Meio Ambiente
por Bruna Ferraz
Publicado em 25/09/2024, às 05h00 - Atualizado às 05h00
As queimadas que atingem todo o Brasil não são uma novidade, mas alcançaram um espaço de atenção à medida que os seus danos vão se tornando cada vez mais significativos. Diante dos problemas gerados pela queima da vegetação, muito se questiona sobre se esses danos são reversíveis ou não. Para explicar como funciona o alastramento do fogo em contato com diferentes biomas, ecossistemas e ambientes, o geógrafo e doutor em Ciências Florestais, análise de ecossistemas, Gustavo Hees de Negreiros, falou ao Bnews quando os danos podem ser considerados permanentes e o que pode ser feito para que o surgimento de novos focos seja evitado.
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Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) desde 2015 e com mais de 20 anos dedicados a atuação na Amazônia, Gustavo de Negreiros detalhou como funciona o efeito da queima em cada bioma específico. Quando se fala do Cerrado, por exemplo, o especialista destaca que essa é uma área naturalmente adaptada para receber, com certa frequência, as ocorrências de queimadas. Esse tipo de ecossistema se regenera de forma rápida, o que o coloca como uma zona “adaptada a queima”, contudo, o Cerrado não é adaptado para queimar com a intensidade e frequência na qual ele vem queimando, por isso, tem tido o seu sistema alterado.
Com relação a Mata Atlântica, Negreiros, que também é membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Itapicuru, do Conselho Estadual de Meio Ambiente da Bahia (CEPRAM) e da Sociedade Latino Americana de Ecologia Humana (SOLAEH), explicou que se trata de um bioma que adaptado justamente para não queimar, pois possui uma estrutura que retém mais umidade, mantendo mais material combustível no seu interior mais úmido e, por isso, é menos propenso a queimar em grande parte do ano. Contudo, algumas atividades têm provocado alterações significativas em sua estrutura.
“O corte seletivo de madeiras, a retirada de algumas árvores, tudo isso altera essa estrutura e gera muito material combustível que fica disponível para a queima. O fogo, muitas vezes, quando entra nesses períodos, ele queima só aquela serrapilheira, aquele material que está no chão da floresta. É um fogo que aparenta ser pouco ofensivo, com flamas baixas, um fogo que anda devagar, porém, ele causa uma alta mortalidade nas árvores que estão nessa floresta, porque as árvores não são acostumadas ao fogo, diferentemente do Cerrado”.
Diante dessas alterações, o professor destacou que, quando o fogo atinge essa mesma região pela segunda vez, já com parte das árvores mortas e com a geração de bastante matéria orgânica, ele queima de uma forma muito mais intensa e danosa para aquele sistema. “A primeira queima tem um problema grande, na segunda o problema é muito maior e pode sim ser irreversível”.
A Caatinga, outro ecossistema destacado pelo especialista, é uma área que ainda reúne poucos estudos realizados sobre a sua interação com as chamas, se a queima nela é frequente ou não e se ela é adaptada a esse processo. Já com relação às Serras e ao Sertão, Gustavo Hees de Negreiros explicou que, por se tratarem de espaços com campos de altitude, quando as queimadas chegam a eles, são muito danosas.
“Porque muitas vezes elas queimam o solo, porque são solos orgânicos, com uma quantidade de matéria orgânica muito grande, que muitas vezes podem queimar durante muito tempo. Queima as raízes, afeta muito mais a estrutura do ecossistema como um todo”.
Alterações definitivas
Segundo o professor Gustavo, as queimas são capazes de alterar em definitivo as condições vegetativas na Bahia, contudo, ao se tratar das condições climáticas, essa mudança vai depender das próprias condições da queima. Destacando que a terra é viva e resiliente, o especialista afirmou que, dependendo da força do impacto de um ataque a esse sistema, é possível que ele se regenere e volte a ser o que era, contudo, em alguns aspectos específicos, ele pode ter as suas características alteradas.
“Muitas vezes o sistema volta, mas a composição que a gente tinha não volta mais tão fácil assim. Uma coisa é a gente falar no acúmulo, outra coisa é a gente falar em composição, em biodiversidade e tudo mais. [...] Não é a Bahia que manda sozinha no clima da Bahia. O clima é a interação do local, do regional, com o global. São sistemas que funcionam juntos. A gente precisa fazer a nossa parte, cuidar do nosso, mas a gente também depende de todo outro sistema que vem do outro lado. As fumaças do Centro-Oeste não ficam restritas ao Centro-Oeste. É assim que funciona o nosso clima. Então, um impacto de um lado acaba influenciando no outro”.
O que pode ser feito?
Diante dessas demandas e de situações cada vez mais recorrentes de queimadas, Negreiros explicou que gosta de pensar em três dimensões de atuação quando se trata de fogo florestal: a física, e ecológica e a humana. Na dimensão física é preciso compreender que é o fogo como processo químico e físico. Sobre a parte ecológica é preciso se observar os impactos e as adaptações que existem dos ecossistemas e dos biomas com o fogo. Já sobre a dimensão humana é necessário compreender que as pessoas se relacionam com o fogo desde a Revolução Agrícola, há milhares de anos.
Ao tratar da relação do homem com o fogo, o especialista explicou que, antes de tentar coibir esse elemento de forma forçosa, é preciso discuti-lo e capacitar as pessoas para se relacionarem com ele. Apesar de frisar não ser mais possível para o homem produzir através do corte e da queima, como antigamente, o professor explicou que o indivíduo precisa ser instruído e capacitado pois, a partir da pura e simples proibição, muitos produtores ficariam sem comer.
“Para um agricultor que está numa área periférica, numa área rural, sem condições, lá no fim da estrada, na beira da mata, para ele produzir, ele não tem condições de ter equipamentos pesados. Muitas vezes é a enxada e o braço dele para trabalhar. E o sistema que ele sabe é a agricultura de corte e queima. Você limpa com fogo, mas você não só limpa. Quando você queima, muitas vezes você transfere parte dos nutrientes que estão acumulados na biomassa, na forma de cinzas, para o solo. E você, de certa forma, fertiliza esse solo. Faz uma vez e deixa um longo período em pousio [descanso], porém hoje em dia a gente não deixa mais em pousio porque o sistema nos força a produzir cada vez mais, mais, mais e mais. Então, sem o pousio, sem a recuperação, quando a gente queima de novo, deteriora o solo, perde a fertilidade do sistema como um todo e o solo passa a não responder mais”.
Quanto aos que queimam intencionalmente, Negreiros apontou que essa prática é criminosa e irresponsável, pois, ao fazê-la, o indivíduo não pensa no sistema como um todo. Para além do que é considerado crime, o especialista destaca a importância do papel de cada um na redução dos danos causados pela queima.
“O nosso papel é redução do desmatamento. O desmatamento não só emite mais gás carbônico para a atmosfera e proporciona o aumento temperatura pelo efeito estufa, mas também causa uma alteração da relação energética e hídrica entre a superfície do planeta e a atmosfera. Reduz a chuva, aumenta a retenção de energia no sistema e tudo mais. A gente tem que fazer o nosso papel nesse sentido, com a redução do desmatamento, com a conservação e ampliação de áreas conservadas, e pensar no planejamento territorial ambiental. Ou seja, não é ver a conservação como um inimigo do desmatamento. Desenvolvimento, mas é pensar no modelo de desenvolvimento no qual a gente possa também prever a preservação e a conservação dos recursos naturais que também nos servem”.
Para o pesquisador, todo o modelo de desenvolvimento precisa ser repensado, bem como a relação do indivíduo com o planejamento ambiental territorial, levando a conservação para o centro do debate, não em um segundo plano, em detrimento do desenvolvimento econômico.
Sobre esse tema, Gustavo Hees de Negreiros é coautor do livro ‘O fogo do fogo: Ecologia e política das queimadas nas serras do Sertão’. A produção, atual no Contexto das Mudanças Climáticas, aborda os efeitos das queimadas e como elas impactam os Centros Urbanos, as Comunidades Rurais e principalmente os biomas e ecossistemas. Além dele, os especialistas Juracy Marques e Ícaro Maia também aparecem como organizadores da obra.
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