais valor", disse.
O maior desafio para ela, que também professora de turbante, é de quebrar o preconceito com o que é feito a partir da técnica de reaproveitamento. Segundo a costureira, é necessário provar, quase que diariamente, que o trabalho tem valor.
"Muita gente ainda associa produto sustentável a algo de menor valor, o que não é verdade. Um item feito com propósito, com técnica e consciência ambiental tem, sim, um valor agregado altíssimo. O problema é que estamos imersos numa cultura de consumo rápido, imediatista, que valoriza marcas sem propósito e sem compromisso com o meio ambiente", disse.
"Trabalhar com costura e reaproveitamento é uma forma de resistência, de dignidade e de ancestralidade. Os ofícios manuais, que antes eram passados de geração em geração, estão sendo esquecidos, mas eles são a chave para construir novos caminhos. O upcycling é uma chance de criar a partir do que já existe, de dar valor ao que seria descartado. É possível transformar um jeans velho em uma peça com valor agregado, com história, com propósito", finalizou.
Uma nova visão da moda
O estilista Tom Salvatore também trabalha diretamente com o conceito de upcycling. Ao Junho Verde, o baiano contou que entrou no mundo da moda há cerca de 25 anos, mas foi só em 2020 que passou a se interessar pela técnica.
"Foi com o projeto Sanatório da Moda, criado em 2020 através da triste experiência dos lixões e catadores de Salvador que eu tive um novo olhar sobre descartes. Nada, nem ninguém deve ser descartado. Passei a me dedicar nas criações com esses materiais e a propagar oficinas, cursos e criar figurinos", disse.
Segundo Tom, tudo que for resíduo têxtil serve para criar novas peças: retalhos de fábricas, resíduos de barras de costureiras caseiras, ou até peças com avarias para descartes.
"Minha coleção 'Andarilhos, Mendigos, Moradores de Rua e Chapeuzinho Vermelho' foi muito profunda. Em algum momento, eu precisei parar a pesquisa, pois eram temas muito difíceis: desigualdade social gritante, misérias, exploração, machismo, sexismo e tantas outras", explicou.
Seus produtos são expostos em lojas colaborativas, feiras, eventos e redes sociais. As peças também são vendidas sob encomenda. "Com esse trabalho, que é demorado, eu desenvolvi modelagens exclusivas que possam prolongar o uso das peças, atendendo diversos corpos e gêneros", finalizou.
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