Meio Ambiente
Com as constantes transformações frutos das mudanças climáticas, eventos atmosféricos extremos com períodos prologados de fortes chuvas, como as ocorridas no Rio Grande do Sul, se tornarão mais comuns e intensos. A saída pode ser as chamas ‘Cidades-esponjas’. As informações são do portal O Globo.
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O conceito de cidade sensível à água, remete à situação na qual ela possui a capacidade de deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na natureza” como explica um artigo sobre o tema publicado pelo Observatório de Inovação para Cidades Sustentáveis (da sigla OICS, uma plataforma virtual de mapeamento e divulgação de conteúdos e soluções urbanas inovadoras em sustentabilidade apoiada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA).
O homem de ideias por trás das Cidades-esponja é o arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu, de 61 anos. A intenção é a de criar nas cidades espaços de amortecimento, absorção e reaproveitamento das águas da chuva, para minimizar danos causados pelas enchentes. O conceito foi incluído em 2013 no plano nacional da China. As inundações gaúchas despertaram interesse em reproduzir a ideia no Brasil.
O sistema é inovador e contraria o senso comum, com um princípio de que diferente na gestão das chuvas, que é conter as águas: Yu é a favor de dar espaço a elas. Em vez do já conhecido método de barragem, centrado no concreto, com canais, represas e sistemas de drenagem, que Yu chama de “infraestrutura cinza”, o arquiteto diz que é mais eficaz e barato desacelerar a velocidade das águas com o aumento de superfícies que as absorvam, preferencialmente vegetação, mas também concreto poroso.
O arquiteto desenvolveu a inovação a partir da experiência de sua infância. Yu cresceu num vilarejo na província chinesa de Zhejiang, área de monções com alta frequência de chuvas torrenciais. De forma quase inconsciente, conta ele, os agricultores da região recorriam a um método natural para lidar com as enchentes, utilizando fossos, terraços e lagos para direcionar as águas e armazená-las para as épocas de seca. Yu estudou silvicultura em Pequim antes de partir para os EUA, onde fez doutorado em paisagismo.
Quando Kongjian retornou a seu país, em 1996, ficou espantado ao constatar que o principal sistema usado para lidar com as enchentes era produto da influência ocidental, principalmente de países europeus, onde as condições climáticas eram bem diferentes. Na Europa o clima é bem mais ameno, explica Yu, é possível prever as chuvas com maior facilidade, e elas se distribuem ao longo do ano de forma mais igual. Na China é tudo muito mais extremo e imprevisível, mas ainda assim se usa mais concreto que a natureza.
“Logo percebi que esse sistema era um total equívoco, porque não é resiliente. Era apenas uma cópia do modelo ocidental de urbanização”, diz Yu, segundo o qual o problema é sobrecarregar a chamada “infraestrutura cinza”, baseada no concreto “Os canais, represas e reservatórios não acumulam apenas água. Também acumulam risco.”
Eventos atmosféricos extremos aumentaram a frequência e a intensidade, como as enchentes no Rio grande do Sul, incluindo regiões que antes não viviam esse tipo de problema, como a Europa. Tudo fruto das drásticas mudanças climáticas. Segundo Yu, a principal causa por trás das inundações é a urbanização baseada no sistema tradicional de canalização, que rouba o espaço das águas e acelera sua velocidade, “como dar descarga no vaso sanitário”.
Como em geral as cidades estão no fim do fluxo das águas, perto de lagos e oceanos, é lá que ocorrem as piores inundações. A resposta está na natureza, afirma o arquiteto, defensor da “infraestrutura verde”: absorver as chuvas com um sistema de esponja baseado em vegetações perto de rios e lagos ou, quando isso não for possível, superfícies permeáveis.
De acordo com Yu, se 30% das áreas urbanas forem dedicadas às cidades-esponja, o problema das enchentes está resolvido. Ele reconhece que a urbanização acelerada e a especulação imobiliária podem ser um obstáculo para que o sistema tenha espaço suficiente, mas aí é preciso fazer com que a transformação das cidades se torne uma estratégia nacional.
“Assim como na China, as enchentes no Brasil não começam nas cidades, mas em áreas elevadas. O sistema de absorção não pode ser localizado, é preciso ampliá-lo, criar não apenas cidades-esponja, mas um “planeta-esponja”, quando as florestas desaparecem no Brasil e a área é usada para agricultura mecanizada, não sobra espaço para a água. A Amazônia, por exemplo, é uma esponja natural. Devemos aprender como ela funciona.”, explicou.
Enchentes são um problema milenar na China. Em 2012, 79 pessoas morreram vítimas de enchentes em Pequim, o que levou o governo chinês a adotar o sistema de esponjas baseado no estudo de Yu. Era uma questão urgente, já que 60% das cidades chinesas sofrem inundações todo ano.
De acordo com o arquiteto, o método pode ser implementado em qualquer região do mundo, e é particularmente útil nas áreas com grande índice pluviométrico. Desde que foram adotadas como estratégia nacional na China, há dez anos, as cidades-esponja inspiraram projetos em mais de 200 municípios. A meta é que até 2030 o sistema absorva 70% das chuvas em épocas de eventos climáticos extremos, evitando alagamentos.
Os conceitos de Yu expostos na conferência convocada pelo Papa Francisco chamaram a atenção das autoridades brasileiras presentes, entre elas o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o governador do Pará, Helder Barbalho, além do cacique Raoni. Todos “adoraram” a ideia das cidades-esponja e se interessaram em levá-la ao Brasil.
Yu conta que até conseguir convencer o governo a adotar suas ideias foram dez anos de intensa campanha, que incluiu cartas às autoridades, centenas de palestras e distribuição de milhões de cópias de seu livro. A conscientização de que todos são responsáveis é parte importante do processo, afirma.
“Cada indivíduo tem um papel importante, em seu quintal, na sua rua, nos espaços verdes, nas comunidades. É preciso que cada um pense em como manter a água em seu espaço. Cada indivíduo deve ser parte do sistema de esponja. Se você consegue manter a água em sua propriedade, está salvando vidas.”, finalizou.
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