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Não justifique, denuncie: mulher fala sobre arrependimento de não ter denunciado agressões sofridas por ex-namorada

[Não justifique, denuncie: mulher fala sobre arrependimento de não ter denunciado agressões sofridas por ex-namorada ]
Por: Reprodução/ Agência Brasil Por: Yasmim Barreto 0comentários

Um dedo apontado para o rosto seguido de um grito, uma ordem disfarçada de pedido para que troque a roupa, um puxão de cabelo, um tapa, ameaças. Esses são alguns exemplos de agressões físicas e psicológicas que configuram a violência doméstica, segundo a Lei Maria da Penha (lei 11340/06), sofrida por diversas mulheres.  No entanto, engana-se quem acha que esse crime é de exclusividade de casais heterossexuais, ao BNews *Malu Cerqueira contou a trajetória de agressões sofridas pela ex-namorada *Vitória Santos e sobre o arrependimento de não ter denunciado: ‘’Hoje em dia eu me arrependo muito de não ter denunciado, um dos maiores arrependimentos da minha vida’’. Por isso, o BNews inicia a série Não justifique, denuncie, com intuito de mostrar que um dos caminhos para diminuir os casos de feminicídio é a denúncia.

À reportagem, a jovem de 23 anos relatou os motivos de não ter denunciado: ‘"Quando acontece com você, que envolve sentimento, a coisa da uma mudada de figura, então é muito complicado você ir denunciar a mulher que você está há anos e que você achou que ia casar e ter filhos, fazer juras de amor, sabe? Isso é muito complicado’’. Atrelado a isso estão os momentos felizes ao lado de Vitória: ‘"Foram muitos momentos bons. E um dos motivos que me fez ficar assim de denunciar e que eu descobri que muitas mulheres “cometem esse erro” é focar nos momentos bons que passaram com seus agressores e acabar ‘passando pano’ (absolvendo) pra algo que é imperdoável’’, afirmou Malu.  

Para o BNews, a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Periperi, Simone Moutinho, explicou que esse é um comportamento comum entre as vítimas de violência doméstica: ‘’Quem sofre violência doméstica tem uma dor muito forte, porque é uma dor de que o agressor é uma pessoa muito cara, muito próxima e que, não raro, uma pessoa que criou laços e sonhos e se vê tudo destruído. Se tem a ideia de fracasso pessoal muito forte dentro de si’’. Além disso, a delegada ainda completou: ‘’A mulher que sofre violência doméstica está sobre um torpor psicológico que chama ciclo da violência. Ela sente medo, ela está com estima baixa, ela sente muita vergonha, se sente até culpada da própria dor e das agressões que sofre’’.

Vagner Souza/BNews

O ciclo da violência – Malu Cerqueira admitiu que o relacionamento de quase cinco anos com Vitória Santos foi problemático de ambas as partes, por conta de comportamentos abusivos que uma tinha com a outra: ‘’era um relacionamento abusivo, por diversas vezes eu fui abusiva psicologicamente com ela e ela comigo, só que eu nunca cheguei a agredi-la fisicamente, mas ela me agrediu fisicamente duas vezes’’.  

Ainda segundo a jovem, além da saúde emocional, as agressões prejudicaram a sua carreira de percussionista, quando Vitória, durante uma discussão, quebrou o dedo de Malu tendo como consequência o fim do relacionamento.

‘’Fiquei muito tempo, fiquei meses sem tocar, porque tive que tratar dessa lesão. Só com o dedo engessado eu fiquei quase um mês, 20~25 dias, depois disso teve a fisioterapia aí foram meses de tratamento até ser diagnosticada com tendinite crônica. Ainda dói, é complicado, mas eu voltei a fazer barzinho que é mais suave. Tocar mesmo, eu pretendo voltar agora pra ver se consigo’’, relatou.  

A primeira agressão – A primeira agressão física, que Malu acredita ter acontecido por volta de 2017, foi na frente de amigas da percussionista, mas o fato foi perdoado: ‘’Na primeira vez foram uns tapas na frente de umas amigas minhas e tudo mais e simplesmente a gente se resolveu depois e eu fingi que nada aconteceu, achava que era um processo normal, que meio que merecia estar naquele lugar, por um problema de baixa autoestima, e de ouvir repetida vezes que eu era um lixo, que não prestava, que era uma desgraça, porque eu ouvia esse tipo de coisa dentro do meu relacionamento e eu achava que se eu estava passando por aquilo era porque eu merecia’’.

A culpa e o sofrimento se tornam comuns na vida das vítimas de violência doméstica, segundo a delegada da DEAM de Periperi: ‘’a mulher se sente culpada, ela se culpa da própria dor, ela se acostuma com a dor, no ciclo da violência, ainda mais se o agressor além de ser muito próximo, geralmente também é uma pessoa que um dia te agride e no outro dia te dá flores, depois volta a te agredir e a agressão vai aumentando e autoestima diminuindo’’.

O término – A relação entre Malu e Vitória chegou ao fim no carnaval de 2018. Malu contou que a ex-namorada agrediu verbal e fisicamente após ter tido uma crise de ciúmes, porque Vitória teria adoecido e não poderia acompanhar Malu na festa. Ainda conforme os relatos, a percussionista teria sido empurrada por Vitória assim que a mulher percebeu que Malu iria sair com as amigas sem a presença dela. Contudo, Malu ressaltou que era comum as duas saírem separadas, mas nesse dia Vitória não gostou e agrediu a ex-namorada.  

Durante a briga, Malu teria questionado o motivo de Vitória estar agressiva e a mesma respondeu: ‘’eu estou com você porque eu tenho pena de você, porque você não tem mãe, nem pai, você é sozinha no mundo e se eu sair da sua vida você não vai conseguir tocar nada pra frente. Atestando uma dependência emocional muito grande, que realmente existia por todo o contexto particular, ter pedido minha mãe e enquanto ela falava as coisas, ela me batia, me dava vários tapas, pegava meu dedo e torcia, puxava meu cabelo e aí ela puxou meu dedo muito forte e quebrou’’, relembrou.

Na ocasião, Malu disse ter ficado 20 dias com o dedo engessado, passou por fisioterapia, necessitou de medicação e desenvolveu uma tendinite crônica, o que teria prejudicado a carreira da jovem.

Além do problema no dedo, a conturbada relação deixou outros resquícios na vida de Malu: ‘’Isso me afetou muito, muito psicologicamente, demais, tanto que hoje em dia eu tomo remédio, tomo ansiolítico antidepressivo, isso foi uma virada de chave muito ruim pra minha saúde mental, sabe? Eu tenho crise de pânico, crise de ansiedade, muito ruim, e uma sensação de injustiça, sabe? Porque quando eu fui abusiva, ela me expôs na internet e eu sofri muito as consequências do que fiz, mas ela é uma agressora de mulher, ela bateu em uma outra mulher e não sofreu nenhuma consequência diante disso, e eu também não tive coragem de denunciar’’.

O aprendizado – Apesar de todos os problemas que Malu passou, a jovem lésbica usa seu exemplo para alertar e dar visibilidade a um assunto pouco discutido: relações abusivas entre mulheres lésbicas. ‘’É uma coisa que eu não tenho vergonha e nem medo de falar, sabe? Porque eu acho que a gente tem que falar sobre relacionamentos lésbicos abusivos e eu sempre falo pra todas as meninas: "denunciem, não tenham medo, não façam o que eu fiz’. Porque se eu pudesse voltar atrás com certeza teria ido na delegacia da mulher e teria enfrentado esse processo judicial, porque é uma coisa que não pode sair impune’’.  

Das agressões verbais ao feminicídio – A jovem conseguiu quebrar o ciclo de violência causada pela ex-namorada antes que ações pudessem progredir. Contudo, a drª Simone Moutinho contou que existem muitos casos que não são assim e acabam terminando em feminicídio. Portanto, a delegada explicou a importância da denúncia:

 

Violência doméstica – Conforme a Lei Maria da Penha, a violência doméstica é toda agressão física ou psicológica dentro do ambiente familiar ou de afeto íntimo, independente de coabitação: ‘’A ideia do legislador é que as pessoas que moram na mesma casa tem uma certa liberdade em relação as outras e aquela proximidade pode facilitar esse delito, é essa a ideia. E nas relações de afeto intimo independente de coabitação e independente também de estar em vigor ou não, ou seja, serve para relacionamentos recentes e passados, independentemente do casamento ou que se configure união estável’’.

*Os nomes são fictícios para preservar a identidade das personagens

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