Meio Ambiente

Junho Verde: Festas lotam cidades, triplicam resíduos e pressionam meio ambiente na Bahia, alertam especialistas

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Turismo desafia o meio ambiente durante o período de festas em pequenas cidades; poder público, comunidade local e turistas devem ser corresponsáveis  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / Pexels
Cibele Gentil

por Cibele Gentil

Publicado em 13/06/2026, às 05h00 - Atualizado às 05h00



A Bahia é um dos destinos preferidos de visitantes de todo o mundo. A diversidade de paisagens, o clima e a extensão do litoral, a riqueza cultural e a singularidade gastronômica compõem um cenário que atrai turistas durante o ano inteiro. O calendário de festas tradicionais, como o São João e o Carnaval, é um atrativo à parte, que atrai multidões para as localidades onde acontecem as festividades.

Em um estado com vocação turística tão forte, adotar práticas conscientes para acolher os visitantes e promover a educação ambiental não é apenas uma escolha ética, mas uma necessidade. Ao viajar, é importante perceber que a “pegada” deixada interfere no ambiente e cuidar do que se consome e seus resíduos pode garantir a sobrevivência dos próprios cartões-postais.

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A existência de um planejamento para o manejo de resíduos e a infraestrutura de saneamento e recursos hídricos é papel fundamental que precisa ser exercido pelo poder público. Por outro lado, visitantes devem ter sempre a consciência dos impactos que podem gerar em sua estada nas localidades. Conciliar o desejo de explorar novos lugares e participar dos grandes eventos com a preservação ambiental é fundamental para o turismo sustentável.

O desafio dos municípios baianos durante as festas tradicionais

Quando a visitação acontece de maneira desordenada e sem planejamento, existe a grande possibilidade de que os impactos sejam negativos, até mesmo predatórios. Conforme explica o coordenador técnico do Centro de Arte e Meio Ambiente (Cama), Joilson Santana, o aumento da população com a chegada de um grande número de turistas ao mesmo tempo, pode causar um grande desequilíbrio.

​​"Muitos dos municípios que têm festas tradicionais como o São João, por exemplo, terminam recebendo quase o dobro ou o triplo da sua população. Há um volume muito grande de resíduos sólidos gerados, em função do consumo, que às vezes é triplicado, impactando rios, impactando nascentes, impactando manguezais", disse Joilson Santana.

Pesquisador engajado nas causas ambientais, com doutorado em Ciências Aplicadas a Dinâmicas Territoriais, de Ambiente e Sociedade (UCSAL) e mestrado em Planejamento Ambiental e em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social (UCSAL), ele demonstra sua preocupação sobre o tema. Segundo explica, a localidade precisa estar preparada e ter um planejamento para descarte de resíduos e uso racional dos recursos.

“Perceba que, se de forma ordinária, no dia a dia, aquele município já destina de forma inadequada os seus resíduos, já não faz o tratamento disso, impactando rios, nascentes, manguezais, impactando o meio ambiente, com o volume que é gerado durante esse período das festas, a partir do turismo, termina agravando ainda mais”, detalhou.

A pegada ecológica do turista

​​Ao visitar os lugares, é importante que o turista tenha a consciência de que a maneira consumir, bem como de fazer o descarte dos resíduos e das embalagens, interfere diretamente no meio ambiente e no futuro local. "A gente costuma explicar que a pegada do turista precisa ter uma pegada ecológica, equilibrada e economicamente justa. Tanto para ele, quanto para quem vive nesses locais”, explica o coordenador do Cama.

Sob essa perspectiva, Joilson Santana destaca o prejuízo causado pelo descarte inadequado de embalagens de plástico que, conforme relatou, têm contaminado e impactado a vida marinha. “Grande parte do impacto do plástico também vem das atividades ligadas a um turismo predatório", ressaltou, falando sobre um problema da atualidade para a saúde dos seres humanos, que é o consumo de peixes e frutos do mar contaminados por plásticos.

“A gente precisa reforçar a necessidade de que esse turista consiga materializar impactos positivos”, ressalta o pesquisador, fazendo referência tanto ao meio ambiente quanto à comunidade local. “A gente não quer de forma alguma solicitar que as pessoas parem de visitar os locais. Pelo contrário, a gente quer estimular que isso aconteça. Mas isso precisa acontecer de uma maneira equilibrada, responsável e, acima de tudo, qualificada”, esclareceu.

Nesse sentido, a “pegada ecológica” esperada dos turistas é que, de alguma forma, durante os seus dias naqueles locais, eles consigam contribuir com a preservação do meio ambiente. Essa contribuição pode vir através da destinação de embalagens para a coleta seletiva ou do consumo de espaços e serviços que contribuam também para a preservação.

O "dever de casa" dos municípios e a infraestrutura local

A responsabilidade sobre a sustentabilidade local, no entanto, não pode ser observada apenas sob a ótica da movimentação turística. Muito antes de contar com a consciência e boa vontade do turista, é necessário discutir o planejamento e a aplicação de políticas públicas estruturadas. A administração pública precisa ter em pauta planos de manejo de resíduos e proteção de biomas.

“Se os municípios, que é onde as coisas acontecem, não tiverem o dever de casa feito de forma notória, vai acontecer um impacto socioambiental negativo durante as visitações”, analisou Joilson Santana. De acordo com ele, o município deve estruturar planos, por exemplo, para os resíduos sólidos e coleta seletiva, ações de educação ambiental e de manejo das áreas de preservação ambiental.

Antes de pensar no impacto do turismo, os municípios precisam ter políticas de preservação ambiental constituídas e efetivamente materializadas para os cidadãos que já vivem nesses locais. “Se eu tenho um município desprovido de um planejamento voltado para uma política de meio ambiente, o turista vai chegar nessa cidade e, muitas vezes, essa chegada pode piorar a situação que esse município já vive”, explicou.

A partir daí, o próximo passo seria a elaboração de um projeto e um planejamento para receber os turistas, atendendo a premissa da preservação e conservação. De acordo com o pesquisador, isso possibilita que, ao chegar nesses municípios, os turistas consigam deixar uma “pegada” mais positiva quanto ao impacto econômico e preservação do meio ambiente.

“Se a gente tiver um equilíbrio desses dois legados em relação ao turismo, que é isso que a gente chama de turismo sustentável, é sempre bem-vindo e, claro, a gente espera que aumentem as visitações nesses locais, principalmente no período de festas”, disse Joilson Santana.

Guardiões do Meio Ambiente: papel dos trabalhadores das comunidades locais

O planejamento municipal pode, e deve, incluir projetos e atividades que envolvam a participação de trabalhadores da comunidade local. Além dos benefícios ao ambiente, o trabalho de catadores, artesãos e guias contribuem com a geração de renda e circulação econômica para a localidade.

Para ilustrar essa lógica, Joilson Santana traz como exemplo o descarte de óleo de cozinha e do azeite de dendê. O trabalho dos catadores inclui o recolhimento desse material, especialmente das lanchonetes, dos bares, dos hotéis e das baianas de acarajé.

"Um litro desse material destinado de maneira inadequada pode contaminar até 25 mil litros de água”, alertou. O coordenador do Cama ressaltou a importância da atividade: “quando os catadores e catadoras recolhem esse material, eles estão fazendo aquilo que a gente chama de preservar e guardar o meio ambiente. Esses profissionais são verdadeiros guardiões do meio ambiente."

Como ser um agente de transformação na sua próxima viagem

Com o planejamento municipal e a participação da comunidade, o visitante também pode se engajar e fazer parte desse movimento. Desde o momento do seu desembarque, ele vai conseguir identificar essas ações e poder contribuir.

O turista pode ajudar à sustentabilidade do destino visitado através de pequenas atitudes que trazem grandes resultados. Uma delas é valorizar o comércio local, prestigiando o artesanato e o trabalho de guias locais. Ações básicas como respeitar as regras de parques, praias e reservas são essenciais.

Há, ainda, posturas que deveriam ser adotadas no dia a dia e poderiam ser adaptadas durante as viagens. Um exemplo é reduzir o plástico de uso único e realizar o descarte adequado de embalagens após o consumo dos produtos. Economizar água e energia também contribuem para o equilíbrio do ambiente, sobretudo em visitas a pequenas localidades durante os períodos festivos, em que há um aumento abrupto da população.

​“Desde a chegada, esse turista já tem que estar ali sensibilizado, engajado e corresponsabilizado (...), com a finalidade de garantir que a gente tenha contribuições da passagem dele por aquele local também para a preservação do meio ambiente”, declarou Joilson Santana.

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