Meio Ambiente

Junho Verde: desafios de conciliar o turismo em áreas costeiras com a preservação dos ecossistemas marinhos

Divulgação | Coral Grand Rivers
Biólogos alertam sobre impactos do turismo irresponsável, como a erosão costeira e a destruição da fauna marinha  |   Bnews - Divulgação Divulgação | Coral Grand Rivers
Alex Torres

por Alex Torres

Publicado em 08/06/2025, às 06h00



O estado da Bahia possui como uma de suas principais marcas registradas um rico turismo costeiro com cerca de 1.000 km de extensão, sendo considerada a maior costa litorânea brasileira. Atualmente, essa região é dividida em seis zonas, sendo a Baía de Todos os Santos e as costas dos Coqueiros, do Dendê, do Cacau, do Descobrimento e das Baleias. 

Dados consolidados divulgados em janeiro deste ano, por parte do Ministério do Turismo, apontam que, em 2024, os destinos baianos receberam mais de 140,7 mil turistas internacionais — um aumento de 52,8% em comparação com 2023. Além disso, a alta temporada de 2024/2025 também bateu recorde, com 9,4 milhões de turistas e uma injetiva de R$ 23,7 bilhões na economia estadual, segundo dados da Secretaria de Turismo do Estado (Setur-BA).

Junto com todo o fluxo de pessoas que chegam no território baiano, principalmente na alta temporada, existe a necessidade de conciliar esse turismo com a preservação dos ecossistemas marinhos. Neste dia 8 de junho se celebra o Dia Mundial dos Oceanos e, em referência ao projeto BNews Junho Verde, com enfoque ao meio ambiente e sustentabilidade, biólogos e representantes de institutos voltados para a preservação da fauna deram detalhes sobre essa preocupação. 

"Acho que não só no ambiente marinho, mas como em todos, o turismo sempre tem esses dois lados, que, não sendo bem planejado, de forma sustentável e responsável, ele traz danos. Então, a atividade no mar mal planejada, traz malefícios igual a qualquer outra atividade terrestre e, às vezes, pode agravar até mais, porque são ambientes muito sensíveis, específicos, e tem peças muito endêmicas. A gente já vem observando, no próprio aquecimento das águas, que traz o branqueamento, a pesca excessiva e predatória, minando a biodiversidade, uma captura de animais sem interesse comerciais e muitas vezes ameaçados de extinção", afirmou Sérgio Cipolotti, coordenador-geral do Instituto Baleia Jubarte.

Bióloga, educadora ambiental e ex-atleta profissional de surf, Carla Circenis comentou os impactos causados principalmente com relação ao pisoteio desses ambientes costeiros por conta do turismo. Ela ainda destacou a geração de lixo que acontece nas praias, produzidos por estabelecimentos instalados nas regiões, e também a chamada 'bioinvasão'. 

"As areias das praias não são desertos. Elas abrigam uma quantidade muito grande de seres vivos. Alguns são possíveis de serem vistos ao olho nu, mas têm seres que são muito pequenos e que vivem acoplados ao grão de areia. O pisoteio mata essa chamada nanofauna e microfauna, que é a base de toda a cadeia alimentar do ecossistema das praias. Ainda falando sobre o pisoteio, os próprios veículos, que em algumas praias são permitidos e em outros lugares eles são usados ilegalmente, esse peso sobre a areia causa o impacto do pisoteio", destacou. 

Outro problema comum ao uso da praia é a geração de lixo. A gente tem uma geração grande de resíduos sólidos que não são bem destinados e que muitas vezes são deixados nos ecossistemas costeiros. Os corais são ambientes muito sensíveis, que sofrem com muita fragilidade. Os manguezais também, a gente consegue encontrar resíduos de diversas origens, não só os que são lançados diretamente na praia, mas que são trazidos pelas correntes marinhas. Outro grande problema são os animais que vêm nos lastros das embarcações, que é uma fauna invasora, muitas vezes esses navios que chegam aqui no nosso litoral trazem alguns seres que não pertencem à nossa fauna. Sem falar também no impacto da ancoragem de barcos de turismo nesses ambientes mais sensíveis", completou Carla.

Outro tópico trazido pela bióloga é com relação a erosão costeira provocada pelas construções de forma irregular, como hotéis, pousadas, estabelecimentos e até casas residenciais que não cumprem a legislação e são construídos muito próximo dos ambientes costeiros e marinhos. A educadora explicou que isso causa uma devastação da restinga, que são ambientes de proteção, extremamente importantes para a conservação da biodiversidade.

Boas práticas

Sobre formas de seguir incentivando a prática do turismo, mas sem causar tantos danos ao meio ambiente, Sérgio Cipolotti destacou o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Baleia Jubarte, principalmente na observação dos cetáceos, trazendo estudos científicos de novas áreas com o crescimento populacional. 

"Turismo realizado de forma sustentável e responsável sempre vai trazer um grande aliado à preservação e conservação dos ambientes, respeitando a espécie, respeitando as características de cada animal observado e garantindo que eles permaneçam no seu habitat natural e realizando sua atividade, seja ela reprodutiva ou de alimentação", destacou o cordenador geral.

Por fim, Carla Circenis recomendou que os turistas prestem sempre atenção aos lugares para os quais vão viajar, uma vez que estes locais podem ser sensíveis do ponto de vista ecológico. Ela também destacou a importância de procurar operadoras que sejam registradas, com selos e certificados, e que se preocupem realmente com a questão da consciência socioambiental.

"Observar como é o meu comportamento dentro de uma área dessa. Se eu vou para uma área de corais, eu vou calçar sapato e sair andando pelo coral? Isso vai destruir. Tem que ver se tem uma trilha, como pode ser feito. Fazer um mergulho consciente, não dar comida aos animais, não deixar os alimentos que os animais possam estar consumindo, não jogar as coisas dentro do mar. A pessoa tem que ter um pouco mais de responsabilidade. Se vou usar algum produto, pensar naqueles que causam menos impacto para o ambiente", finalizou a bióloga. 

Classificação Indicativa: Livre

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